A Hora da Perdição

 


Meu nome é Simão Rahool, e eu tenho uma história para contar. Fui considerado louco pela maioria daqueles que a ouviram. Alguns disseram que tudo não passa apenas de uma coincidência. Enquanto poucos estão convencidos que eu sei mais do que estou dizendo. Portanto, espero que o meu relato seja o suficiente para que o leitor tome as suas próprias conclusões sobre o meu caso.

Suado, com calor, e apertado. Era assim que eu me sentia dentro daquele traje fedorento. Sem nem mencionar o peso que ele tinha sobre as minhas costas – principalmente nos ombros. Mas mesmo assim, era a única coisa que eu podia usar para sair do lado de fora. E em um mundo onde não se tinha nada para ver, o lado de fora era a coisa mais cobiçada e atraente que existia.

Eu estava de férias, mesmo que isso significasse apenas uma semana de paz, ainda era a melhor semana daqueles três meses. A cada três meses de serviço, um trabalhador recebia uma semana de férias, como aquele fenômeno era chamado. Ninguém nunca ficou naquele planeta por mais de um ano, com exceção de Elenor Murnau – a eremita. E eventualmente, nem ela ficou para sempre.

Não havia muitas atividades de lazer para se praticar em uma estação de mineração, então as caminhadas do lado de fora da base, eram o mais cobiçado dos eventos. E para conseguir vaga em uma dessas coisas, a pessoa tinha que se aplicar muito antes, por conta da disponibilidade dos trajes ambientais.

O padrão era que ninguém ia sozinho a lugar algum, e isso era simplesmente prudente. A segurança de qualquer pessoa estava no seu parceiro, pois um deveria cuidar do outro, essa era a lei tanto do lado de fora, quanto nos túneis. Então quando saí para a minha primeira caminhada fora da estação, eu não estava sozinho.

Para a minha decepção, ninguém do meu setor estava de férias naquela mesma semana. Eu trabalhava na capacidade de técnico de manutenção, e isso significava que nós estávamos sempre ocupados, e sempre no serviço. Em qualquer lugar, havia um equipamento precisando de revisão, ou de reparos. E isso deixava qualquer pessoa louca, principalmente com a questão de como as pessoas não sabiam lidar com as suas próprias máquinas.

Não que o equipamento fosse da maior qualidade possível. Inclusive, além de não serem bons, eles ainda eram datados e de idades questionáveis. Todo o sistema de ventilação das cavernas, era mais velho do que eu. Essa era a situação em que a equipe de manutenção estava, e todos os dias nós tínhamos de lidar com isso. Mas principalmente com pessoas que não tinham qualificações técnicas para estarem ali.

Dessa forma, sempre trabalhando lado a lado, na pequena sala úmida que chamávamos de Manutenção, eu até podia dizer que tinha colegas dentro da equipe. Mas fora disso, não havia muita socialização dentro da estação – ao menos para mim. Os administradores e burocratas viviam acima de todos. Nós, os técnicos, éramos excluídos de qualquer coisa. E por outro lado, os mineiros eram não só o maior número, mas também a comunidade mais unida. Porém, eles se consideravam melhores do que todos os outros, já que aquela era uma estação de mineração, e portanto, o trabalho deles era o mais importante.

Sem nenhum dos técnicos disponíveis para férias, eu tive que dividir a minha caminhada com um dos mineiros. Seu nome era Rasmus Dumont, e ele era um homem pequeno e magrelo, sem ao menos apresentar coisas básicas, como sobrancelhas. Exatamente o contrário da imagem comum que eu tinha dos outros mineiros, que eram pessoas enormes, e normalmente cobertas com camadas de pelo incompreensíveis para homens comuns. Não que eu os considerasse diferente de nós técnicos, mas a diferença estava nítida para qualquer pessoa que olhasse.

Quando eu estava na comporta de ar, Rasmus veio até mim, e tentou conversar comigo, já que, de acordo com as leis locais, a sua vida estava nas minhas mãos. Ele me tratou bem inicialmente, mas logo depois começou a dizer sobre como os técnicos eram as pessoas que menos trabalham, e que o interior das cavernas estava caindo aos pedaços, pela minha equipe ser preguiçosa.

