Periélio
Ao colocar minha cara para fora da cabana, a primeira sensação que tive foi a de um calor opressivo. Não que dentro dela fosse muito mais fresco, mas do lado de fora era muito pior. E para piorar, também havia a umidade e o fedor, o fedor de milênios de decomposição. Não era o melhor dos lugares para se estar, mas ainda assim, sentia que era ali que eu pertencia naquele momento.
Desde que tive o meu colapso nervoso na torre de transmissão, que não me sentia tão bem comigo mesmo. É como se algo em mim estivesse quebrado – talvez fosse a falta que eu sentia de exercer o meu trabalho, ou até mesmo a falta que sentia da minha rotina. Mas eram precisamente essas coisas que haviam feito seu estrago em mim.
Ainda perdido em devaneios obscuros, que tentavam fazer com que eu me arrependesse de estar naquele lugar, tomei vergonha e me pus a fazer aquilo que estava adiando por tanto tempo – pintar. Na verdade, antigamente eu pintava quase todos os dias de folga, só que aquilo não me supria mais, pois era mais como mais uma obrigação, e não como o momento de lazer que deveria ser.
Toda semana, no único dia de folga que tinha, eu subia no observatório mais remoto das muralhas da cidade, e observava as montanhas ao fundo, admirando como elas pareciam expelir a pequena carreira de luas que o planeta esbanjava. A cordilheira não era nada para se gabar, mas era a coisa mais interessante que eu podia ver de cima daquela muralha, já que toda a instalação era feita em uma planície desmatada.
Uma coisa que sempre discordei da natureza naquela paisagem, era do fato de que independentemente da época do ano, o arco galáctico nunca estava alinhado com as montanhas ao sul da nossa cidade. E aquele pequeno erro nunca saía da minha cabeça. Tanto que em um dos meus estudos da paisagem, usei da minha liberdade artística para corrigir esse pequeno deslize cometido pela toda-poderosa Mãe-Natureza, e alinhei a Via Láctea com as minhas montanhas.
Apesar de serem minha especialidade – se pudesse ser dito que um técnico de telecomunicações fosse especialista em alguma área das artes visuais, – os estudos de paisagem não eram minhas únicas pinturas. Também já havia me aventurado no retrato de seres humanos – e uma vez de um cavalo. Majoritariamente, eu treinava pintando a mim mesmo no espelho, mas meus auto-retratos eram atrocidades, pois por mais que tentasse, nunca fui capaz de realmente usar meu estilo realista em meu próprio rosto. Então preferia pintar meus amigos próximos.
Meu melhor retrato havia sido da minha amiga Isis, que tinha conseguido ficar parada por horas enquanto eu errava de novo e de novo, tentando reproduzir seu belíssimo rosto rechonchudo na minha tela. Já o retrato que havia feito de Nagwa não tinha saído tão bem, e por isso eu culpo ele, que mudou de posição uma quantidade irrazoável de vezes durante o processo de produção da peça.
O cavalo já é outra história completamente, mas ela não é de importância.
Apesar do meu passatempo com a pintura, muitos diriam que minha verdadeira paixão era o meu trabalho, para o detrimento da minha vida social e amorosa. Claro que os inseparáveis Isis e Nagwa se opunham fortemente ao meu relacionamento abusivo com meu emprego na torre de comunicação, mas eu havia dado tudo de mim para chegar onde estava. Nada iria tirar aquilo de mim, nem mesmo o sono ou besteiras como ficar passando por charadas com um homem atrás do outro, só para ver que na verdade, eles não têm valor algum na minha vida.
