Ele foi Enterrado... e Ninguém Veio
Enquanto minha mão moribunda puder segurar esta caneta, eu irei me manter forte, eu irei escrever tudo que aconteceu comigo. Não escreverei tanto sobre as injustiças que foram impostas sobre mim, e nem ao menos sobre as humilhações que aguentei calada. Tampouco escreverei sobre o abandono às mãos de minha família. Não escreverei sobre elas, mas não por não serem importantes, e sim por não ter muito tempo. Devo terminar esta carta antes do cair da noite, pois é quanto as sombras inomináveis retornarão.
Estou muito fraca para sair daqui, não tenho para onde ir. Minha tísica está cada vez pior, e temo que dessa noite não passarei, não se ele tiver algo para dizer sobre isso. Ninguém acreditaria em mim, salvo talvez a senhora que vivia no andar de cima, mas ela foi mais inteligente que eu, e mudou-se dias atrás. Meu dinheiro acabou, e nem mesmo serei capaz de pagar o aluguel deste mês. Mas para minha sorte, ao menos não parece que terei que pagar nada.
Caro leitor, entre tosses, eu escrevo meu relato para você. Peço que não ligue para as gotículas de sangue no papel, pois muitas vezes sou incapaz de tapar minha boca. Meu peito já está em um avançado estado de definhamento. Eu estou toda definhada. Mal consigo levantar-me desta cama. E esta noite, quando ele vier, será a última vez que terei que olhar naqueles olhos sem vida.
Mas permita que eu comece minha história em seu devido início. Meu nome é Isabela, e eu sou – era – uma dançarina no balé desta triplamente amaldiçoada cidade. Minha vida era linda, e eu estava até mesmo próxima de poder aparecer na frente, junto com as melhores. Então, por uma manobra fiscal do dono do teatro, o prédio foi fechado. Todas nós fomos colocadas na rua, sem dança, sem arte, sem nada. Muitas das minhas amigas foram novamente acolhidas por seus pais, e as mais talentosas, tinham mais dinheiro, e foram para outras cidades, para tentar oportunidades lá. Eu? Eu não tinha para onde ir.
Mudei-me para uma zona ruim da cidade, para um cortiço caindo os pedaços, que poucos carteiros conseguiam encontrar em suas rotas. Fiz isso para poupar dinheiro, enquanto aguardava as promessas de reabertura do grande teatro. Mas sabia que não podia viver apenas de promessas e esperança – sonhos de uma menina idiota. Então fiz o possível para encontrar um emprego localmente.
Com minhas habilidades em particular, consegui um emprego como atendente de bar – por ser bonita. Mas o trabalho era à noite, em uma área tão ruim quanto a que eu morava. Logo, eu tinha as tarde livres, sem nada para fazer, além de praticar meus passos, e às vezes trabalhar na minha arte de versos.
Minha dança fazia barulho no chão de madeira, e isso trazia reclamações do velho repugnante que vivia no andar de baixo. Ele vivia reclamando e batendo com alguma coisa no teto. Eu iria parar de dançar quando ele subisse aquela escada e viesse reclamar pessoalmente. E ambos sabíamos que isso não iria acontecer.
Tomei o hábito de olhar pela janela enquanto escrevia minhas poesias. Como minha visão e minha vida não me davam motivos para que eu fosse feliz, cada vez mais meus versos estavam se degenerando em melancolia e sofrimento. Nada nos meus dias me fazia feliz, nada me dava o mínimo motivo para que eu me sentisse alegre ou ao menos sorrisse. Apenas os sorrisos falsos e forçados que era obrigada a usar no bar onde trabalhava durante a noite.
Sobre a vista a partir da janela do meu quarto, ela dava para um belíssimo campo, cercado por grades, e sem nenhuma árvore. Mas o problema, era que essa beleza era interrompida pelas centenas, quiçá milhares de túmulos que estavam permeando aquela grama. Todas as tardes, sem falha, um funeral acontecia. O que me fazia imaginar como as ruas daquela cidade estavam sempre cheias de pessoas daquela forma.
Empoderada pelos devaneios da minha melancolia, eu gostava de notar os detalhes dos vestidos das viúvas que visitavam aquele lugar. Fantasiando sobre uma apresentação teatral de balé, em que eu interpretaria uma viúva. Como elas eram lindas chorando sob seus véus. Como aquele ritual era poderoso. Até mesmo eu que estava longe do túmulo, apenas assistindo tudo pela minha janela, me sentia movida pelos acontecimentos.