A estação em si, era construída no interior de uma montanha, usando ao máximo, uma estrutura original de cavernas, que já existiam previamente. Aquele interior rochoso, foi coberto pelas instalações modernas das estações de extração, envolvendo todo o maquinário para escavação e refinação de minério. Claro que também existiam dormitórios, escritórios, áreas de lazer, e instalações sanitárias, mas todas essas coisas ficaram no plano de fundo durante o planejamento. Ou ao menos era essa a impressão que eu tinha.

A atmosfera do lado de fora me agrediu com toda a força que ela tinha para a tarefa. E ela era considerável. Pude observar que o mesmo ocorreu com Rasmus, o qual parecia ter sido empurrado por uma força invisível. Essa foi a visão limpa que eu tive por apenas alguns segundos, pois quando a atmosfera invadiu a comporta de ar, tudo ficou amarelado.

A pressão naquele lugar era suficiente para esmagar uma pessoa, e eu nem estava mencionando a temperatura ainda. Por mais que a estação Sahani-1 não fosse no fundo de nenhum oceano, a densidade atmosférica daquele planeta não era nem um pouco amigável. Nada poderia viver ali, nem mesmo as formas comuns de bactérias. Isso devido à composição atmosférica, que era altamente corrosiva, e que agia em combinação com as temperaturas infernais que eram aprisionadas pela camada perpétua de nuvens.

Certamente não era um lugar auspicioso para a vida humana, mas era um planeta em que metais pesados estavam facilmente acessíveis em profundidades relativamente superficiais. Enquanto a mineração em asteroides era muito mais fácil, ela não era tão eficiente quanto a planetária, já que uma única base podia suprir demandas muito maiores do que apenas uma base em um asteroide podia.

Caminhar no fundo de um vale infernal daqueles, pode não parecer a atividade mais segura e atraente, mas quando se passava três meses preso sem janelas, o sonho de qualquer pessoa, era ver o lado de fora. Mas estando ali pela primeira vez, eu percebi que aquele não era o lado de fora que eu esperava ver. Primeiro porque eu não estava vendo nada. A atmosfera incrivelmente densa de monóxido de carbono impossibilitava isso.

Eu e Rasmus estávamos em uma área aberta, com apenas o céu sobre nossas cabeças – capacetes. Porém isso não tinha o mesmo sentimento que caminhar sob o céu aberto em qualquer outro planeta. Eu já tinha trabalhado em estações remotas antes, e a anterior havia sido em um lugar totalmente oposto – um planeta frio e sem luz, com a atmosfera mais fina possível. Sair à noite, era como estar caminhando entre as próprias estrelas. Só que ali, eu sentia como se estivesse caminhando dentro de uma piscina de óleo amarelo. Pois além da baixa visibilidade, e da pressão, a densidade fazia com que o ar oferecesse resistência contra o caminhar de uma pessoa presa dentro de um traje mecânico.

Sobre o traje, as coisas apenas ficavam piores, já que por causa da pressão, era necessário que ele fosse uma armadura similar à um submarino com braços e pernas. Os auxílios mecânicos que existiam para a movimentação, não facilitavam tanto quanto pareciam. E é claro que Rasmus demandou saber o motivo pelo qual os técnicos não tinham resolvido aquilo ainda.

O tempo que foi permitido ficar do lado de fora, foi de uma hora, apenas uma mísera hora. E era para isso que eu passei o último mês antecipando. Uma hora de desconforto e dores, para não ver ou ouvir nada. Mas mesmo assim, eu estava feliz com aquilo, e não queria que o meu tempo fosse diminuído. Quão patético isso soa?

Apesar da regra número um da parceria, o mineiro me abandonou rapidamente, fazendo seu próprio caminho por entre as rochas. Ele pretendia procurar um lugar específico dos mineiros, e com o meu cargo de técnico, eu não podia ir com ele. Eu não ia ficar parado ali parado esperando o seu retorno, deixando a minha hora passar. Então fiz o que qualquer outra pessoa teria feito, eu fui para onde eu desejei ir.

Isso me levou até uma abertura ainda maior no vale. Eu queria a maior sensação de liberdade possível, para que eu não visse nada além do chão ao redor dos meus pés. E foi isso que eu consegui, ao custo de me lembrar do caminho de volta para a comporta. Mas isso não seria muito difícil de se fazer, nem mesmo com a baixa visibilidade, já que em momento algum eu tinha me virado. Apenas poderia me virar de costas e andar reto. Ao menos era isso que eu esperava – pelo meu próprio bem.