A vida em um posto avançado como aquela cidade, não era fácil para ninguém, mas era ali onde estavam as oportunidades de realmente crescer nessa Galáxia onde vivemos, ali era onde estavam as oportunidades para se fazer uma fortuna, ou para fazer alguma descoberta. Pelas estrelas, atrás de cada árvore esquisita, debaixo de cada pedra poderia estar uma grande nova descoberta. Eu não era um explorador por vocação, mas acredito que todos nós que havíamos saído dos nossos planetas já estabelecidos para irmos viver em buracos sem infraestrutura como aquele, tínhamos esse sonho em algum lugar nos nossos corações. E foi por isso que eu saí de onde vivia, para assumir um cargo técnico em um planeta esquecido pelos deuses, em um fim de mundo galáctico. Tanto pela aventura, quanto pelo adicional de periculosidade.
Mas para minha surpresa, viver apenas para trabalhar a noite toda com máquinas mal-otimizadas e com pessoas estúpidas, teve um efeito negativo na minha saúde física e mental. E numa bela noite, quando eu estava fazendo minhas horas extras – eu sempre fazia uma vez e meia as horas de trabalho todas as noites, – um outro técnico cometeu um pequeno erro, mas que para um homem desprovido de sono, e com um enorme acúmulo de estresse, era inaceitável. Vendo o estado em que eu fiquei após o leve desentendimento, meu supervisor me deu férias forçadas, pagas pelo meu banco de horas extras.
Inicialmente, eu fiquei terrivelmente furioso com isso, mas logo Nagwa conseguiu me apaziguar. Ele disse, “Hubert, meu caro, isso é um presente, você pode ter algo que ninguém mais nesse buraco tem: férias” – ou algo nessas linhas. E ele tinha um ótimo ponto, ninguém além da administração nunca tinha férias naquele posto fedorento. As nossas férias eram o desemprego, ou a viagem interestelar que vinha com a transferência do programa de colonização.
Ele e Isis me convenceram a aproveitar esse tempo que me havia sido concedido, e realizar algo que eu tinha passado tanto tempo falando sobre, que era visitar novamente o pântano além das montanhas. Mas dessa vez para fazer estudos inéditos das paisagens que só existiam lá, e também para me reabilitar da vida enclausurada dentro das muralhas da cidade.
Aluguei o pacote de prospector básico, e assim que anoiteceu, saí em direção às montanhas. Eu já tinha feito aquela trilha antes, com meus dois amigos, mas isso havia sido apenas uma vez, durante um dos raros feriados que aquele lugar tinha. O maior desafio, como tudo que era feito fora das muralhas, era enxergar alguma coisa, já que, necessariamente, todas as atividades deveriam ser feitas durante a noite.
Não era incomum no escopo galáctico, a vida em planetas com atmosferas pouco amigáveis à vida humana, mas o custo operacional de se ter um posto avançado em um lugar assim, muitas vezes não se sustentava quando a rentabilidade não era estabelecida nos primeiros anos do seu funcionamento. Então, como alternativa, todo planeta com uma atmosfera remotamente respirável, era considerado um imóvel de primeira. E esses foram todos os quesitos levados em consideração durante o estabelecimento do posto avançado de Klono-II.
Só haviam dois empecilhos então, que seria a quantidade de gases nocivos na atmosfera, e a proximidade do planeta com a estrela. Todos nós tínhamos nossas máscaras de filtragem para atividade externas, e sair por aí sem uma máscara extra era insanidade. E o outro problema, era o calor que fazia durante o dia – mais de setenta graus. A flora e a escassa e esquisita fauna daquele lugar, estavam adaptadas a tal desconforto térmico, mas não os invasores humanos. Então estávamos exilados como hóspedes noturnos ali, vivendo com o frescor dos mais de quarenta graus da noite.
Porém, essas eram as temperaturas médias para o restante do ano, pois durante o auge do verão, no período do periélio, a coisa ficava ainda mais agravada, e o calor era insuportável até mesmo durante a noite. Mas foi nesse contexto em que fui viajar sozinho no escuro, mata adentro, em um calor de cinquenta graus. Muitos daqueles que vivem em mundos mais confortáveis podem não entender isso, mas parceiros do programa de colonização seriam solidários. Já conheci homens que haviam ido pescar em temperaturas capazes de congelar as rodas dos seus veículos, apenas por ser o tempo que eles tinham para fazer isso.
