A Arte de Valerius F. Morlai
O sol era pequeno, tímido e pálido naquela manhã. Eu estava caminhando pelo jardim, pensando em nada além da minha amada. Se minha agente soubesse que meus pensamentos estavam apenas na minha namorada naquela manhã, ela seria capaz até mesmo de me agredir. Mas por sorte, eu a mantinha em uma saudável dieta de mentiras e meias-verdades.
Eu só queria sair de dentro daquela casa, e respirar um pouco de ar livre, antes que a megera aparecesse para verificar o progresso das minhas novas obras. O pior de tudo, era que não haveria progresso, ao menos não enquanto ele não viesse até mim. Mas esse fato, eu não desejava revelar para ninguém.
Por mais que o nome Valerius F. Morlai seja meu, ele era na verdade uma marca, desenvolvida e expandida exclusivamente por Semura Venatil, minha agente artística. E ela tinha fome pelos próximos títulos que ela poderia adicionar ao meu catálogo, e que poderia vender, ou publicar pelo maior lucro possível. Claro que ela dizia ter apenas o meu interesse em mente, mas eu sabia a verdade.
Nada disso importava na verdade, já que apenas um dos meus quadros já pagariam outra casa como aquela em que eu vivia. Semura queria uma atualização sobre o meu progresso em qualquer âmbito da minha arte. Pois eu era um pintor e um escritor. Incrivelmente bem-sucedido em ambos os ramos, por mais que isso pareça improvável.
Porém, por mais que aquele abutre dentro de um terno feminino, fosse capaz de cobrar, isso não faria com que as coisas se movessem mais rápido. E se ela pudesse me ver andando pelo jardim daquela forma, talvez fosse até imaginar que eu estava buscando inspiração, ou até mesmo remoendo parte de um enredo em minha cabeça. Mas na verdade, tudo que eu conseguia – e queria – pensar, era em Elena.
Minha amada estava fora pelo dia. Na verdade, ela nem mesmo morava ali comigo, já que tinha o seu próprio apartamento, na cidade. Porém, muitas vezes, passava os seus fins de semana comigo, em minha enorme casa no campo. Ela era uma fiscal alfandegária no porto espacial do planeta, mas não deixava com que a sua realidade monótona afetasse como era sua personalidade.
Quando eu estava com ela, era como se todos aqueles prazos e cobranças não fossem reais, ou ao menos não me afetasse. Mas o problema, era também, que desde que eu a havia conhecido, ele me visitava com menos frequência. Não que eu sentisse falta daquela aberração, mas sem ele, eu não era nada.
Mas antes que eu fale algo mais sobre o espectro que atormentava minha vida, eu devo dizer como todo o problema começou. E a origem de tudo foi naquela manhã gelada e de luz fraca, caminhando pelo meu jardim. Foi nela que eu tomei a decisão que mudou tudo.
Minha mente estava totalmente focada no enigma que Elena representava para mim. Ela era a parte mais importante da minha vida, e mesmo assim, eu estava vivendo uma mentira com ela. Não uma mentira sobre nosso amor, mas sim sobre todas as obras que tanto definiram quem era Valerius F. Morlai, pintor e escritor. Na verdade, eu estava vivendo aquela mentira não só com ela, mas com todas as pessoas do Universo Humano. Ninguém compartilhava do conhecimento que eu tinha, assim como ninguém sabia como eu criava todas aquelas coisas fantásticas que regularmente apresentava para a sociedade. Ou ao menos, que a Semura apresentava em meu nome.
A culpa e o remorso estavam atacando o meu coração, e eu não conseguia parar de pensar em como eu estava mentindo para Elena toda vez que ela perguntava sobre qualquer parte do meu processo criativo, ou sobre o funcionamento da minha mente. Essas coisas podem parecer removidas da realidade, ou até mesmo pouco importantes, mas quando se tem uma relação com uma pessoa que faz sua vida usando apenas sua criatividade e suas habilidades artísticas, isso se torna um tema central. É como se você apenas pudesse ver a pessoa através da lente de quem ela é como um artista.