A vida em espaços tão pequenos quanto aqueles, não permitia solidão alguma. Eu não vivia em uma cabine própria, mas sim em um dormitório comunitário, o qual eu dividia com cinco outras pessoas. Todos eles eram mineiros. Existiam vários dormitórios como aqueles, e algumas cabines, reservadas para os administradores da estação.

Enquanto eu sentia e apreciava aquela solidão, notei que algo vinha em minha direção. Primeiro imaginei que era um veículo, tanto pelo tamanho do vulto, quanto pelo fato de que eu estava em uma área muito plana. Rapidamente saí do caminho da forma escura que vinha através da atmosfera, a qual não me permitia enxergar por muitos metros.

Mas o vulto fez a curva junto comigo, e me seguiu. A única coisa que eu podia pensar naquele momento, era que eu ia ser atropelado. Tentei até mesmo subir em algumas rochas, mas sem muito sucesso, por causa da minha inaptitude em usar aquele traje ambiental. As rochas eram fortemente dilapidadas pelo vento e pela ação corrosiva, mas ainda sim eram majoritariamente verticais.

Da posição precária e patética em que eu estava, fiz o meu melhor para correr dali, de volta para a comporta de ar. Mas apenas no último segundo, para que o veículo batesse no paredão vulcânico. Assim consegui fazer, pois saí antes de conseguir ver qualquer detalhe contra a fraca luz solar que penetrava aquelas nuvens.

De volta no aberto, eu corri para a entrada da estação, apenas para perceber que eu estava perdido. Eu rodei ao redor de mim mesmo, e nada parecia familiar. Era óbvio que existia algum tipo de dispositivo para encontrar o caminho de volta, mas eu não sabia o suficiente sobre o traje para operá-lo.

E foi nesse desespero, virando de um lado para o outro, que eu percebi que a forma estava novamente sobre mim. Mas dessa vez, ela estava próxima o suficiente para que eu visse a sua silhueta. Aquilo não era nenhum veículo terrestre quadrado, e nem mesmo algum equipamento de mineração que estava solto. Mas sim uma forma corpórea.

Eu não acreditei naquilo que estava vendo, e imaginei se tratar apenas de uma miragem, ou algo equivalente para as condições daquele planeta. Não havia nenhum humano que pudesse ter aquelas dimensões, e ao mesmo tempo, não havia vida naquela rocha desolada. Isso era mais do que comprovado, não havia forma alguma de vida que sobreviveria às condições daquela atmosfera.

Através de todo o amarelo, eu consegui distinguir algo que para mim, naquele momento – e daquele dia em diante, parecia uma monstruosidade inesquecível. Ele tinha um corpo quase quadrado em formato, pois seu peito era incrivelmente largo. E os seus ombros eram capazes de segurar duas pessoas em cada um deles.

Seguindo em tradição com o torso, as circunferências dos seus braços eram aberrantes. Cada indivíduo daquele par de membros parecia ter potência suficiente para rasgar metal. Sem nem mesmo mencionar como eles se estendiam desde os largos ombros, até quase no chão. Suas mãos estavam curvadas de forma improvável, mas ainda sim, pude perceber que elas estavam divididas em dedos individuais, como os meus. Cada um daqueles dígitos podia ou não dispor de uma garra – não era possível dizer daquele ângulo em que eles estavam.

As duas pernas curtas pareciam apenas apoios para a massa impressionante de cima. Elas eram comparativamente ridículas, e redondas, como pequenos troncos de árvores. Os seus pés eram como cascos, ou como pés chatos, aquilo que consegui determinar deles, era que a parte apoiada no chão, era a mesma circunferência que o seu joelho, se é que ele dispunha de joelhos. Mas a posição das suas pernas era em um ângulo, como se estivessem naturalmente abertas.