Além da minha roupa leve, também estava usando o equipamento de resfriamento que me fora disponibilizado, de tal forma que a sensação térmica era bem menor. Só que isso consumia a bateria do equipamento, e eu precisaria deixá-lo recarregando no sol durante o dia. A maior parte das coisas de acampamento vinham em um carrinho que eu tinha que empurrar, mas para minha sorte, isso também era assistido por motores elétricos, que igualmente iriam precisar de recarga.
Caminhei a maior parte da noite, mas finalmente consegui atingir meu objetivo. Quanto mais próximo eu ficava de terminar o cruzamento das montanhas, mais quente o ar ficava, e também mais úmido, chegando a parecer que eu estava nadando em uma névoa de vapor ao invés de apenas um homem caminhando pelo ponto mais frio do dia.
Enquanto o dia já amanhecia, montei minha cabana portátil, e estabeleci contato com a cidade, deixando registrado o horário e o local onde eu estava, por motivos de segurança. Minhas pernas estavam ardendo, e a temperatura aumentava violentamente, erguendo aromas que até mesmo atravessavam a filtragem da minha máscara – a qual já tinha passado do ponto em que sua vedação machucava meu rosto.
O dia foi terrivelmente incômodo, e apesar das coisas esquisitas que ouvi, meu corpo se recusava a se mover ou a abrir os olhos. Então meu primeiro dia ali se passou com uma rapidez impressionante, já que eu estava praticamente em coma. Fui desperto apenas pelo terceiro alarme programado no despertador da cabana portátil, o qual anunciava o cair da noite – o período onde as bestas dormiam, e os humanos acordavam.
Então coloquei minha cara para fora, e senti o calor opressivo e os cheiros horríveis de milênios de decomposição, pois aquele lugar era um pântano dos mais vis e perturbadores. Talvez seja precisamente por isso que eu e meus amigos nos sentimos tão morbidamente atraídos até aquele lugar para começo de história. As formas das suas árvores, a névoa e as sombras projetadas por tantas formas obscurecidas que bloqueiam a luz estelar, criam ideias na cabeça do seu observador, de uma forma que apenas aquele lugar conseguia fazer.
Tínhamos ouvido falar do pântano através de alguns prospectores que estavam conversando um dia nos corredores perto do complexo esportivo. Desde então, nossas mentes se mantiveram fascinadas por aquele lugar envolto em trevas e mistério. Não que isso fosse muito interessante por si só, mas para quem tem aventura no coração, querer conhecer esse tipo de coisa é precisamente a atividade mais interessante possível.
Naquele feriado em que nós marchamos até aquele lugar, acampamos por apenas um dia, e então retornamos para a cidade assim que anoiteceu, já que não havia tempo para mais nada. Só que aquele lugar ficou na minha cabeça, ainda assombrando meus sonhos, mas de forma positiva, se é que isso seja remotamente possível. Mais de uma vez eu tentei reproduzir o mistério tenebroso daquela paisagem usando imagens que capturamos de lá, em conjunto com a minha memória, mas ainda assim não foi possível reproduzi-lo de uma forma fiel e que faça jus ao verdadeiro local.
E ali, na minha primeira noite acampado durante minhas férias compulsórias, pude voltar a ver o poder daquele lugar, o mistério que era emanado pelas sombras e pelas árvores, pelos sussurros e uivos dos ventos, e talvez das pequenas bestas que rastejavam, escalavam e voavam, todas ocultas da percepção daquele mamífero interestelar que ali estava. E naquele momento, até mesmo o calor parecia valer a pena.
Minha luminária era suficiente para ofuscar a visão que eu teria da paisagem escura, então tive que mantê-la apagada. Meus olhos estavam acostumados com o escuro, e tudo que podia ver era aquilo que era tocado pela fraquíssima luz estelar. Usei apenas as cores mais escuras, e os tons eram todos parecidos, mas o importante era como as formas se relacionavam entre si.