Claro que esse não era inteiramente o caso com Elena, já que ela era a pessoa que me conhecia mais intimamente. Ela me conhecia por quem eu realmente era, e não pela fachada de gênio artístico, a qual foi meticulosamente criada por Semura desde os meus dezesseis anos – quando eu pintei meu primeiro quadro revolucionário. Também foi fatalmente nesse tempo em que eu conheci ele.
Eu realmente sou um pintor talentoso, ao menos na questão de técnica e na coordenação motora. E nada disso pode ser dito sobre a minha real aptidão como escritor. O único problema, era a criatividade e a originalidade, pois disso, eu não tinha nada – eu era uma fraude. Apenas com a ajuda dele, eu conseguia criar obras que falam com as almas das pessoas, assim como os seus medos mais profundos, ou até mesmo acordando partes de sua espiritualidade que eles nem mesmo suspeitavam existir. E quanto mais estranha e perturbadora era a obra, mais a minha agente conseguia fazer com que ela fosse aclamada.
Mas como eu não conseguia parar de pensar, eu era uma fraude. Eu sempre tive essa culpa dentro de mim, mas ela nunca foi problema antes daquela manhã, pois eu não me importava com ninguém além de mim mesmo. Ao menos essa era minha vida antes da Elena. Desde que a conheci por acaso, em uma lanchonete, minha vida nunca mais foi a mesma.
Aos poucos, eu imaginava como eu estava enganando ela, mentindo na sua cara todos os dias. Eu não era o homem que ela achava que eu era, apenas metade dele. Eu não era o real autor por trás daquelas obras, apenas a mão que traduzia as ideias em projetos completos. Eu era apenas um escrivão e um ilustrador, não um autor. Não que essas não sejam coisas dignas, mas o importante era a mentira por trás de tudo.
E foi no fim da minha caminhada reflexiva, que eu decidi dizer a verdade sobre tudo. Não para Semura, e definitivamente não para o mundo, apenas para a pessoa por quem eu me importava – Elena. Por isso, eu me apressei de volta para o interior da minha luxuosa residência de campo, pois eu tinha algo importante para fazer, e aquilo não poderia esperar mais.
Enviei uma mensagem para minha amada, para que ela fosse até a minha casa naquela noite, pois eu deveria contar algo importante para ela, algo que mudaria tudo. Eu imaginei que ela recebeu aquela mensagem com o pequeno ardor da sua saudade por mim, mas ao mesmo tempo, imaginando que eu estava exagerando, e que minhas palavras eram apenas engrandecimentos literários. Mas tudo isso mudaria quando ela atravessasse aquela porta.
A tarde se passou enquanto eu preparava minhas anotações, para a inevitável visita de Semura. Ela veio no começo da noite, e basicamente se impôs para o jantar. Meu mordomo mecânico fez tudo que era necessário, enquanto eu usava meu charme cultivado para enrolar a mulher. Eu não tinha nada para apresentar, e eu sabia disso, portanto, apenas falei e continuei falando, enquanto ela tentativamente ouvia, impassível como uma estátua.
Semura Venatil era uma mulher alta, magra e com um corpo perfeitamente esculpido para intimidar aquele pobre coitado que se encontrava sob o seu olhar. Seus olhos estreitos podiam não demonstrar muita emoção, mas eles faziam com que você se encolhesse perante eles. Porém, por sorte, eu tinha bastante experiência em lidar com ela. Minha confiança era tão genuína quanto as minhas ideias, mas enquanto eu conseguisse convencer ela do contrário com relação às duas coisas, a minha vida estaria ótima.
Após o jantar silencioso e opressor, ela exigiu ver o meu progresso no meu próximo épico. Ela havia pedido um livro da grossura da minha perna, e eu certamente tinha a capacidade de digitá-lo. Tudo era apenas questão da fonte do material, se ele seria o suficiente para preencher tudo que a minha megera queria de mim.
Na verdade, eu queria trabalhar em um quadro naquele particular momento da minha vida, mas eu era apenas um prisioneiro das vontades dos dois que controlavam a minha vida. Então apenas aguardava a chegada dele.
