A Mulher com os Brincos de Rubi

 

O vento uivava por entre as torres, enquanto a água batia violentamente contras as janelas do grande salão – as quais eram intermitentemente iluminadas pelos raios distantes. Mas eu permanecia imperturbado por todo o caos no mundo exterior. Naquele ponto da minha noite, apenas eu e meu livro existiam. Na verdade, em todos os pontos de todos os meus dias, nada mais existia ou importava, além daquilo que acontecia dentro das paredes da minha vila.

Pela milésima vez, eu me sentei na poltrona confortável, e mais uma vez ativei o projetor xenotipo que havia ganhado anos antes, no que parecia ter sido outra vida. Naquela vida, eu era um grande homem de negócios, e trabalhava com antiguidades e raridades – tanto humanas quanto de outras espécies inteligentes e civilizadas.

Eu amava os livros escritos por artistas não-humanos. Por mais que muitos os considerassem extremamente abstratos e difíceis de ler, eu sempre me encontrei apegado exatamente a essas características, pois elas são como um desafio para minha mente – desejo sempre mantê-la afiada. Nada nunca poderia interromper o meu momento de leitura, principalmente naquela vila isolada do restante do universo.

Até que algo interrompeu. Um assovio agudo e desconhecido percorreu todo o cômodo. Levantei meus olhos da projeção colorida, e pensei estar imaginando coisas, então voltei a ler aquela obtusa tradução. Mas novamente, aquele assovio percorreu o vão da minha biblioteca, interrompendo minha concentração.

— Héstia, que som infernal é esse? — Exigi do ar, sabendo que as palavras seriam captadas e interpretadas pelos intrincados algoritmos por trás da inteligência artificial que geria toda aquela vila.

— Esse é o som da campainha frontal, Lucius. — A voz respondeu, de nenhuma direção específica.

A campainha? Nenhuma vez em todos os anos em que eu morei naquele lugar, aquele som havia me incomodado, pois ele nunca havia sido reproduzido antes. Ninguém nunca havia me visitado. E isso era o correto, pois eu vivia naquele lugar, exatamente pelo aspecto da isolação total. Mas as implicações daquela situação não haviam evadido minha percepção.

Enquanto me apressava até a porta em meu roupão, o assovio veio mais duas vezes, tão intermitente e disruptivo quanto o clarão dos raios, e os sons de seus respectivos trovões. A tempestade já estava acontecendo havia pouco mais de uma hora, e não parecia estar enfraquecendo.

O salão frontal era um cômodo que eu dificilmente visitava, pois não havia necessidade de passar por aquela porta. Todas as minhas atividades que não eram realizadas dentro das construções, aconteciam ou no jardim, ou na praça central da vila.

Confesso que tive certa dificuldade em abrir a porta – devido a falta de prática, – mas quando a tarefa árdua foi finalmente completa, a visão diante de mim me pegou de surpresa, fazendo com que preocupação tomasse o lugar da indignação que previamente ocupava minha mente. Diante de mim estava uma mulher, talvez alguns anos mais velha do que eu, completamente ensopada, e se tremendo – talvez beirando a hipotermia.

— Venha, rápido. Entre, entre, saia dessa chuva. — Disse apressadamente, dando minha mão para ajudá-la com o degrau da entrada. O toque de sua mão na minha, trouxe uma sensação perturbadora na base da minha espinha, e eu me senti extremamente desconfortável com aquele contato.

A mulher mal olhou no meu rosto, mas parecia agradecida o suficiente. Quando a porta se fechou atrás dela, o vento congelante cessou, mas a água que havia se empoçado sob ela, só parecia aumentar sua área de atuação. Enquanto eu me apressava para arrancar uma cortina e usá-la como cobertor e toalha para minha hóspede inesperada, ela se aproximou de uma das saídas de ar quente, atraída como uma mariposa para uma luz.

Com a mulher enrolada na cortina, eu disse que voltaria em breve, e fui buscar itens para ajudá-la a evitar a hipotermia – ou combatê-la. Minha lista consistia em verdadeiras toalhas e cobertores, assim como um pequeno aquecedor. Quando voltei, ela estava sentada no chão, se secando.

— Sinto muito em não ter uma troca de roupas que fique bem em você, mas você vê, eu vivo sozinho aqui. — Tentei me explicar, ainda sem saber como interagir com aquele ser humano diante de mim. Na verdade, eu não sabia como interagir com nenhuma pessoa mais, essa habilidade havia se evadido da minha mente.