Como a maioria das minhas telas, aquela tinha o disco galáctico bem no centro, cruzando o céu, mas optei por fazê-lo no fim. Naquele momento, tudo que queria captar era o que eu não era capaz de encontrar em nenhum lugar em nenhum outro planeta – a atmosfera sinistra e pacífica daquele pântano. Uma coisa que me atrapalhou bastante na segunda metade da noite, foi quando a névoa quente começou a subir muito, e a sua umidade estava borrando algumas das minhas pinceladas.
Isso me fez pensar que talvez usar tintas em uma tela de tecido ao ar livre não fosse a melhor das ideias que eu já tive.
Me retirei de volta a minha cabana quando o sol começou a disparar seus primeiros raios avermelhados por cima das montanhas ao leste. Minha pequena cabana continha apenas uma cama, um baú, e algumas estantes nas paredes – inclusive por cima da cama. Aquela coisa era uma maravilha da engenharia aos meus olhos, pois podia ser colapsada até se tornar só um pouco maior do que uma pessoa. E devido ao metal ultra-leve usado na sua fabricação, tampouco pesava muito mais do que uma.
Em algum ponto durante o dia, meus olhos se abriram lentamente, pois eu sentia como se algo estivesse perfurando meu rosto. Era apenas o calor extremo, mas eu estava coberto de suor, e com aquela sensação ruim na boca. Me levantei para verificar o sistema de climatização, e sua temperatura indicada era muito abaixo da minha sensação térmica. Obviamente eu tive a sorte de receber um equipamento quebrado.
Como não havia nada que pudesse fazer sobre isso naquele momento, tentei voltar a dormir, apenas para ser novamente acordado, mas dessa vez por algo alheio ao calor. Dessa vez, era um som perturbador que cercava minha cabine. Repetidas vezes, algo andava em círculos ao redor do meu pequeno acampamento. Eu não podia ver nada, já que a estrutura não possuía janelas, mas por algumas horas, fiquei sentado na cama, passando mal com o calor, e ouvindo os passos arrastados circulando a minha cabana.
Até onde eu tinha ciência, não existiam predadores de grande porte naquele planeta. Na verdade, toda a vida animal terrestre era razoavelmente patética, quando se considerava o tamanho e o poder das entidades individuais. Os únicos predadores de que eu tinha conhecimento eram aves e alguns répteis que tinham no máximo o tamanho de um cachorro. As verdadeiras ameaças estavam na água, e por isso, nós éramos instruídos a nunca entrar na água, sob nenhuma circunstância. Além de que ela era superaquecida.
Por horas eu me mantive imóvel na cama, tentando chegar a uma conclusão sobre o que eu estava ouvindo. Seria aquilo um grupo sincronizado de lagartos arrastando suas barrigas nas folhas? Seria aquilo um prospector com um terrível caso de insolação? Mas nenhuma dessas melhores hipóteses era suficiente para me fazer abrir aquela porta em plena tarde.
Em algum momento, fui capaz de desmaiar de sono, apesar da minha consciência tentar me manter acordado. Assim que despertei novamente, procurei desesperadamente por algum sinal de dano ou arrombamento na minha pequena cabana. Mas nada estava fora do lugar. Aceitei minha sorte e me repreendi por minha paranoia desnecessária.
Sons estranhos no período de sono eram certamente uma parte comum da arte de acampar, e eu não deveria fazer um caso tão grande disso. Me convenci então de que na verdade, eu havia sido muito mimado pelas muralhas enormes da cidade, e que a falta de contato com a natureza estrangeira daquele lugar havia me deixado doente. E então eu estava ali exatamente para remediar isso, por meio do meu estudo de paisagem.
Saí da cabine e voltei ao trabalho.