O sacerdote fazia suas bênçãos, e todos assistiam a viúva despejar sua dor sobre a cova. Talvez elas fizessem de forma tão exagerada às vezes, por ser o que era esperado delas. Muitas vezes eu chegava a me imaginar em um daqueles vestidos. Saber que elas usavam eles apenas uma vez, apenas para o funeral, me deixava furiosa. Eu ficaria linda em um vestido de funeral.
Em uma particular tarde quente, em que o sol estava tapado por poderosas e ameaçadoras nuvens, eu me pus à janela mais uma vez, para escrever em meu pequeno caderno, enquanto olhava para a floresta de lápides abaixo de mim. Como sempre, uma nova sepultura estava aberta, e o sacerdote caminhou atrás do cortejo. Mas dessa vez, não havia uma grande quantidade de pessoas atrás daquela caixa de madeira. Apenas quatro homens carregavam o caixão, e um deles era o coveiro. Assim que eles desceram aquela caixa de madeira altamente requintada e reluzente, os outros três estranhos se foram, como se eles não pudessem sair dali rápido o suficiente.
Inconscientemente, eu havia parado a minha escrita, e estava dando toda minha atenção àquele funeral. O velho sacerdote parecia esperar que alguém aparecesse. E o coveiro estava ansioso, apreensivo, como se ele não estivesse confortável. Eu sei que não deve ser fácil ter aquele trabalho, mas mesmo assim, ele fazia aquilo todos os dias. O que poderia estar acontecendo?
Eventualmente, o velho ergueu seus braços aos céus, como quem pede por algo, e isso foi diferente de todos os procedimentos que eu havia visto ele fazer todas as vezes anteriores. Então passou um tempo conversando com o caixão dentro da sua sepultura, e ao invés de fazer sua bênção, fez gestos rápidos e talvez violentos, e logo retirou-se. Nem mesmo ele parecia andar devagar.
O coveiro passou horas tapando o buraco, e colocando a nova lápide. Mas ela não durou muito tempo em seu lugar, pois antes de eu sair para meu trabalho noturno, uma chuva infernal desceu sobre nossa pequena cidade. Eu fui correndo sobre as pequenas marquises que consegui encontrar, mas mesmo assim cheguei lá completamente ensopada. Ao retornar, a chuva ainda estava caindo, e a temperatura do meu quarto havia caído significativamente.
Na manhã seguinte, notei que a lápide estava inclinada, pois seu túmulo havia se tornado uma massa de lama. Naquela tarde não houve nenhum enterro, e o coveiro não apareceu para consertar o alinhamento da lápide. Era como se aquela parte do cemitério tivesse sido abandonada, e isso me intrigava profundamente. Tentei dançar para espantar o frio que a chuva trouxe consigo, mas toda hora me pegava olhando para aquele jazigo abandonado.
Não podia deixar de imaginar que aquilo se parecia aos túmulos mais antigos, os quais ninguém vivo se lembrava mais de quem estava lá dentro. E aos poucos a existência da pessoa ia se desfazendo, até que apenas o seu nome esculpido em mármore fosse tudo que restasse da sua existência. Era triste e intrigante pensar que isso poderia ter acontecido com apenas um dia do enterro daquele indivíduo em questão.
Ao voltar do trabalho naquela noite, uma névoa havia tomado conta das ruas, e eu mal podia ver os orbes dos postes que iluminavam meu caminho. Meus passos ecoavam pela rua vazia, e eu podia ouvir o eco voltando até mim, me fazendo acreditar que havia alguém atrás de mim. Eu tinha certeza que estava sendo seguida. Constantemente virava para trás, mas ninguém estava lá. Ao menos não que eu pudesse ver através daquela névoa. Mas se eu não podia ver nada, quem poderia me ver?
Comecei a correr, e eu tive certeza que existiam outros passos além dos meus naquele eco. Consegui chegar no meu cortiço, e ao entrar, tranquei a porta e me escondi atrás da porta, apenas ouvindo. Não havia nada lá fora, nem correndo e nem caminhando. A rua estava morta, talvez tão morta quanto minha sensação de segurança. Olhei para as escadas, e a senhora que vivia no quarto acima do meu estava lá, me observando.
Ela me perguntou se eu estava sendo seguida, sempre atenciosa e amigável. Respondi que não sabia, mas que acreditava sim ter ouvido passos, apesar de não ter visto nada. Completei com o fato de que não consegui ouvir mais nenhum passo desde que fechei a porta. Não havia ninguém lá fora, e deve ter sido coisa dos meus nervos e da minha melancolia.