— Acho que esse é o intuito desse planeta, não? Digo, todos viverem sozinhos. Pelo menos foi por isso que eu vim para cá. — Ela disse, tentando secar seus belíssimos cabelos pretos.

— Me perdoe pela pergunta, mas o que te aconteceu? Por que você estava lá fora durante esse temporal? — Perguntei, gesticulando para a janela mais próxima, a qual apresentava um breu completo, apenas interrompido por distantes relâmpagos.

— Na verdade essa é uma pergunta perfeitamente válida, Senhor…

— Désdemon. Eu sou Lucius Désdemon. — Respondi, após um momento de confusão, causada pela falta de prática em interações sociais.

— Prazer Lucius, eu sou Tatiana Hamis. — A mulher disse, se levantando, e apertando minha mão, em uma posição mais digna da sua pessoa. — Para responder suas perguntas, eu sou a mais nova moradora desse belíssimo planeta aqui. Mas quando cheguei hoje à tarde, a minha vila não estava pronta. Na verdade, ela sequer está em condições de receber alguém, não há teto em nenhuma das estruturas. Eu até poderia ter passado a noite lá, se não fosse pela previsão de chuva para essa noite. E como o veículo autônomo que havia me deixado lá, já tinha partido, eu tive que correr atrás de cobertura.

— Eu segui a estrada por horas, não vendo nada além de campina e algumas árvores, a maioria no topo de colinas. Quando eu já estava desesperada o suficiente para cogitar correr de volta para minha vila sem telhado, tive a grande fortuna de avistar sua propriedade no horizonte. Nesse ponto, a chuva já estava sobre mim, e apenas as luzes da sua vila me guiaram através da escuridão total lá fora. Mais de uma vez, eu não achei que conseguiria chegar aqui, por causa do frio. E em outros momentos, imaginei que você sequer fosse atender os meus chamados, e que eu padeceria na porta da sua casa, tão perto do calor e da proteção. Mas para minha sorte, eu encontrei humanidade aqui. — Tatiana terminou de contar sua história.

— Só me arrependo de não ter vindo à porta mais rápido. Mas temo que eu tentei ignorar o som desconhecido da campainha. O isolamento me tornou um anfitrião ruim. — Me expliquei, sem saber se estava melhorando ou piorando a situação. — Você não recebeu nenhum tipo de aviso de atraso? — Indaguei.

— Absolutamente nenhum. A data estava marcada, quando cheguei no planeta. Passei pela alfândega facilmente, com tudo em ordem, eles até sabiam meu endereço! Não faço ideia de qual seja o problema, mas pretendo descobrir pela manhã. — Ela disse, com um tanto de espanto e resignação em sua voz.

— Eu nunca ouvi nada parecido. Mas devo conceder que eu nunca mais ouvi nada sobre nada desde que tomei posse dessa vila. — Fiz conversa, voltando às minhas antigas práticas sociais. — Mas é claro, você é bem-vinda a ficar aqui até de manhã. Na verdade, até que sua casa esteja em um estado habitacional. Essas coisas costumam ser rápidas com as máquinas de construção aqui. No último inverno, eu requisitei a construção de um puxadinho na lateral leste da vila, e…

— Como eu sou abusada! Nem mesmo fiz um pedido formal, e já estava assumindo que ficaria aqui até de manhã. Peço perdão, Lucius. — A mulher interrompeu, levando as mãos à boca, em um pantomima de choque.

— Não, claro que não, eu só estou tentando ser um bom anfitrião. As estrelas sabem o quanto você já sofreu essa noite. — Tentei tranquilizá-la. — Isso me faz pensar, você deve estar faminta! Eu já tive meu jantar, mas posso preparar algo para você. Venha, sente-se em uma poltrona.

Com isso, levei minha hóspede até o salão de jantar. O local em si era simples, apesar de espaçoso. A mesa poderia facilmente acomodar uma dezena de pessoas, mas nunca havia visto nenhum outro além de mim. A iluminação e a climatização eram adequados. Então a imagem de Tatiana caminhando enrolada em dois cobertores distintos, era um tanto cômica.

Preparei uma sopa rápida, para esquentar o corpo da mulher, e levei o prato fumegante para ela. Enquanto ela devorava sua refeição, me sentei na cabeceira oposta da mesa. Agora que o choque inicial havia passado, pude observar melhor os traços físicos da minha hóspede, assim como sua vestimenta ensopada.