A cabeça daquela tremenda criatura estava localizada entre seus ombros, e não sobre eles. Isso só adicionava para o seu formato quadrado. Aquela cabeça parecia muito pequena para o seu corpo, mas mesmo assim, ela era maior que a minha, talvez até mesmo do tamanho do capacete que eu estava usando na ocasião. Ela parecia dispor de uma boca torta – talvez até mesmo um bico, – assim como um par de olhos brilhantes, os quais me fitavam estranhamente. A testa da criatura era proeminente, e fazia um tipo de sombra sobre seus olhos, e sobre o minúsculo nariz que habitava o meio do seu rosto. Sobre o topo reto da sua cabeça, subiam dois chifres divergentes, com pontas apontando para os céus perpetuamente nublados.

Mas para completar o retrato do objeto do meu tormento, aquela criatura não existia apenas em sua forma cúbica, mas ela também dispunha de asas. Sim, asas terríveis estavam abertas a partir de suas costas, e elas somavam uma envergadura muito maior do que eu poderia esperar. Por mais que a atmosfera fosse densa, e a capacidade de voo da área membranosa fosse maior, ainda sim existia a poderosa massa da besta para ser considerada.

Não entendo como ele não foi levado pelo vento quando abriu aquelas duas velas de navegação nas suas costas, mas ele ficou na minha frente. Seu olhar brilhante penetrava através de todo aquele gás para encarar o meu rosto dentro daquele capacete espelhado. Na verdade, eu não imaginava que ele pudesse ver o meu rosto, ou nem mesmo que ele entendesse que aquilo que eu estava usando era apenas um traje. Eu só sabia que tinha que sair dali o mais rápido possível.

O único problema era como eu iria fazer isso. A possibilidade de sair correndo estava fora de cogitação. Por mais que aquelas pernas possivelmente fossem incapazes de me alcançar, as asas certamente seriam. Minha única alternativa então, se tornou, lentamente caminhar de costas, esperando que ele não me seguisse.

E apesar do estado de desespero, isso foi muito bem-sucedido. Consegui andar para trás o suficiente até ele sumir dentro da névoa. Enquanto eu dava meus passos, ele apenas ficou parado, continuamente me encarando, e seu olhar parecia realmente estar penetrando o meu capacete, como se ele fosse capaz de ver além daquilo que eu conseguia ver por mim mesmo.

Intelectualmente, eu sabia que uma criatura que vivia naquele ambiente, seria capaz de me ver, enquanto eu não o via mais. Porém, ainda me soava muito melhor correr até a comporta de ar, do que continuar naquela dança perturbadora, sem nem mesmo estar vendo a criatura em questão. Então eu tomei a minha chance, me virei, e fiz o meu melhor para simular uma corrida, já que as pernas não se moviam como se esperava dentro daquela roupa.

Em meio a um desfiladeiro que eu reconheci, olhei para trás, esperando ver algo atrás de mim, como a figura sinistra com seus braços abertos, ou até mesmo a sua envergadura de asas descendo dos céus sobre mim. Mas não havia nada atrás de mim além da atmosfera amarela e das rochas pelas quais eu tinha acabado de passar.

Novamente retornando para o caminho que eu acreditava ser apropriado, havia um obstáculo súbito na minha frente. Era a figura de um homem usando o mesmo traje que eu. No exato momento da nossa colisão, eu sabia que aquele era Rasmus, mas não consegui fazer nada sobre isso, apenas cair no solo rochoso sobre ele.

Enquanto tentava desesperadamente levantar-me, ele usou seu rádio para me xingar de todas as formas criativas que um mineiro conseguia. Sem tempo para pensar, eu apenas respondi que estava sendo perseguido por uma criatura diabólica, e que ela estava logo atrás de nós. Com a mesma dificuldade que eu tive para levantar, o mineiro se pôs de pé, e ao invés de correr, ele começou a rir de mim.

Depois de implorar para que ele corresse comigo, eu acabei voltando sozinho para a base. Rasmus disse que não iria desperdiçar a sua hora do lado de fora por causa de algo que ele chamou de visão da névoa. Ele não estava nem um pouco preocupado com o meu relato, e por isso continuou exatamente onde estava. Enquanto eu corria pela minha vida, procurei segurança dentro da montanha, junto com o restante da humanidade que existia naquele lugar desolado.