A senhora me olhou de forma grave, e me explicou que quando os passos atrás de nós desaparecem, isso não significa que não havia nada lá, apenas que a alma penada recuou de volta à escuridão. Quando tentei rebater isso, ela apenas disse que eu deveria mudar-me dali, e me deu alguma bênção que eu não entendi.
Cansada, assustada, e sentindo a necessidade de nunca mais conversar com nenhum vizinho nunca mais, apenas subi as escadas e colapsei de frente na minha cama. O sono me cairia bem, pois eu não teria mais que lidar com a realidade – e tudo que vem com ela.
Aquela noite – e toda desde então – foi conturbada. Meus sonhos eram estranhos, e traziam novamente aquela rua vazia, e aquela maldita névoa. Eu sabia que alguém estava atrás de mim, mas por mais que eu corresse, não conseguia chegar na porta da minha casa. Eu continuava caindo, tentando levantar, apenas para correr novamente, e cair novamente. E quando eu olhava para trás, ao contrário do que havia acontecido na realidade, eu pude ver uma forma através da névoa. Iluminada pelas luzes dos postes, existia uma silhueta magra, com a cabeça torta. Ela nunca se mexia, apenas estava parada, me observando. Mas curiosamente, o único som que eu pude notar ao longo de tudo isso, foi uma incessante batida fraca. Como um pássaro bicando uma janela.
Apesar do sol brilhando do lado de fora, o frio não passou. Eu fiquei o dia todo na minha cama, tentando me aquecer com o pouco de café que me restava naquele mês. Tentei escrever algum poema, mas nem isso estava me alegrando. O funeral daquela tarde foi comum, com muitas mulheres usando belíssimos vestidos pretos. E eu estava ali, apenas assistindo suas dores, sem me preocupar com nada além das minhas próprias.
Com o cair da noite, senti que alguém estava me observando, em cada esquina enevoada, durante meu trajeto até o bar. Seria tudo aquilo apenas um pesadelo que trouxe comigo até o mundo consciente? Pensei comigo mesma, enquanto olhava para o escuro, e nada via. O quão errada eu provavelmente estava. Queria eu que eu tivesse mudado para o outro lado da cidade naquela mesma noite. Mas lamentar o passado não muda nada sobre ele.
Novamente sonhei coisas estranhas e terríveis. Mas dessa vez, eu estava vivendo em um casarão. Nenhum dos meus filhos aparecia para me visitar, nem mesmo agora que eu estava morrendo. Eles apenas brigavam por suas fatias da minha herança. Mal sabiam os idiotas, que eu levaria todo meu dinheiro para meu túmulo. Não sei como eu sabia disso, mas assim era o papel que eu interpretava naquele sonho.
Dia após dia, eu ficava naquela cadeira, parada, e nenhum dos meus servos vinha me ajudar. Todos eles me odiavam, e ninguém ficava por muito tempo no meu quarto comigo. Ninguém me levava para ver o sol. Então eu rejeitei o sol, maldita seja aquela esfera de luz que apenas ficava esquentando meu quarto, me chamando, como se eu pudesse levantar e ir de encontro com ele. Maldita seja a luz e tudo que ela toca. Eu vivia em escuridão, iluminada apenas pelas minhas velas e lanternas de óleo.
Apenas meu advogado veio. Não pude resistir, e dei a ele as ordens que tanto almejava. Que ele dispensasse todas aquelas pessoas que supostamente me serviam, e que as expulsasse da minha casa. Assim eles iriam aprender a não me servir, no fim do outono, sem ter onde morar. Que apodreçam na rua.
Também ordenei que meu testamento fosse reescrito. Que toda minha fortuna fosse convertida em ouro, e que tudo fosse enterrado em uma localização secreta, contida apenas em um envelope que eu entreguei selado nas mãos do homem. Se meus filhos desejam tanto meu dinheiro, que passem o resto de suas vidas miseráveis procurando por ele.
Finalmente, sem ninguém ao menos para me trazer comida, eu definhei e sofri cada vez mais em minha cadeira. Mas a morte não seria meu fim. Não se os livros que eu passei minha juventude seguindo estivessem certos. Em minha última noite, fiquei sentado em minha cadeira, delirando, e sentindo o frio me consumir de fora para dentro. Eu vou voltar, eu sei que vou. E o mundo vai pagar por isso.