Ela era uma mulher pequena, com o rosto arredondado, porém extremamente belo e cativante. Seu cabelo preto era longo, cacheado e volumoso, mas no seu atual estado, seus cachos estavam murchos e colados ao seu corpo, como um capuz. Porém, num dado momento em que ela jogou seu cabelo para trás, para tirá-los de cima do prato, o brilho escarlate de um pingente em sua orelha capturou meu olhar. Era um brinco com um rubi sólido nele, pendurado como uma lágrima de sangue. Isso fez com que meu coração acelerado e instável pulasse uma batida, mas prontamente me recompus.

E foi nesse momento de me auto-repreender, que eu notei que não estava comendo nada, mas apenas encarando a mulher, como se ela fosse um quadro ou um holograma sem vida na minha frente. Isso me deixou extremamente desconfortável e envergonhado – mas não tanto quanto ela deveria estar se sentindo.

— Perdão, eu devo estar te encarando. Não estou acostumado a receber visitas. Você é a primeira pessoa que eu vejo nos últimos três anos. Primeira pessoa com quem eu converso nos últimos três anos também. — Tentei me redimir, mas apenas me senti mais patético e esquisito.

— Tudo bem, eu entendo sua posição, de verdade, Lucius. Se eu estivesse sentada do outro lado dessa mesa, seca, olhando para um homem ensopado comendo um ensopado quente, eu também iria estar curiosa sobre sua natureza. Quem é essa pessoa que eu coloquei dentro da minha casa? Eu estaria me perguntando. — Ela disse, me tranquilizando.

Ao fim de sua alimentação, a guiei até o quarto de hóspedes, que era na verdade como uma pequena casa em si, com múltiplos cômodos. Era uma versão espelhada do meu próprio quarto, mas o meu era maior que aquele outro. Aquele lugar era ainda menos visitado do que o salão de entrada, pois eu nunca o tinha visitado antes.

— Temo que esse quarto não seja visitado desde que foi mobiliado. Então peço que perdoe ligeira a quantidade de poeira que deve estar por cima dos móveis. — Declarei ao abrir as portas duplas que existiam dentro de um recesso na parede branca ininterrupta.

O que eu disse não fazia jus às camadas de poeira que tapavam tudo diante de nós. A mesa, os sofás, as poltronas, e principalmente a cama, pareciam terem sido propositalmente usados como depósitos de areia. Ao menos o chão não havia retido tanta sujeira assim – ou foi o que eu pensei de forma positiva, até dar um passo dentro do cômodo, e ouvir o som que minha pantufa fez contra aquela camada de terra.

— “Ligeira quantidade de poeira”? — Tatiana ironizou, rindo. Sua risada parecia um tanto escandalosa e sem nenhum pudor, e isso aqueceu meu coração, o qual estava em disparada desde que a mulher havia surgido na minha fachada.

— Bem, eu não sabia que esse lugar teria mais terra do que meu jardim. Se preferir, eu posso passar a noite aqui, e você no meu quarto. — Ofereci, tentando me colocar no meu modo mais hospitalar.

— Eu já abusei da sua hospitalidade o suficiente por toda uma vida. Não vou deixar que você passe uma noite desconfortável dentro da sua própria casa. Nada disso é sua culpa, e se alguém tem que limpar algo, tem que ser eu. Inclusive, o exercício seria bom para mim, para me esquentar. — Ela declarou, dando um tapa entusiasmado em uma almofada, causando uma explosão de poeira.

— Se você acha isso o melhor… — Disse sem concordar ou entender a mulher. — Eu vou trazer algumas coisas básicas de limpeza, higiene e roupas secas para você. Só temo que as roupas vão ficar muito grandes em você. Só as camisas já devem parecer com vestidos. — Informei, saindo do quarto e deixando ela à sua privacidade.

Retornei minutos depois, com os braços cheios de objetos utilitários, itens de higiene, e minhas roupas menos rústicas. Ela recebeu tudo através da porta, abrindo apenas uma fresta suficiente para colocar seu torso. A cor em seu rosto havia retornado, e o brilho nos seus olhos me parecia gentil o suficiente. Aquela era uma pessoa precisando de ajuda, e extremamente agradecida.