A névoa estava um pouco diferente da noite anterior, e talvez até mesmo parecia emanar do chão sob meus pés. Dei atenção a isso apenas o suficiente para adicionar esse detalhe à minha pintura. Passei uma boa quantidade de tempo tentando capturar a essência da névoa, a qual obscurecia as regiões alagadas, e mesclava com as áreas aterradas. Isso fazia com que não fosse possível andar por ali sem correr o risco de escorregar e afundar nas profundezas escuras, misteriosas, e ferventes das águas râncidas.
Naquela noite, a mata parecia muito silenciosa, sem o chiado das criaturas pequenas que ela habitavam. Notei isso e comecei a imaginar que durante o dia, eu também não havia notado o som de nenhuma forma de vida naquela natureza, apenas o distinto som dos passos arrastados que cercavam minha cabana por horas sem fim.
Talvez realmente fosse algum tipo de predador de grande porte que desconhecemos como colonos. Mas intelectualmente, eu sabia que pessoas muito mais competentes do que eu nesse quesito já tinham estudado tudo que havia para estudar naquele bioma. Não havia o que temer. Ou ao menos foi isso que eu disse para mim mesmo enquanto dava pinceladas na minha antiquada tela de tecido.
Quanto mais eu pensava sobre a quietude daquele pântano, mais eu me convencia da presença de algo que afastava os animais menores. Por mais que isso pudesse ser verdade, a criatura seria uma de hábitos diurnos. Mas isso não era suficiente para me convencer de que eu não estava em perigo ali fora.
Terminei o dia de trabalho mais cedo e voltei para dentro da cabana, trancando tudo com mais ênfase do que era necessário. Me peguei sentado na cama abraçando os meus joelhos como uma criança assustada, e por um momento imaginei o quão ridículo eu estava sendo, e o quanto aquela cena seria cômica para outra pessoa. Mas eu não era outra pessoa, e eu não tinha ninguém para rir de mim naquele momento. Engoli a vergonha social sem razão, e me mantive da forma como eu me sentia melhor.
Pouco depois do ponto que o relógio interno disse ser o alvorecer, os sons retornaram, dessa vez mais próximos. Eu estava dormindo naquele momento, desmaiado em minha posição fetal, coberto de suor, como se tivesse acabado de tomar um banho com água quente salgada. Nada mais podia ser ouvido, apenas aqueles passos circundando a cabana, cada vez mais próximos. Dessa vez, a cada volta eles ficavam mais próximos. Era como se fosse lá o que era, estivesse se atrevendo cada vez mais a se aproximar do objeto estranho.
Quando tudo parecia ter acabado, meu novo pesadelo se estabeleceu. Algo se chocou contra a parede da minha cabana. Talvez fosse uma pedra ou um galho, mas certamente algo foi atirado contra aquela parede. Minutos depois, um segundo choque, dessa vez mais pesado – um objeto maior. E a força com a qual os projéteis encontravam meu santuário, indicavam um ser de terrível força, e talvez também de capacidade motora, já que era capaz de arremessar objetos.
Aquilo era demais para mim, então assim que consegui superar a paralisia do medo, abri o terminal e tentei de comunicar com a cidade. Digo que tentei, pois não tive sucesso algum em estabelecer uma conexão com a torre de comunicação. Era como se ela não estivesse lá. Ou alternativamente, como se a minha antena não estivesse comigo.
Seria possível que aquela aberração tivesse arrancado a antena da minha cabana? Não havia ouvido nada que indicasse isso, mas certamente seria uma ação de muita sorte, ou apenas de inteligência estratégica, remover minha comunicação com o mundo exterior. Nesse momento tentei colocar a minha criatividade sob controle, já que eu estava imaginando uma monstruosidade obscena, inteligente o suficiente para mecanicamente remover meu equipamento de transmissão. E isso certamente não era a coisa que estava lá fora.