Ao sair de dentro da comporta de ar, minha roupa ainda estava esfumaçada pela temperatura e pelos gases da atmosfera exterior. Mas eu imediatamente fui até o encarregado do sistema local, e contei meu relato, deixando claro que Rasmus ainda estava do lado de fora. Fui recebido com uma quantidade ainda maior de gargalhadas, pois eram duas pessoas rindo ao mesmo tempo.

Eles apenas me disseram que eu tinha aberto mão da minha hora, e que se quisesse sair novamente, eu teria que voltar para o fim da fila de espera. Por mais que quisesse alertar outras pessoas sobre o que eu havia visto, eu tinha senso o suficiente para perceber que ninguém iria acreditar naquilo que eu tinha para dizer. Ao menos não sem algum tipo de evidência, ou teoria perfeitamente plausível.

O primeiro que fiz, foi usar meu tempo diário de uso dos terminais da estação, o qual usei para pesquisar sobre o que o mineiro havia chamado de “visão da névoa”. E aparentemente, muitas pessoas haviam relatado ver coisas que não estavam realmente lá, através da atmosfera densa e amarelada que tínhamos ali. Porém, ninguém nunca havia visto detalhes dessas coisas, apenas os vultos, que sempre estavam imóveis. E quando essas aparições eram melhor investigadas, elas sempre se mostravam ser rochas contra a luz.

Munido com esse tipo de informação, fiz o meu segundo passo, que seria a pesquisa sobre a exploração do planeta em si. O planeta não dispunha de nome algum, além de Sahani-1. Sahani era o nome da estrela, e ele era o planeta mais próximo dela. Quando a primeira nave de exploração chegou ali, eles apenas fizeram uma análise à distância, com os seus sensores. Ao perceberem a riqueza em metais pesados da superfície, eles abriram a recomendação da presença de uma estação de mineração.

Nada de estranho ou incomum nisso. Porém, quando a primeira embarcação específica, que iria analisar o planeta em si chegou, eles apenas declararam a superfície inabitável. Segundo os dados disponíveis para consulta pública, eles haviam feito análises profundas em todo o território disponível. Mas de forma contraditória, essas análises não estavam disponíveis para o meu acesso.

Pensando na razão pela qual isso teria sido feito, eu acreditei estar suficientemente munido para falar com alguém capaz de tomar ação. Então fui até o escritório de administração, e lá fui recebido por Vanessa Saccia, uma dos muitos administradores que existiam naquele lugar. Ela era uma burocrata padrão, que existia apenas para ouvir as reclamações e recomendações dos trabalhadores sob a sua jurisdição. Consequentemente, ela não era nem um pouco feliz, e o seu sorriso encantador era apenas uma fachada, escondendo uma pessoa que provavelmente odiava o que fazia, e que estava mentalmente julgando cada detalhe sobre mim.

Contei desde o início o meu relato para ela. Apresentei os dados sobre o que são visões da névoa, e como elas se diferem da minha experiência. E logo em seguida, mostrei a ela como os detalhes das análises que consideraram o planeta inabitável e desabitado, não estavam disponíveis, e que portanto, eu não podia descartar a possibilidade de que eu estava certo. Ela ouviu tudo com muito carinho e atenção, até mesmo tomando notas, e isso me deixou muito animado para a ação que poderia ser tomada.

Vanessa me disse que não esperava aquilo, e que normalmente ela só lida com reclamações sobre as condições do equipamento e da vida local. Mas também me informou que ela iria levar isso para os seus superiores, para que algo fosse feito sobre o meu relato. E naquele momento, eu realmente acreditei que algo fosse ser feito, e que eu poderia ficar conhecido por algo. Ou minimamente ter o meu esforço reconhecido.

Minhas férias terminaram, e eu não recebi resposta alguma da administração. Dia após dia, eu trabalhei com um peso sobre mim. Enquanto eu rastejava no interior de dutos, tentando destravar alguma máquina, ou passar a fiação de um lugar para outro, eu sentia a presença daquela criatura enorme que estaria voando sobre a montanha naquele mesmo instante. Toda a noite, quando eu estava sozinho, pensava sobre porque ele não me atacou, ou se ele até mesmo era uma ameaça. Mas a única hipótese que eu consegui imaginar, foi que ele estava apenas curioso sobre o vulto que havia visto, da mesma forma que eu. E que a sua reação ao me ver, possa ter sido similar à minha ao o ver. Ele talvez se sentiu ameaçado e assustado com a pequena criatura de rosto reflexivo.