Naquela noite, eu me acomodei na cama sem saber se eu estava ou não sendo uma boa pessoa. Os pontos que apontavam para “sim”, incluíam hospedar aquela desconhecida infortúnia na minha casa por tempo indeterminado, e todas as coisas que entreguei para ela sem pensar duas vezes. Mas eu também diria que jogar a mulher em um quarto com quilos de poeira não era exatamente a coisa mais hospitaleira que alguém poderia fazer.

Adormeci com esses pensamentos, e quando voltei à consciência, eles ainda estavam flutuando no fundo da minha mente. Meu despertar foi causado por algo que naquele momento não havia entendido totalmente, mas que depois se tornou cada vez mais claro. O distinto som de objetos metálicos caindo no chão era o bastante para acordar os mortos, quem dirá me acordar.

Por um lado, eu estava preocupado, pensando que Tatiana poderia precisar de ajuda, mas por outro lado, eu temia ver o que estava acontecendo. Não sei se isso fazia de mim um covarde, ou um homem precavido. Ou meramente paranóico.

Após alguns momentos com meus pensamentos tumultuosos, resolvi me levantar e entrar no meu roupão mais uma vez. Me esgueirei até as portas duplas do quarto, mas não ativei nenhuma das luminárias, por medo – eu não queria ver o que poderia estar ali. Não sabia o que tinha tomado minha mente, mas ter uma desconhecida em casa, trouxe à tona todos os meus medos sobre a humanidade.

Fiquei alguns minutos com o ouvido contra a porta de madeira, apenas ouvindo, e a única coisa que eu pude ouvir, foram os sons rítmicos de algo molhado no chão, como se uma goteira estivesse indo de um lado para o outro do corredor. Isso me fez pensar na possibilidade de haver estragos por causa da chuva, então larguei meu medo idiota de lado e abri uma das portas.

Na frente do vão da porta, estavam algumas das relíquias e antiguidades que deveriam estar no depósito no fim do corredor. Elas estavam atiradas ao longo do corredor. Isso me fez olhar de um lado para o outro, confuso. E o que eu vi naquele momento, irá assombrar minha vida para sempre. Assombrou desde aquele próprio instante. Pois aquilo não poderia ser humano.

Quando eu vi a forma nua da mulher de costas para mim, eu deveria ter me preocupado, deveria ter oferecido ajuda, ou ter jogado mais uma coberta para ela. Porém, eu apenas tive o impulso de gritar como uma criança. Ela não estava normal, aquilo não era uma mulher.

Minhas suspeitas foram confirmadas imediatamente, quando ela virou sua cabeça para me encarar – sem mover seu corpo nenhum centímetro sequer. O rosto dela estava distorcido, e seus olhos vazios eram apenas uma casca morta dos olhos calorosos que havia conhecido apenas horas antes. Sua boca torta parecia um poço de escuridão, e apenas seus dentes estavam à mostra. Mas a palidez mortal da sua figura era o mais macabro de tudo.

Tentei fechar a porta e retornar para a segurança do meu quarto, mas não pude me mover, apenas gritar. Os braços dela viraram ao contrário também, e com uma fluidez não-natural, aquela figura diabólica caminhou até mim, seus passos descalços ecoando pela madrugada silenciosa, fazendo os sons que eu havia ouvido.

— Obrigada por me deixar ficar aqui. — Ela disse, me segurando pelos ombros.

Escrevo que ela “disse” isso, mas não posso afirmar que tenha sido o caso. Sua boca não se moveu, mas o som foi projetado dela. Era como se alguém estivesse preso dentro daquela figura espectral, e fosse ela quem estivesse falando comigo. Sua voz natural e humana não combinava nem um pouco com a abominação que estava me encarando com seus olhos mortos.

Quanto mais eu gritava, mais eu me sentia fraco, e minha cabeça leve. Inevitavelmente, cheguei ao ponto em que não tinha mais forças para me manter acordado, apesar do perigo infinito que corria. Não sei como, e muito menos entendo como, mas os meus olhos se fecharam, como se eu estivesse voltando a dormir, tranquilo e seguro em minha cama.

Pela manhã, acordei em minha cama, fora da minha coberta, apesar do frio que fizera na noite anterior. Enquanto tentava lembrar o motivo daquilo, me veio à mente a imagem aterrorizante do que eu tinha vivenciado horas antes – ou ao menos que eu acreditava ter vivenciado. A súbita dúvida, do que no momento era claramente real, me fez me olhar no espelho. Apenas olheiras e uma cara cansada me fitavam de volta.