Eu tinha que pensar e agir como uma pessoa racional. Não havia forma alguma de pedir ajuda, ao menos não até a noite. Mas eu estava perfeitamente seguro dentro daquele abrigo. A não ser que a criatura realmente dispusesse de força descomunal – como eu suspeitava que dispunha. Nesse caso, ela poderia arrancar a porta, ou virar toda a estrutura de lado, ou até mesmo abrir um buraco na lateral com uma rocha. O metal leve que fazia com que ela fosse tão fácil de carregar era exatamente o que poderia fazer com que eu não estivesse seguro.
Comecei a andar de um lado para o outro do único corredor que existia dentro daquela lata. Minha única alternativa era tentar assustar a besta – se besta ela era. Mas eu tinha noção de que isso poderia facilmente sair pela culatra e fazer com que ela se irritasse ainda mais. Até onde eu sabia, aquele ser estava irritado com minha cabana pelo simples fato de que era uma grande caixa de metal disposta no meio do seu território. Ela provavelmente estava brilhando sob o sol da manhã, e acumulando calor do lado de fora, parecendo talvez um enorme rochedo quente de luz.
Talvez se essa mesma coisa também fizesse barulho, fosse demais para qualquer predador de alto nível. Passei muito tempo pensando nessa hipótese, com medo de piorar ainda mais minha situação já precária. Mas o bombardeio não parecia terminar, apesar de ser intermitente e assimétrico. Muitas vezes se passavam muito minutos até que mais um objeto fosse disparado contra meu refúgio.
Foi quando ouvi os passos chegando até a parede, que eu tive que tomar uma ação em impulso. E essa ação foi exatamente pegar uma ferramenta de metal que estava sobre uma prateleira, e batê-la com toda minha força contra a parede. O som que ecoou dentre as paredes metálicas não fez bem para minha cabeça, a qual latejou imediatamente, então não pude focar na reação do meu vilão obscurecido.
Mas em poucos segundos, um novo projétil foi disparado, dessa vez o maior de todos, fazendo um som similar ao que eu mesmo havia produzido previamente. Era óbvio que eu tinha feito uma de duas coisas, assustado a besta o suficiente para ela reagir violentamente e depois disso fugir, ou eu a havia enfurecido.
A cacofonia estridente produzida por aquilo que eu posso descrever apenas como garras sobre metal, era a única resposta que eu precisava para entender o que eu havia feito. Minha situação era ainda mais precária naquele momento, e nada mais poderia me salvar, talvez apenas o anoitecer. O único problema com isso, era que eu ainda estava na primeira parte da manhã.
O lado positivo era que eu estava perfeitamente seguro dentro do meu abrigo. Ou será que estava mesmo?
Quanto mais perto da tarde, mais espaçados ficavam os ataques contra minhas muralhas de metal leve. Isso me dava esperança de que a coisa estava se cansando de sua investida, já que sua presa não rendia, não caía, não morria, e também não atacava de volta. Talvez se não fosse pela minha pequena tentativa de transformar as paredes da minha fortaleza em um gongo, aquele ser já teria se cansado de atacar um objeto imóvel e silencioso.
Consegui dormir pouco após o meio-dia, pois não houve mais nenhum ataque. Porém em nenhum momento consegui ouvir seus passos se afastando. Existia a distinta possibilidade de que meu algoz estivesse ainda ali, assistindo a pedra cintilante. Mas eu não estava em condições de prosseguir com a minha vigília dia adentro.
Quando a noite caiu, resolvi esperar algumas horas antes de sair para checar meu equipamento de transmissão. Eu precisava daquilo, pois tinha a necessidade de pedir ajuda, mas não queria arriscar sair enquanto aquela coisa ainda estivesse acordada me esperando. Eu imaginei como se um animal pudesse possivelmente saber que havia uma pessoa dentro daquela estrutura.