Eventualmente, eu cansei de esperar por uma resposta, e fui até a administração durante meu horário de almoço. Vanessa estava lá, e parecia relutante em falar comigo. Ela apenas me disse que o meu processo estava finalizado. Quando eu exigi saber o que havia sido feito, ela apenas me mostrou um documento com o meu relato redigido, e que tinha uma assinatura classificando aquilo como um caso de visão da névoa.

Vanessa ainda me disse que a administração não tinha tempo para lidar com coisas como aquela, e que eu não deveria abrir outra reclamação similar. A moça não podia ter me mandado de volta para o meu trabalho rápido o suficiente para o seu conforto. Talvez ela tenha sido pressionada a não ter aquele tipo de conversa, ou talvez até mesmo tenha sido criada nela, a ideia de que eu era insano, e que seria melhor ser evitado.

Voltei para o meu trabalho, como se nada tivesse acontecido. Ou ao menos foi o que apresentei ao exterior, já que por dentro, eu estava surtando. A administração da estação, ou estava encobrindo o caso, ou simplesmente tinha a cabeça fechada demais para coisas como aquela. Se eles estivessem encobrindo, eu esperaria que ao menos as viagens ao lado de fora tivessem sido suspensas, mas elas continuaram normalmente. É claro que toda essa aparência de normalidade pudesse fazer parte da farsa, mas não podia ser seguro.

Passei dias dessa forma, vendo conspirações em todos os cantos, e imaginando como tudo aquilo de mineração pudesse ser apenas uma fachada para algo diferente. Algo mais indescritível e oculto. Os mineiros certamente eram reservados o suficiente. Eles escondiam isso por trás da sua união, e do seu desgosto por todos aqueles outros que não faziam o seu trabalho, o qual eles consideravam o mais difícil e importante ao mesmo tempo. Porém, era plausível que aquilo também fosse igualmente um tipo de fachada, e que na verdade, aqueles homens e mulheres estivessem escondendo algo, em conjunto com a administração.

Quanto mais tempo eu passava imaginando o que poderia estar por trás daqueles eventos, mais eu me sentia paranoico. Apesar de que eu tentava acreditar no fato de que era tudo coincidência, e que eles eram apenas incompetentes, e que tinham a mente demasiadamente fechada para imaginar que eu poderia não ser louco. Mas em absolutamente nenhum momento, eu deixei de acreditar na realidade do que eu havia presenciado diante dos meus olhos.

Em um dia particularmente monótono, tudo mudou. Enquanto meus colegas já estavam começando a suspeitar sobre o meu estado de mente, os mineiros vieram com novidades. Eles encontraram uma caverna dentro da montanha. Outra na verdade, já que toda a estação existia construída no interior de uma caverna. A notícia viajou como fogo, e em questão de minutos, todos já sabiam.

Em um impulso, eu e meus colegas técnicos abandonamos os nossos postos, e corremos para as minas. Na verdade, todas as pessoas estavam fazendo o mesmo. Ao chegarmos lá, não havia nem mesmo espaço para que todos pudessem existir ao mesmo tempo. O calor não era nem discutível, com todas aquelas pessoas espremidas em um túnel apertado e de teto baixo.

A caverna em questão apareceu no fim de um dos túneis que estavam sendo escavados com a finalidade de explorar um fraco sinal de titânio que tinha sido detectado semanas antes. Os mineiros estavam felizes com o resultado do seu trabalho, mas ainda sim, eles preferiram remover todos os curiosos dali o mais rápido possível. E isso me deixou pensando no que eles poderiam estar escondendo.

Fazendo perguntas aqui e ali, eu consegui descobrir que a atmosfera no interior da caverna, era similar a do lado de fora, porém não totalmente igual. Portanto, existia uma saída para a superfície, ou ao menos um dia ela existiu. Eles não estavam dizendo nada mais, além de que preparativos estavam sendo feitos, para uma expedição no interior, a qual iria extrair tudo de valor que pudesse estar fácil. Até mesmo conversas sobre uma expansão da base foram jogadas de um lado para o outro.