Por via das dúvidas, agarrei um antigo castiçal decorativo, e saí do quarto. O corredor estava vazio, e nenhuma das relíquias estavam no chão. Antes de duvidar da minha sanidade, chequei o chão por pegadas molhadas, e ele estava tão limpo quanto o deixara. Com tantas evidências contra minha memória, não tive alternativa além de acreditar que aquilo não passou de um pesadelo causado pela presença inesperada de uma estranha.

Quando cheguei no salão de jantar, Tatiana estava lá, sentada na mesma cadeira que ocupou previamente. Ela parecia perfeitamente humana, e estava degustando de uma tigela de frutas nativas. Na verdade, minha hóspede não só parecia humana, mas seus traços eram mais leves e menos acentuados do que na noite anterior, quase como se ela estivesse dez anos mais jovem. Atribui isso à maquiagem, e ao fato de que na noite anterior ela estava em desespero.

Após a troca habitual de cortesias, coloquei meu castiçal sobre a mesa. Ela olhou para aquela coisa com confusão em seus olhos, e eu apenas expliquei que era uma antiguidade, usada para decoração. Ocultei o motivo pelo qual o trouxe até ali, mas não menti.

Após ter adquirido uma tigela semelhante de frutas, me sentei à mesa, porém dessa vez mais próximo dela. Algo sobre as linhas suaves no seu rosto, olhos brilhantes, e voz descontraída e tranquilizadora me atraíam e fazia com que eu me sentisse seguro com ela. Mas isso não era equiparável a como eu me sentia pela pessoa que me deixou no estado de espírito que me levou àquele isolamento voluntário. Eu apenas gostava de sua companhia, como uma pessoa parceira.

— Entrei em contato com a construtora, e eles me disseram que em apenas quatro dias, minha casa estará habitável. — Tatiana me informou, balançando seus ombros enquanto falava. Seu cabelo cacheado se movia de acordo, revelando o brilho vermelho escondido dentro dele.

— Mas isso é incrível, é realmente uma ótima notícia. Nunca duvidei que esse seria o caso, apesar de que eu certamente esperava que eles terminariam a obra mais cedo. — Respondi, introspectivo. — Não que eu queira que você saia daqui rápido, mas você entendeu, as máquinas costumam trabalhar mais rápido do que isso. — Adicionei rápido, assustado.

— Mas é claro que eu entendi. — Ela disse rindo. — Mas não se preocupe, querido Lucius, eu sairei daqui assim que possível. Só espero que minha mudança não esteja abandonada em algum lugar. Depois da chuva de ontem, e desse sol tão forte que está fazendo hoje, as caixas estariam em um estado terrível. — A mulher complementou, olhando para além da porta de vidro que dava para o jardim.

— Não acredito que estejam. Na verdade, eu diria que a construtora não é tão incompetente assim, mas então me lembrei do que fizeram com você. Eles te deram algum motivo para o atraso? — Perguntei, genuinamente curioso. Naquele momento, nem mesmo me lembrava do pavor que havia se desenvolvido em meu coração pela mulher.

— Eles só me disseram que o terreno escolhido era instável, e que por isso muita construção adicional foi feita, para garantir a estabilidade da infraestrutura. É claro que eles adicionaram que isso não era culpa deles, pois era culpa da equipe que havia feito a análise do solo. Ou algo assim. A única coisa importante que ouvi foi que eu poderia me mudar até o fim da semana. — Tatiana explicou, falando de uma forma muito característica dela própria, apesar de que isso me lembrava de outras pessoas do meu passado.

— Semana? Eu nem mesmo sei qual é o mês, imagine o dia da semana. Esse tipo de coisa é rapidamente abandonado quando se vive como um eremita em um planeta paradisíaco. Todo esse luxo aqui à minha volta, e tudo que eu tenho que fazer é continuar catalogando as antiguidades e os artefatos xenos que eles me mandam. — Falei, naquele momento, estando confuso sobre a data. Eu nem mesmo fui capaz de me lembrar qual era o mês, e aquilo não era um exagero.

— Artefatos xenos? Isso parece tão interessante e emocionante quanto passar o restante da eternidade olhando para uma parede branca. Os meus gostos são levemente diferentes dos seus. — Minha hóspede declarou usando uma expressão de superioridade que não podia ser confundida como nada além de uma piada.