Acordei no meio da noite, suada, e sentindo um ódio tremendo. Eu não sabia explicar o motivo daquele sonho tão vívido e estranho, mas ao menos de uma coisa sabia: eu sentia ódio. Talvez minha própria falta de dinheiro tenha me levado a sonhar que era uma pessoa rica, mas eu tinha ódio, ódio do que minha vida havia se tornado. E apesar da estranha coruja de olhos brancos vidrados na minha janela, tentei adormecer-me mais uma vez.
Ao dormir, apenas pude ouvir alguém implorando para entrar, de novo e de novo. Acordei pela manhã, cansada de todos aqueles pesadelos, e não consegui fazer nada intelectual com meu caderno, já que minha mente não estava bem. Tentei dançar, e perdi meu equilíbrio, quase caindo de cabeça. Senti que um mau-agouro estava sobre mim, e que aquele seria um dia escuro. Mas escuro para mim, pois lá fora havia sol. Ele só não parecia conseguir esquentar meu apartamento.
Naquela madrugada, não tive sonhos com imagens, apenas alucinações vagas, e o constante batuque de um pássaro bicando minha janela – imaginei que a maldita coruja esquisita. Em meio às alucinações semi-conscientes, eu sentia como se houvesse alguém implorando para entrar, repetidamente. Sempre que eu abria os olhos e me sentava na cama, tudo aquilo parava. Não havia som algum, nem mesmo o amaldiçoado pássaro que não me deixava dormir. A porta para o corredor não revelava nada, apenas um cortiço escuro e silencioso – onde todos estavam dormindo em suas camas, provavelmente mais aquecidos do que eu.
Voltei para minha cama, e dessa vez mantive uma vela acesa na cabeceira da minha cama. Tentei dormir dessa forma, afastando talvez as sombras causadas pela lua. Mas assim que adormeci, as súplicas e as batidas retornaram. Eu não aguentava mais. Durante minhas alucinações semi-consciente, eu vi muitas coisas, das quais não me lembro de nenhuma, mas tinham um significado aterrorizante para mim.
Ao acordar pela terceira vez, eu simplesmente gritei para que entrasse de uma vez. Como sempre, não havia nada na minha janela e tampouco na minha porta. Mas minha vela estava no fim, então apaguei-a, e voltei a dormir. Dessa vez foi fácil, e eu não voltei a ter alucinações durante meu sono.
Mais um dia se passou, e eu ao menos consegui praticar minha dança em paz. Nenhum enterro foi realizado naquele cemitério naquela tarde, o que me deixou um pouco mais tranquila com relação à minha própria vida. Talvez eu devesse procurar um emprego melhor. Eu tinha que sair daquele lugar sujo, eu tinha que aceitar que talvez as promessas de reabertura do teatro não fossem se cumprir nos próximos meses. Eu deveria trabalhar em um lugar melhor, e juntar dinheiro para mudar de cidade. Era isso que eu deveria fazer.
Voltei do trabalho sem medo naquela noite, pois as sombras eram apenas sombras, e não havia ninguém me seguindo. Era só mais uma noite abafada naquela amaldiçoada cidade suja. Entrei no meu cortiço, e ao entrar em meu quarto, encontrei minha vela onde a havia deixado na noite anterior, mas ela estava suja. Não entendi como, mas era como se ela estivesse coberta de lama.
Dormi uma noite tranquila e sem pesadelos, e nem mesmo alucinações semi-conscientes. Mas o que parecia uma bênção, talvez tenha sido uma maldição. Não sei exatamente o que aconteceu durante aquela madrugada, mas eu amanheci fraca e doente. Já faziam alguns dias desde que havia tomado aquela chuva gelada, então talvez tenha sido isso. Passei o dia sem comer, e sem motivação para nada.
De certa forma, isso me lembrou daquele meu estranho pesadelo vívido, quando eu estava morrendo em uma cadeira, e ninguém vinha cuidar de mim. Eu estava doente em minha cama, e ninguém vinha cuidar de mim. Mas a diferença é que aquela era a realidade, e nenhuma doença iria me derrubar.
Reuni forças para ir ao trabalho, mas quando viram meu estado, temiam que eu fosse afastar os clientes, e me mandaram de volta para casa. Voltei a sentir como se alguém estivesse me assistindo a todo momento, mas nunca havia ninguém ali. Apenas os orbes iluminados dos postes, e minha própria sombra, alongada até o outro lado da rua de ladrilhos.