Na semana seguinte, quando a expedição adentrou a escuridão eterna daquela caverna, eu tive a sensação de que algo de estranho ou ruim poderia acontecer. Não sei dizer a razão para isso. Até mesmo me foi sugerido que eu inventei essa sensação, em retrospecto ao que realmente aconteceu. Mas juro que foi como eu descrevo, sem nenhum incremento ou aditivo.

Novamente, notícias se espalharam como fogo, e o fato de que um dos mineiros havia morrido foi como um choque para mim, mas não pelos mesmos motivos que outras pessoas tinham. Foi um acidente fatal, que causou a queda do homem, de uma altura considerável. Em uma atmosfera normal, ele poderia apenas ter sido hospitalizado com fraturas em todo o seu corpo, mas dentro daquela caverna, ele teve o visor do seu capacete despedaçado pela queda. E isso fez com que o homem tivesse sufocado, tanto em seu próprio sangue quanto na atmosfera opressora.

Depois do seu funeral, uma dura investigação foi conduzida sobre o acidente. Eu não tinha muita esperança de nenhum resultado útil vir daquilo, mas então, eu fui provado errado. Foi constatado, que o equipamento que era responsável por manter o homem seguro, foi danificado de forma deliberada. A ideia de que aquilo tinha sido um assassinato tomou a estação como uma praga.

Interrogatórios aconteceram, e até mesmo eu fui investigado brevemente. Mas a única coisa que eles descobriram, foi a minha crença de que um nativo teria matado o homem, e ao saberem disso, eu novamente me tornei motivo para chacota. Por fim, nenhum culpado foi descoberto, e isso criou a atmosfera de que uma das pessoas que ali moravam, era um assassino – e que ela havia se safado com seu crime.

Assim que a morte ocorreu, a caverna foi interditada, e ninguém mais entrou ali. Mas depois do resultado inútil da investigação criminal, elas foram reabertas para os mineiros. As restrições eram apenas que eles deveriam atuar em grupos de no mínimo três a todos os momentos. Ninguém mais iria ficar sozinho, e nem mesmo sozinho com outra pessoa. Apenas trios eram admitidos, para evitar a possibilidade de outra morte deliberada. Mas isso não impediu que equipamentos sumissem, ou mudassem de lugar misteriosamente. Da mesma forma que cordas e cabos se romperam sem aviso.

Para mim, estava mais do que claro o que estava acontecendo. E eu não tinha interesse de continuar naquele lugar por nenhuma hora a mais do que eu tinha. Durante o meu trabalho, eu inventei uma manutenção na garagem dos nossos veículos terrestres, e fiz algumas mudanças na tranca do local, para que eu pudesse entrar a vontade. Não preciso dizer o quão clandestino e criminoso isso foi da minha parte, mas era sobrevivência – e ninguém mais acreditava em mim.

Naquela mesma madrugada, eu invadi a garagem, e me apropriei de um traje ambiental, e de um dos veículos terrestres. Fugi o mais rápido possível, antes que os alarmes acordassem alguém. Não havia muitos lugares para onde eu poderia ir naquele planeta amaldiçoado. Na verdade, só haviam dois lugares para onde eu poderia ir. Havia o campo de pouso, e a torre de comunicação. Ambos existiam removidos da montanha, devido às suas atividades.

O campo de aterrissagem era apenas isso, um campo. Haviam equipamentos ali, e bombas de combustível, mas o principal era apenas os túneis que faziam a conexão das naves com o interior da estação na montanha. Isso era feito dessa forma, pois era muito mais eficiente do que transferir itens e pessoal através da superfície escaldante, corrosiva, e sem visibilidade.

A torre de comunicação, por outro lado, era mais atraente. Havia realmente uma estrutura interna, capaz de sustentar a vida humana. E ela sustentava sim uma pessoa, pois a cuidadora da estrutura, era a eremita Elenor Murnau, uma senhora que vivia ali desde o estabelecimento da estação de mineração. A torre era incrivelmente alta, apenas para que tivesse vantagem suficiente para fazer suas transmissões para o satélite em órbita. E era o satélite em questão, que conectava aquele fim de mundo ao restante da galáxia.

Minha escolha foi de ir para a torre, viver com Elenor até que o próximo transporte viesse para o planeta. Eu não tinha nenhuma intenção de retornar para aquela montanha amaldiçoada na minha vida. E mesmo que meu destino fosse responder criminalmente pelas ações que levaram à minha deserção, eu iria alegremente aceitar isso no lugar da alternativa.