— Não é bem assim. Tem muita coisa interessante aqui. Semana passada mesmo, eu estava lendo a versão traduzida de um antigo mito da civilização que existia no quinto planeta desse sistema. Era sobre uma criatura transmorfa, que vivia nas cavernas de gelo, e que sugava a vida das pessoas, fingindo ser alguém conhecido. — Expliquei, entusiasmado, tentando lhe contar algo interessante, já que por algum motivo, eu queria impressioná-la.

— Realmente, muito interessante. Mas você sabe que nós temos mitologias humanas, não é? Você não precisa procurar folclore de criaturas que não tem a mesma mente que nós temos. — A mulher disse, me fitando de canto de olho.

— Mas essa é parte da mágica, que muitas vezes, as suas histórias não fazem o menor sentido para nós. Porém outras vezes, elas não só fazem sentido, mas ainda possuem elementos tão idênticos aos nossos, que até mesmo parecem os nossos próprios mitos. Eu amo isso. — Continuei tentando dar razão para as coisas que estava dizendo, mas a cada frase, eu sentia que deveria parar, mas algo me impedia. Eu tinha vontade de me abrir com aquela mulher. Talvez eu estivesse tagarelando exatamente pelo fato de que aquela era a primeira pessoa com quem eu poderia interagir em tempo real nos últimos anos.

— Mitos de metamorfos de outros planetas? Isso parece literatura infantil. Mas se você gosta, tenho certeza de que é algo muito bom. Você claramente tem bom gosto, posso ver isso só de olhar para a mobília da sua casa. — A mulher declarou, sem apresentar nenhum sinal de inverdade.

— Obrigado, eu acho. — Respondi sem jeito.

— Mas não fica chato, tendo só isso para ocupar sua mente todos os dias? — Ela indagou, se aproximando de mim, e colocando sua mão sobre a minha.

— Eu posso ficar um pouco obcecado às vezes, mas faz parte do porquê eu vivo aqui sozinho, isolado do restante da humanidade. — Comentei, assumindo minhas falhas. — Agora que você mencionou isso, fiquei pensativo. Pois essa noite, eu tive um sonho com algo que se encaixaria com a descrição dessa criatura mitológica. Foi bem perturbador, e no fundo, eu não sabia se havia sido realidade ou não. Acho bom que você esteja aqui para me distrair dos textos antigos. — Revelei meu sonho, ocultando a parte em que ela era a monstruosidade inumana que sugava minha vitalidade.

— Esse monstro assumiu que forma em seus sonhos? Aposto que foi um antigo amor seu. Você me parece como alguém que ainda amaria uma mulher do passado, mesmo com todos os anos-luz entre vocês. — Tatiana teorizou, acertando muito mais do que deveria ter tido chance.

— Não, ela não era nenhuma das minhas ex-esposas. — Declarei, rindo da ideia.

— Mais de uma ex-esposa? Você é um personagem e tanto, Lucius. Mas vamos, desembuche, ela se parecia com quem? É importante saber que tipo de coisa anda tomando seu subconsciente. — Minha hóspede surpresa demandou saber. Apesar da óbvia invasão de privacidade que aquilo representava, eu me sentia confortável o suficiente para dizer qualquer coisa naquele momento.

— Ela se parecia com você. — Tive a força de admitir, apreensivo sobre como ela iria ver essa informação.

No momento, ela só começou a rir.

— Então você está com medo de que a mulher desconhecida vai sugar a sua vida. Acho perfeitamente natural. Mas ainda bem que eu estou aqui te mostrando que eu prefiro me alimentar de frutas do que de almas, ou seja lá o que os seus homenzinhos com antenas acreditavam que as pessoas tinham dentro delas. — Ela declarou, gargalhando e fazendo pantomimas sobre ser uma criatura assustadora. Naquele momento, eu estava perfeitamente convencido de que ela não era nada mais nem nada menos do que uma pessoa.

Apesar do dia maravilhoso que eu passei com minha nova amiga, a chegada da madrugada não foi gentil com meu cérebro e suas paranóias infundadas. Assim que fechei as portas dos meus aposentos, imediatamente comecei a temer a existência de Tatiana, mesmo ela estando tão longe de mim, e ter demonstrado ser uma pessoa completa e normal.