Mostrei para minha agente tudo que eu tinha até o momento, que era nada. Ela certamente estava nervosa e coberta de irritação, mas ao mesmo tempo, sabia que não podia apressar a sua mina de irídio. Ela saiu rapidamente, ao ver que eu não tinha nada para apresentar. Mas deixou as ameaças típicas, sobre como eu tinha que ter algo sólido na próxima semana.
Enquanto ela entrava em seu transporte pessoal, Elena estava descendo do transporte público que passava por ali. Um deles era um trem que flutuava em altíssima velocidade pelos espaços destinados à ele, enquanto o outro, era um tipo de esfera flutuante, que se pilotava sozinha. Eu vi o olhar sinistro que minha agente jogou para minha namorada, mas ambos conseguimos fingir que aquilo nunca aconteceu.
Ao entrarmos, eu novamente jantei, mas dessa vez com vontade e apetite, ao contrário de quando eu estava sendo forçado a criar desculpas para o meu atraso. Estávamos sentados lado a lado ao longo da mesa escura, enquanto Elena me contava sobre o seu dia, e como ela apreendeu todo um carregamento de químicos ilegais, que seriam usados para criar algum tipo de fonte de energia suja, ou algo semelhante.
Ela também me indagou sobre o meu dia, e sobre o progresso no meu trabalho, mas me mantive resoluto, e não disse nada até depois do jantar. Elena era do tipo de pessoa que não está contente em mistério, e quando não recebe uma resposta imediatamente, continua perguntando de formas diferentes, tentando enganar o seu interlocutor a responder. E esse era um traço que eu achava irremediavelmente atraente nela.
Então, eu a levei para o meu estúdio, o qual ocupava mais da metade da casa. Minha intenção era abrir o meu coração para ela como nunca havia feito antes, com ninguém. Eu queria apenas contar-lhe a verdade, assim como tirar aquele peso do meu peito. E eu queria fazer isso dentro de onde a maior parte da minha farsa acontecia, no estúdio.
Mas para minha surpresa, assim que eu abri a porta, liderando o caminho, ele estava lá, me esperando. Fechei a porta rapidamente, para que Elena não o visse. E ela achou extremamente estranha a minha atitude, já que era eu quem estava insistindo para que ela fosse até o estúdio, que normalmente fica trancado, e fora de limites para qualquer pessoa, fora eu, e meu visitante especial – não que uma porta trancada fosse o impedir de entrar.
— Valerius, você está agindo tão estranho hoje. — Elena disse, tentando olhar por cima do meu ombro. — Primeiro, você me trás até aqui, na sua casa, no meio da semana, para me contar uma coisa importantíssima. Depois quando eu chego, você não fala nada, se nega a falar. Aí diz que vai me colocar dentro do estúdio, seu templo sagrado, mas fecha a porta correndo, como se tivesse visto um fantasma, ou algo assim. Você está se sentindo bem? — Ela completou, colocando sua pequena mão no meu rosto barbado.
— Sim. Quero dizer, não. Eu tenho que te contar uma coisa, mas primeiro, eu tenho que resolver a bagunça lá dentro. — Menti, me colocando dentro do estúdio, deixando Elena do lado de fora.
Ela tentou protestar, mas eu já havia fechado a porta. Diante de mim, estava ele, o verdadeiro autor das minhas obras, todas elas. Não só dos meus livros, mas também dos meus quadros. Pois por mais que fossem as minhas mãos fazendo o trabalho, o trabalho intelectual e criativo eram dele. Porém, se eu fosse acreditar em tudo que ele falava, aquelas coisas não eram criatividade, e sim fatos.
O homem – se é que aquilo pudesse ser realmente chamado de homem – era alto, muito mais alto do que ele tinha qualquer direito de ser. Seu cabelo longo e branco ia até a sua cintura, facilmente tendo o mesmo comprimento que o meu corpo. Suas roupas eram sempre brilhantes, apesar dele nunca usar uma mesma peça duas vezes. Naquela ocasião, ele estava trajado em algo que me parecia como uma roupa formal, apesar de ser de um modelo que nenhum humano nunca usou. Sua pele de cor metálica cintilava sob as luzes do estúdio, e os seus três olhos negros tomavam conta da minha alma, impressionando a urgência da sua visita.