No cortiço, algumas crianças estavam chorando por um motivo ou por outro, e cachorros estavam latindo incessantemente. Nada disso importava, eu só queria deitar na minha cama. O problema era que meu quarto estava tão malditamente frio. Me embrulhei na minha única coberta, e tentei me manter viva naquela noite. No meio da noite, acordei com muito frio, e uma dor imensa no meu peito. A tosse veio como consequência, e nada podia parar aquilo. O mais estranho era que minha coberta estava toda fora de mim. Eu tinha arrancado ela? Mas por qual motivo, já que estava tão frio?
Acendi uma vela, e tossi com o cheiro. Cada tosse subsequente me deixava mais fraca, até que eu não tinha força suficiente nem mesmo para continuar tossindo, e apenas ficava sem ar. Ao fechar meus punhos em reação ao frio, eu sentia o quão fraca estava, pois era como se meus ossos fossem ocos, e minha carne fosse a espuma barata do meu colchão.
Eu me sentia tão sozinha, tão abandonada. E ninguém iria me ajudar além de mim mesma. Eu tinha que melhorar. Minha própria sobrevivência dependia de quão rápido eu conseguiria me recuperar daquilo. O frio constante não estava ajudando, e nem mesmo o cheiro de podridão que parecia ter tomado conta do meu quarto nas últimas duas noites.
Pela manhã eu estava ainda pior. Nem mesmo tinha forças para levantar-me da cama. Passei a manhã em um estupor, tentando criar coragem e forças para me levantar. Consegui fazer isso em algum ponto da tarde, mas então um choque foi mais que o suficiente para me acordar completamente. O chão estava imundo, com terra para todos os lados. Eu havia feito aquilo? Não tinha andado por nenhuma lama. E eu certamente não tinha deixado meu armário aberto.
Me joguei contra a porta, e testei a maçaneta – trancada. Eu tinha feito aquelas coisas enquanto estava em um transe febril ou alguém havia estado no meu quarto enquanto eu dormia? Não pude dizer se minha paranoia era justificada ou não, mas ambas a janela e a porta estavam perfeitamente trancadas por dentro. E não existiam pegadas, apenas sujeira espalhada. Talvez o teto estivesse vazando, mas isso significaria que primeiro aquela sujeira toda teria vindo do quarto de cima.
Usei o pouco de forças que tinha para tentar limpar o chão. Por mais que eu não devesse fazer aquilo, a visão de toda aquela sujeira não me trazia conforto, e só eu sei o quanto eu precisava disso naquele momento. A cada alguns segundos de trabalho, eu me sentava na cama e voltava a tossir até ficar sem forças. Respirar estava causando dor no meu peito, e eu não tinha mais ideia sobre o que fazer.
Não tinha condições nenhuma de tentar ir ao trabalho novamente naquela noite, então assim que o sol se foi, sentei-me em frente à minha penteadeira, e me pus a arrumar o cabelo. Meus movimentos eram lentos, mas aquilo tinha sim um propósito, que era elevar meus espíritos. Passei um tempo escovando meu longo cabelo, para fazer o coque que eu usava para dormir.
Eu estava olhando fixamente para meu próprio reflexo, vendo a doença em meu rosto, e a fraqueza em meu semblante. Foi nesse momento, em que, após um ataque de tosse, eu ouvi uma série de estalos atrás de mim – como aqueles que o joelho faz quando você passa muito tempo sentado. Olhei pelo espelho, mas tudo estava em ordem – provavelmente eram as madeiras velhas daquela casa se acostumando com o frio.
O odor fétido que parecia vir com o cair da noite estava particularmente mais forte naquele instante, e eu imaginei se não poderia ser um animal morto, com sua carcaça esquentada pelo sol. Mas isso não teria sentido, já que o ápice do fedor seria durante a tarde, e não no meio da noite. Mas meus devaneios foram abruptamente cortados e expulsos da minha mente, pois o que ocorreu ali não deveria ter sido tão real quanto foi.
Senti um toque leve sobre meu ombro, e não vi nada no espelho, então virei a cabeça levemente de lado, e aquilo que estava diante dos meus olhos me fez entrar em desespero total. Uma mão velha e apodrecida estava sobre meu ombro, com dedos rígidos e esticados que não pareciam ser capazes de fechar ao redor dele.