Mas em alguma parte da minha mente, eu não conseguia deixar de imaginar que aquilo que eu imaginei ter sonhado não havia sido um sonho, mas sim a realidade. Naquele momento, eu acreditava piamente que a minha racionalização do ocorrido tinha me levado a vê-lo como um pesadelo, pois eu não podia aceitar que algo tão extraordinário pudesse ser real.

Racionalização ou não, eu tranquei minhas portas. Igualmente tranquei as janelas e portas de vidro deslizantes. Nada poderia entrar no meu quarto, e seja lá que barulhos perturbadores eu ouvisse durante a noite, eu certamente não sairia da minha segurança para investigar. Nem mesmo se fosse a voz de Tatiana chamando por ajuda. E não importava o quanto ela quisesse imitar maneirismos das minhas três ex-esposas.

Com isso, eu me embrulhei nas cobertas, e fechei meus olhos, tentando adormecer. Mas meus pensamentos não me deixavam. Eu não podia deixar de imaginar, que os corredores da minha vila estavam sendo assombrados pela figura inumana daquela monstruosidade, caminhando com aquele som distinto de pés descalços sobre o chão de mármore. Por horas eu combati as memórias e os pensamentos, até que o cansaço mental finalmente me derrotou.

Ainda no estado entre sonhos e a consciência, comecei a sentir como se houvesse um peso sobre meu colchão. Nos meus sonhos, eu sabia que havia algo sobre mim, mas não queria ver o que era. Então a consciência aos poucos atingiu seu ápice, e eu estava realmente acordado, sem nenhuma dúvida disso. O peso continuava sobre o colchão, e dessa vez se movia, não se arrastando, mas como que engatinhando sobre mim.

Eu não queria abrir meus olhos para ver o que era. Eu não conseguia reunir as forças para fazer isso, nem mesmo para virar meu rosto e encarar a fonte do peso. Tentei me manter extremamente quieto, fingindo ainda estar dormindo, enquanto tentava entender se o peso era real ou apenas um sonho.

Os pontos de contato da forma desconhecida com o colchão, estavam perfeitamente divididos em quatro posições ao meu redor, e eu sentia uma certa opressão por cima de mim. Naquele ponto, eu tinha certeza de que algo estava por cima de mim, e que enquanto eu me mantivesse adormecido – ou ao menos fingindo estar, – eu estaria seguro.

Apesar do que eu tinha decidido, após alguns minutos do impasse maligno, decidi que deveria lutar pela minha vida. O desespero bateu, e eu não estava mais conseguindo me manter passivo diante daquilo que meus sentidos diziam estar acontecendo. Então, com apenas um movimento, ataquei com ambas as mãos a fonte da opressão oculta que havia invadido meu santuário mais sagrado – meu quarto.

Quando minhas mãos se lançaram para frente de uma vez, em desespero, senti pele, mas essa pele não era humana. Ao abrir meus olhos, eu vi mais uma vez aquela figura aterrorizante da criatura inumana que usava uma versão sem vida do rosto de Tatiana. Continuei estapeando, mas ela usou suas mãos geladas para agarrar meus pulsos e jogá-los para os lados, me prendendo com seu peso.

Tentei gritar e chutar ao mesmo tempo, mas minha garganta não produziu som, e meus coices não surtiam efeito contra aquela criatura de força e peso descomunal. Aquilo não poderia ser a mesma mulher que me tranquilizava e me fazia sentir solto durante os dias, ela não tinha aquela força toda, ela não pesava daquela forma. Ela era humana, ela estava viva. Ela era real.

Seu rosto chegou tão absurdamente próximo ao meu, mas não de forma ameaçadora como havia sido antes, mas sim como uma versão deturpada de uma ação sensual. Tentei virar meu próprio rosto, fechar meus olhos, mas não fui capaz, pois estava preso em algum tipo de transe pelos olhos sem vida que me fitavam.

— Não lute, querido Lucius, eu sei que você quer isso. O dia todo você quis isso. Não lute agora, só se renda a mim. Eu sei o que é melhor para você. — A assombração disse através da sua boca negra imóvel.

Tentei lutar, tentei o meu máximo, mas não fui capaz. A forma semi-humana teve o que quis, e eu não pude negá-la. Meu corpo se tornou frio e rígido, enquanto não pude mover meu rosto ou fechar meus olhos. Fui obrigado a passar todo aquele tempo vendo seu rosto inumano e travado, tão próximo do meu. E também sua boca negra tão próxima da minha, não expelindo nenhum pouco de calor ou de expiração húmida. Pelo que me recordo, aquela coisa nem mesmo respirava pelo seu rosto como uma pessoa.