— Voba, você veio! — Exclamei, primeiramente alegre com o fato dele estar ali, para me trazer algum fato da sua terra de origem.
— Eu sempre apareço, Valerius. Você é meu escolhido. — Sua voz pesada ecoou pelas paredes como que proferida por algum tipo de sistema de som elétrico.
— Por favor, fale baixo, a minha namorada está do outro lado daquelas portas. — Implorei, paranoico, sobre o que ela pensaria que estava acontecendo ali dentro.
— Madame Elena está presente? — O gigante com a pele de pigmento metálico perguntou, por um momento, surpreso. — Isso não é de significância. Rápido, sente-se e ative seu pequeno gravador primitivo, eu tenho pouco tempo para lhe contar sobre minha mais nova viagem. As coisas que eu vi mal são críveis para mim mesmo. — Ele adicionou, se sentando em algo como uma cadeira invisível.
— Voba, não se vá, eu preciso disso, eu preciso ouvir sobre suas novas experiências. Mas eu também preciso contar a Elena sobre você. Eu não posso viver mais essa mentira. — Reclamei.
— Isso é inteiramente sua decisão. E isso não é de consequência. — Voba disse, sem abaixar o seu tom de palestrante.
Com isso, voltei para a porta, e saí do estúdio, deixando o gigante sozinho lá dentro, sentado em seu assento imaginário. Particularmente, havia anos que eu estava tentando entender como ele era capaz de se suspender no ar daquela forma. Mas eu havia ouvido e visto muito de Voba, para duvidar da veracidade de algo sobre ele.
Elena estava com os braços cruzados, mas parecia bem mais preocupada do que raivosa naquele momento. E isso era bom para mim, mas ao mesmo tempo, eu não gostava de como ela estava olhando para mim, como se eu estivesse doente. Por mais que eu gostasse de como ela me tratava sob essas circunstâncias, eu não estava realmente doente, ela só estava vendo o meu desespero.
— E você estava falando com quem? — Ela perguntou.
— Então, é sobre isso que eu quero falar. — Comecei, sem saber como continuar a partir daí. Ela até esperou, mas eu parecia ter desistido de falar.
— Você arrumou uma musa para te inspirar, uma que não sou eu? — Elena perguntou de forma fria, seu rosto fechado.
— Não, não é isso. Nunca, Elena. Mas talvez fosse melhor se você visse com seus próprios olhos. — Tentei falar, tropeçando sobre as minhas palavras como um tolo.
Com o coração martelando dentro do meu peito, eu abri a porta para o estúdio, deixando que a minha amada entrasse, e colocasse o seu olhar humano e mortal, sobre a figura mística e perturbadora daquele que eu conhecia há onze anos, como Voba. Mas quando Elena entrou no enorme espaço aberto, não havia ninguém lá, apenas os estandes com as telas pela metade, e a enorme escrivaninha, onde eu digitava meus manuscritos.
— E a pessoa agora está escondida? — Elena perguntou, tão confusa quanto estava desconfiada. — Vamos, Valerius, é hora de contar, o que está acontecendo aqui?
— Isso não é fácil para mim, mas… Bem, eu… Desde os meus dezesseis anos, eu… — Tentei começar várias vezes.
Elena carinhosamente colocou suas mãos no meu rosto, e fixou o seu olhar no meu. Todas as dúvidas se derreteram, e eu estava apenas ali, naquele momento, com ela. Nada mais importava. A minha reputação, toda a vergonha, e a presença inesquecível de Voba não eram tão importantes, apenas aquele momento com ela importava. Pude respirar bem.
— Elena, eu estive vivendo uma mentira. Não só com você, com o mundo inteiro. Mas é com você que eu quero me retratar. Não consigo mais viver assim, não com você. Eu sou uma farsa. Valerius F. Morlai pode ter feito suas obras com as suas mãos, mas não com a sua mente. — Declarei, sentindo o calor que indicava que meu rosto estava vermelho.