Pulei de uma vez, gritando, e ao cair no chão, quando olhei para trás, vi uma forma escura atravessar a porta. Gritei desesperada, e quanto mais eu gritava, mais eu tossia, e ficava sem voz. Finalmente alguém bateu à minha porta. Ao menos era a voz do vizinho do lado. Quando abri, eu estava trêmula, e mal conseguia falar.
Tentei explicar para ele o que havia acontecido, e ele não acreditou em mim, até me olhou como se eu fosse louca. Disse que no estado avançado de tísica que eu estava, provavelmente havia tido um terrível pesadelo febril, e que deveria tentar dormir. Isso fez eu me sentir impotente, já que ninguém iria acreditar em mim. O que eu poderia fazer?
Tranquei-me no quarto, e fiquei em um canto, de onde eu podia ver tudo, empunhando minha tesoura de tecido. Ninguém poderia chegar por trás de mim, se atrás de mim existisse apenas uma parede. Mas e quando a pessoa pode atravessar portas? Eu realmente vi aquilo? Uma coisa como aquela não é possível. Será se eu realmente sou louca?
Passei a noite naquela posição, e o lado positivo foi que eu tossi menos. Meus sonhos foram menos conturbados do que nas noites anteriores, talvez por não ter forças nem mesmo para isso. Mas mesmo no fundo dos meus sonhos e do meu sono de fraqueza enferma, pude claramente ouvir uma voz, uma voz que me acordou. Era de um timbre baixo e fraco, talvez ainda mais doente do que eu. Lembrar-me daquela voz soturna me dá calafrios ainda agora.
O homem disse que minha poesia era ruim. Simples assim, ele apenas disse isso. Abri meus olhos assustada, e não estava mais na posição sentada em que eu havia dormido. Eu estava deitada, sem nenhuma coberta, com os braços abertos. Mas não tinha ninguém dentro do quarto comigo.
Como que por um impulso, abri a porta do quarto, e lá ele estava. Era um velho sujo, com roupas caras cobertas por lama, ou terra. Ele estava apodrecido e com a pele roxa em alguns pontos. Seus olhos não tinham vida, e estavam vidrados, totalmente brancos, apenas me encarando. Ele estendeu suas mãos de uma vez, e eu fechei a porta o mais rápido que meu corpo debilitado permitiu.
Tentei gritar por ajuda, mas comecei a tossir muito, e caí de costas no chão. Em questão de segundos, aquela forma rígida cambaleou e parou por cima de mim. Enquanto eu tentava me arrastar para trás com toda minha fraqueza, ele apenas me encarou. Quando encostei as costas contra a parede da janela, ele apenas gargalhou com sua voz sem força, e sussurrou que viria me visitar novamente com o cair da próxima noite, pois tinha fome.
Novamente ele atravessou a porta e desapareceu. Não pude acreditar, nem na primeira vez, e nem na segunda. Nada daquilo podia ser real. Não existia a possibilidade de um homem normal atravessar paredes, muito menos um apodrecido.
Passei o restante da noite em claro, só eu e minhas velas. Como eu poderia me defender? Somente o dia manteria ele longe de mim. Mas seria o suficiente para que eu saísse dali? Eu nem mesmo conseguia levantar do chão. Eu estava tão terrivelmente fraca. Apenas me arrastei para a cama. Levei muito tempo para conseguir subir nela. Desmaiei com a vinda do sol.
Peguei meus papéis que estavam na escrivaninha ao lado da cama, e comecei a escrever esta carta. Sei que ele não virá enquanto eu estiver acordada. Ele não veio antes, e não virá agora. O problema é que não sei por quanto tempo consigo me manter acordada dessa forma. E temo que com o quão fraca estou, se eu dormir, não acordarei novamente.
Para quem encontrar essa carta, saiba que tudo que eu relatei é o mais próximo possível da realidade. Pode parecer que eu morri em decorrência de uma doença respiratória, mas sei que não é isso. Eu sei que ele está fazendo isso comigo. Só não sei a troco de quê.
Ao acender minha última vela, posso ver que há uma figura de pé ao lado daquele túmulo esquecido. Ele não se move, apenas parece estar olhando para minha janela. Ele só está esperando eu ir dormir. E com o quão fraca, enferma, e desnutrida eu estou, não irei durar muito tempo. Sei que em breve sucumbirei ao sono e à minha fraqueza, e quando isso acontecer, ele virá até mim. A própria maldição da morte virá até mim. Peço apenas que minha alma encontre a paz que não tive em vida.


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