Quando minha entrada foi admitida, a eremita não gostou nem um pouco do que ouviu de mim. Ela rapidamente me taxou como um desertor, e disse muito sobre como ela vivia no seu posto, e não sairia dele por nada. Ninguém a tiraria dali antes da sua morte. Elenor tinha um carinho especial pela sua torre, e me ressentia pelo que eu tinha feito.

Mas como uma boa hóspede, ela permitiu que eu passasse o restante da noite, e o próximo dia ali, enquanto ela avisava a estação sobre a minha presença, para que eles fossem me buscar. Como eu disse, não tinha a menor intenção de voltar para aquele lugar, mas resolvi esperar até a manhã seguinte para ter essa conversa com a mulher. Eu tive então a minha primeira boa noite de sono em semanas.

Na manhã, eu novamente defendi o meu caso diante da eremita, implorando para que ela não me expulsasse de sua casa. Ela poderia avisar da minha presença para a estação, e até mesmo permitir que alguém levasse o traje e o veículo de volta, mas eu só desejava que eu ficasse para trás.

Elenor ouviu tudo que eu tinha a dizer, e todos os meus argumentos. Mas tudo que ela tinha como resposta, era que em todas as décadas em que ela viveu naquela torre, nunca viu nada que se assemelhasse ao que eu descrevi de forma tão vívida, mais de uma vez. Ela também não acreditava no meu relato, ou nas conexões que eu criei entre esse encontro e os acontecimentos nas cavernas.

Ela chamou a estação, mas não houve resposta. Com isso, ela tentou por mais algumas horas, mas cada vez mais, a mulher estava tensa, talvez pensando naquilo que eu havia insistido tanto. Por fim, a eremita declarou que ela mesma iria me levar de volta, e que a minha punição ainda seria resolver o problema de comunicação que estava acontecendo.

Eu não queria de forma alguma voltar lá, muito menos quando não havia resposta por parte da estação, mas ela não me deu opção. Fomos os dois juntos no mesmo veículo que eu havia me apropriado previamente. A viagem foi silenciosa e ao menos da minha parte, foi tremendamente assustadora, já que eu estava retornando para o local inseguro da minha tormenta.

Não havia ninguém para responder os nossos chamados de rádio, ou para abrir a comporta de ar para o veículo. Elenor me obrigou a descer e abri-la manualmente. Com isso, a nossa entrada estava garantida. Mas ninguém estava presente para nos cumprimentar. Nada parecia fora de lugar na garagem, mas mesmo assim, não havia pessoas.

E conforme fomos adentrando na estação, mais e mais a situação se fazia aparente. Tudo estava em seu devido lugar, mas ninguém estava presente. Nem mesmo corpos, que era aquilo que eu já estava começando a esperar. Nada, absolutamente nada. Apenas um vazio e um silêncio que eram perturbadores. Só o som das máquinas automáticas podia ser ouvido.

Elenor finalmente concordou comigo, e voltamos por onde viemos. Dali de volta para sua torre, de onde ela entrou em contato com outro planeta, pedindo ajuda. Até a chegada do resgate, nós vivemos em tensão dentro da sua torre. Mas nada nunca aconteceu, e tudo foi tão pacífico quanto a minha hóspede dizia que sempre fora.

As circunstâncias são essas, sem nenhuma adição para efeito, nem para salvar a minha imagem de covarde. Quando eu saí, todos ainda estavam lá, em suas camas. Quando eu retornei – sob ameaça, – ninguém mais existia. E por mais que eu tenha sido questionado pelas mais diversas autoridades, nenhuma culpa nunca foi colocada sobre mim.

O que aconteceu em Sahani-1 está fora do meu conhecimento. Mas com todas as circunstâncias que eu observei e vivi, tenho uma ótima ideia sobre as causas do desaparecimento de mais de cinquenta pessoas. E ela só gira ao redor daquela figura gigante que apareceu para mim, por algo como trinta segundos da minha vida. Ele não me atacou naquele momento, mas o povo diabo que vive nas montanhas, não gosta de visitantes. Ou ao menos é nisso que eu acredito.

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