— E se não foi você quem fez suas obras, quem fez? — Ela perguntou, olhando para mim, confusa e compreensiva.
Desviei o olhar do seu rosto, criando a coragem que eu precisava para me abrir sobre o impossível. A raça humana havia se expandido pelas estrelas, fazendo dos planetas os seus lares. Mas nem mesmo assim, espécies de vida inteligente nunca foram encontradas. Até onde eu sei, o único exemplo de vida inteligente não-humana, é o verdadeiro autor das minhas obras – Voba.
Ao olhar de volta para ela, eu vi aquela forma opressora por trás dela. A criatura estava curvada, seu cabelo branco corria como cortinas, em ambos os lados do seu rosto de pele metálica. Os olhos negros daquele rosto impassivo, pareciam escrutinizar cada diminuto detalhe do rosto perfeito de Elena. Ele era tão alto, que estava por cima dela, sem que ela percebesse.
Tomado por um impulso, eu a puxei pelas mãos, e a segurei em meus braços, retirando sua pequena forma de baixo da estátua perturbadora. Ela protestou levemente, enquanto o meu visitante retomou sua postura, mantendo sempre os seus braços para trás do seu corpo, como que para demonstrar que não pretendia agarrá-la.
— Não se alarme, querida. Mas se vire devagar. Assim, você terá todas as respostas. — Anunciei, movendo-a com minhas mãos em seus ombros.
Por fim, os meus mundos haviam colidido. Aquela mulher que eu amava, estava frente a frente com a criatura desumana, que por mais de onze anos, me visitava. E nesse período, ele me apresentava vividamente com visões e descrições de acontecimentos que nenhum olho humano poderia conceber.
Voba, em sua presença inconcebível, parecia olhar para mim através de Elena, com seus três olhos focados em mim. Enquanto isso, minha amada não parecia estar olhando para o seu rosto, suspenso tão alto acima dela. Ela estava olhando através do seu abdômen, ou talvez até mesmo daquilo que se passava por uma linha de cintura na figura inumana.
— Aquele quadro? — Elena me perguntou, virando seu rosto meigo para mim, e apontando para o homem gigante.
— Quadro?! — Exclamei, em um surto de descrença. Toda a minha expectativa, e todos os meus receios sobre a possível reação dela, ao ver Voba, foram tiradas de mim.
— Sim, aquele quadro. — Ela disse.
— Você não consegue ver ele? — Exigi, como se ela estivesse pregando uma peça em mim, ou não fosse inteligente o suficiente para entender aquilo que eu estava mostrando para ela.
— Ele quem? — Elena perguntou, se soltando dos meus braços, e olhando em volta, um tanto paranoica.
— Não. Ela não pode me ver. — Voba disse, e eu fisicamente podia sentir as vibrações intensas da sua voz batendo contra o meu peito. Os meus dentes se estremeciam dentro da minha boca, quando aquele ser impossível falava em minha língua mortal.
— E nem ouvi-lo? — Perguntei.
— Não. Só você foi escolhido, Valerius. — Ele explicou, enquanto Elena tentava – em vão – me perguntar sobre o que ela deveria estar ouvindo. — Compartilhar a minha existência com a sua companheira é uma escolha sua, e eu não irei interferir com isso. Mas saiba que ela não foi escolhida, e por isso, nunca poderá ver aquilo que não pode ser visto, ou ouvir aquilo que não pode ser ouvido.
— Val, você está me assustando, com quem você está falando? — Elena exigiu saber, enquanto tentava ver algo no ângulo em que o meu rosto estava.
— Amor, você nunca vai acreditar em mim. E eu também não sei se acredito em mim mais. Não com isso. — Disse olhando para o rosto amedrontado de Elena. — Mas se eu aprendi algo com você, é que o impossível não é tão impossível quanto as nossas pequenas mentes símias costumam acreditar. — Declarei para o gigante.
— Elena, eu sei que já fiz muito mais rodeio do que deveria, e que você está assustada com o que está vendo, mas eu peço que confie em mim. Principalmente por eu estar confiando em você com isso que vou te contar. — Expliquei para ela, puxando algo para sentarmos.