Finalmente tive a coragem suficiente para abrir a porta e olhar para o lado de fora. Não havia nada de estranho ali, nem mesmo uma monstruosidade gigante, preparada para me devorar. Então dei a volta na cabana para checar a antena. Ela ainda estava lá, exatamente da forma como deveria, visualmente sem nenhum dano. Mas ao inspecionar os seus circuitos, percebi que eles estavam parcialmente derretidos. Não imaginei que isso seria possível, já que aquelas coisas eram feitas exatamente para aguentar o calor insuportável daquele planeta.
Minha situação estava disposta diante de mim. Não tinha como eu pedir ajuda sem meu transmissor, e não podia consertá-lo sem peças de reposição, as quais obviamente não tinha naquele momento. Havia alguma coisa de grande porte na mata, algo que não gostava da minha presença e que poderia facilmente me partir no meio com sua fúria primal. A única coisa que eu poderia fazer ali era sentar e esperar.
Inspecionei quais objetos haviam sido atirados contra minha casa, mas nada encontrei, ao menos não dentro da névoa quente que subia até a minha cintura naquela ocasião. Mas apesar das dificuldades, eu fiz uma grande busca ao redor de toda a estrutura, não encontrando absolutamente nada. Talvez os projéteis tivessem rebatido e voltado contra a própria besta, e isso fosse uma boa explicação para a sua fúria. Nesse caso, eu não conseguiria encontrar nenhuma de suas armas improvisadas.
Porém, o maior motivo do meu espantamento foi que eu não consegui encontrar em lugar algum as marcas das garras que atormentavam meu sono. E elas pareciam ser muito longas, pois o som vinha de cima e descia até quase a metade da parede. Eu sabia disso, pois havia seguido o som com os olhos muitas vezes. E parece estranho dizer isso, mas quando não há mais nenhum barulho ao seu redor, isso é mais do que o suficiente para que seus ouvidos saibam exatamente a localização do seu único estímulo.
Eu queria tomar um pouco mais daquele ar tóxico antes de voltar para dentro da minha jaula, mas quando comecei a ouvir gritos vindos de dentro da mata, mudei de ideia rapidamente. E não eram gritos como de pessoas me chamando, ou até mesmo de animais em agonia. Não, eles eram gritos de algo diferente. Algo clamava por atenção, ou até mesmo estabelecia seu território por meio de afugentar todo o resto. Mas nada da fauna que eu conhecia poderia desafiar aquele tirano do pântano.
Ainda antes da manhã, comecei a ouvir coisas que soavam como sussurros, mas ao mesmo tempo não poderiam ser classificadas dessa forma. Era como se algo estivesse tentando falar muito rápido, mas não soubesse nenhuma palavra. Meu tormento soava apenas como um conjunto disforme de sílabas. Mas ainda assim, era relativamente baixo, e não no mesmo volume que eu teria uma conversa com alguém.
Seria aquilo uma tentativa de comunicação? Se fosse, eu estaria assumindo que a besta era um ser inteligente capaz de raciocínio, da criação de linguagem, e provavelmente da confecção de uma sociedade e de uma cultura. Mas se esse fosse o caso, aglomerados daquele seres teriam sido detectados pelos nossos exploradores e pelo satélite em órbita. Eu trabalhava todas as noites com aquele maltido satélite, e sabia de tudo que ele sabia e de todas as suas capacidades.
A única alternativa seria a de que aquelas bestas vivessem no subterrâneo. Mas então por qual motivo sair e atormentar a pedra brilhante? Talvez o calor estivesse demais até mesmo para ele dentro da sua toca, e então naquele período do ano, seu território era o pântano. Mas nesse caso, seria ele um espécime sozinho da sua espécie? Já que apenas um estava me atormentando. Se bem que ele poderia ser um filhote ou algo similar.
Meu devaneio foi afetado pelo fato de que a torrente de sílabas havia finalmente morrido. Mas ela tinha sido substituída pela pressão sonora de algo muito pesado subindo no telhado da minha cabana. Garras se arrastavam, passos de um lado para o outro, e até mesmo pancadas contra o metal me oprimiam naquele momento.