Quando me dei por mim, meus olhos estavam fechados, e eu estava deitado na minha cama, novamente sem as cobertas. Me sentei rapidamente, mas isso foi uma má ideia, pois a dor nas costas foi tão intensa, que quase senti-as travando.

Olhei de um lado para o outro, e era possível notar que o sol já havia nascido havia muito tempo. Tentei me levantar, mas minhas pernas doíam, assim como meus braços e minhas costas. Apoiando minhas mãos na cama, percebi que minha pele rosada estava repleta de manchas e de veias saltitantes, assim como meus nervos pareciam inchados. Por um momento, parecia que eu estava olhando para as mãos de um homem centenário. Mas isso era besteira, eu não tinha mais de quarenta anos ainda. Ou será que era mesmo?

Caminhando pelos corredores de mármore, o cansaço tomava meu corpo, e eu mal tinha fôlego suficiente para fazer a rota que fazia todas as manhãs, do quarto para o salão de jantar. Minha memória estava falhando, mas eu sabia que algo horrível tinha acontecido durante a noite. Ao ver a cadeira vazia na cabeceira da mesa, lembrei-me de Tatiana, minha hóspede. O demônio que tinha entrado em minha vila.

Tomado por confiança e a necessidade por respostas, fui até o seu quarto usando a melhor da minha agilidade. Minha mente era um turbilhão, e eu sabia que durante as horas de sol, eu tinha confiança, e me sentia confortável em sua companhia, e até mesmo sentia um certo grau de atração pela mulher, algo que não correspondia com a forma como eu me sentia pela megera que me colocou naquele isolamento voluntário.

Pois ela, eu amei mais do que tudo, nunca havia me sentido assim em toda minha vida. Cometi erros, minha vida nunca foi um exemplo quando se fala de escolhas amorosas, mas acreditava por fim ter encontrado aquela com quem seria feliz para todo o sempre. Um dia, ela acordou e me abandonou, e ao ser substituído, eu tinha sido destruído por dentro. Meus sentimentos, minha psique, totalmente deturpadas pela quebra de expectativa, pelo fim dos meus sonhos, da minha felicidade, da minha razão de ser. Nunca mais ter contato com outro humano era a solução, era o que me manteria vivo.

A criatura que invadiu minha casa, havia adquirido maneirismos tanto dela, quanto das mulheres anteriores, sendo como a personificação da síntese de tudo aquilo que eu gostava em uma parceira. Mas eu nunca quis ela, nunca desejei pela sua vinda, e uma vez que ela estava ali, era apenas uma estranha precisando de ajuda. Mas novamente minha confiança foi traída, minha própria vida, minha própria juventude foi arrancada de mim.

Não sei se aquele ser era uma das abominações transmorfas do quinto planeta, ou se eu apenas havia projetado aquilo por conveniência. Afinal, aquelas coisas deveriam ser apenas mitologia. Centenas de expedições já exploraram as ruínas daquele mundo, e nenhuma encontrou nada além disso. Talvez eu estivesse errado, ou talvez eu estivesse louco.

Eu certamente tinha perdido a noção do tempo. Talvez tudo não tenha passado de alucinações. Ou talvez Tatiana tenha ficado anos no passado, e eu simplesmente não lembrasse de tudo mais. Quanto mais eu pensava nessa possibilidade, mais eu considerava que ela poderia estar certa.

Quando abri violentamente as portas duplas do quarto, me deparei com um ambiente empoeirado e mal iluminado. Os móveis estavam sob incontáveis camadas de pó. A cama nunca havia sido usada, tampouco os sofás e poltronas. Apenas uma coisa estava fora de lugar naquela cena de abandono. Um par de brincos de rubi, em formato de gota.

O curioso não era que aqueles brincos pareciam os que pertenciam ao monstro vampírico. Mas sim que eles eram idênticos ao presente de aniversário que um dia dei para minha ex-esposa. Era isso que tanto me incomodava sobre aquele brilho escarlate sob seus cachos negros.

Será que levei os brincos comigo após o fim, ou aquele par idêntico havia sido deixado ali por uma estranha que sugou minha juventude? Eu não consigo pensar em uma resposta correta. Minha vida não flui de forma linear mais. E o meu ontem não parece ter sido realmente ontem.


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