Eu estava deitado no chão, olhando com os olhos arregalados para o teto enquanto o maior ataque até então prosseguia. Enquanto ele tentava abrir um buraco no telhado com suas garras nefastas, novamente o som das suas sílabas mal articuladas me vieram à mente. Mas dessa vez elas estavam por trás de mim, na porta da cabana.
Rastejei rapidamente para o lado oposto do meu santuário, e o som parecia me seguir pelo lado de fora, sempre se mantendo no ponto mais próximo de mim, apenas do outro lado daquela fina parede. Eu estava cercado por uma tribo, por uma manada, ou por algum outro tipo de associação. Apenas uma das bestas fazia algum movimento além da sua fala obscena, e era o gigante no telhado, o qual tentava de toda forma arrebentar uma passagem.
Para minha sorte, toda a sua fúria era inútil contra o metal, pois nenhuma deformidade podia ser observada. Nem mesmo com as fortíssimas pancadas que balançavam toda a estrutura. De ambos os lados as pancadas vinham, era como se ele estivesse batendo com seus dois braços, se é que braços eles eram, e se é que apenas dois ele possuía.
Mas tão subitamente como tudo começou, tudo cessou. Por alguns minutos, o único som que pude ouvir era a minha própria respiração ofegante. Até que batidas vieram na porta da cabana. Mas não batidas violentas e animalescas como as anteriores, mas sim algo mais civilizado e familiar.
— Hubert Lamuriel, você está aí? — Vinha a voz de uma pessoa.
— Quem é? — Curiosamente foi a primeira coisa que pensei em responder naquela ocasião.
— Senhor, eu venho da cidade. Você perdeu dois períodos de comunicação com a central, então fui despachado para ver se o senhor estava ferido ou algo similar. — O homem desconhecido respondeu, falando um tanto alto para ser ouvido.
Abri a porta correndo e passei o homem para dentro às pressas. Ele não entendeu o que estava acontecendo, mas cooperou o suficiente para entrar sem fazer um alarde. Ao remover sua máscara de gás, vi que seus olhos estavam arregalados, como se tivesse acabado de ver algo inesperado. E ao seguir seu olhar, vi que ele estava encarando por trás de mim.
Quando me virei, percebi que o seu foco era um quadro no meio do corredor. Aquele era o meu quadro, o que tinha levado para pintar ali em meio a tranquilidade da natureza. Só que não era o quadro que eu lembrava de ter pintado. Aquele não era um estudo da paisagem mórbida do pântano. Eu não tinha memória alguma de ter confeccionado nenhum centímetro quadrado daquela imagem.
Sobre o cavalete de alumínio, havia um retrato realista, provavelmente o meu melhor trabalho. Só que aquele não era eu, e não era nenhum dos meus amigos ou colegas de espécie. Nem mesmo era uma das criaturas que já havia tido o prazer de conhecer naquele mundo quente e úmido. Nada do que nenhum de nós já havia visto antes poderia nos ter preparado para aquela surpresa. Muito menos a mim, quem supostamente teria feito o desenho.
Disposto naquela tela, havia o retrato de uma criatura nunca antes vista, com braços longos e garras cruéis. Mas o mais absurdo não era nada disso, mas sim o seu rosto, o seu rosto em parte humano, e em parte outra coisa. Apenas olhar para aquele rosto era o suficiente para que os calafrios corressem todo o meu corpo. Aquele rosto humano falso escondia algo por baixo dele. E suspenso acima do seu pescoço mais longo do que deveria ser, ele parecia te julgar, te perseguir com os olhos.
E através dos olhos desumanos do retrato, me perdi, imaginando apenas que aquelas sílabas desconexas talvez não fossem tão desconexas assim. De novo e de novo eu havia ouvido elas, e quanto mais vezes se repetiam, mais o seu sentido se perdia. Mas sob aquele contexto hipnótico dos olhos falsos, eu consegui me lembrar delas na cadência correta da dicção humana.
“Junte-se a nós”.



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