No caminho através do estúdio, Voba se manteve fora do caminho, mas sempre atento, assistindo aos nossos movimentos, como se a minha relação com Elena fosse fascinante para ele – uma nova experiência, para o seu vasto repositório de realidade.
Lentamente, eu comecei a minha história, indo linearmente pelos fatos e eventos, para que ela pudesse ver a possibilidade daquilo, e não somente as palavras de um homem louco. Ao mesmo tempo que eu queria olhar para o seu rosto, para medir a sua reação às coisas que eu estava proferindo, eu queria desviar meu olhar, e contar tudo de forma impessoal, para não alarmar minha amada.
Iniciei meu relato pelo meu período pouco criativo, e extremamente derivativo, quando eu comecei a desenhar e a pintar. Isso foi aos treze anos, e por mais que não seja exatamente esperado que um adolescente tão novo tenha poderes criativos desenvolvidos, eu não tinha promessa alguma, não quando comparado aos meus colegas.
Porém, aos dezesseis, tudo mudou, quando eu fui visitado por uma aparição espectral. A criatura gigante, magra, e de enormes cabelos brancos, queria que eu pintasse uma cena que ele havia presenciado. Naturalmente, eu corri, gritei, e me escondi. Mas com medo de ser taxado como louco, após o desaparecimento do ser, mantive aquilo para mim mesmo.
O único problema foi que ele não desistiu tão facilmente. Todos os dias, ele voltava e insistia para que eu ouvisse o seu conto, e pintasse a sua cena. Finalmente, com a curiosidade sendo maior que o meu medo, eu aceitei a sua encomenda. Assim, permiti que Voba, o visitante misterioso, me explicasse o que era que ele queria que eu pintasse.
Voba me contou que ele era um viajante interdimensional, e que a sua realidade não era a mesma que a minha. Ele havia visto e experimentado muito em sua vida virtualmente sem fim. Mas às vezes, ele escolhia um representante de alguma outra espécie, para perpetuar as suas memórias em forma de representações artísticas. Claro que aquilo me soou muito conveniente, mas se não fosse, ele não estaria ali, sentado sobre sua cadeira invisível, em meu quarto, no meio da noite.
Dia e noite, ele ditava as características e cores das coisas que ele havia visto, assim como muitas vezes, usava o seu terceiro olho negro para me hipnotizar, e tentar enviar noções e sensações estrangeiras para a minha mente. Dessa forma, eu pude falsamente experimentar e presenciar as coisas da forma como ele havia as visto – mas apenas por curtos períodos de tempo, já que a memória estrangeira não persistia muito tempo em minha mente fraca.
Eventualmente, a pintura ficou pronta. Era a coisa mais perturbadora e fora da realidade que eu já havia visto. As formas não representavam nada da experiência humana, e nem mesmo as combinações de cores. Mas mesmo assim, elas eram fotorealistas, e satisfaziam até mesmo o perfeccionista de fora do Universo.
Aquela obra se tornou uma sensação nas galerias de arte, e chamou a atenção de todas as pessoas certas. Eu fui removido da escola, e me tornei um verdadeiro artista, sob a cuidadosa tutela das minhas duas mães – minha verdadeira mãe, e sua versão maligna, Semura Venatil, minha agente.
A partir daí, toda vez que Voba me visitava, ele trazia consigo alguma cena ou paisagem para que eu a imortalizasse. E Semura fazia dinheiro com isso, às vezes até mesmo repassando um pouco para mim. Eventualmente, Voba começou a me trazer relatos das suas viagens, com descrições detalhadas das sociedades, dos mundos, e das forças obscuras que residiam nos cantos escuros das dimensões de fora da nossa realidade. E eu me tornei um escritor.
Como escritor, eu não era nem um pouco tão talentoso quanto eu era um pintor. No caso das minhas pinturas, aquilo realmente era a minha técnica e a minha mão, mas eu não havia criado aquelas coisas, a minha marca registrada. Mas como escritor, eu não fazia nada, além de digitar. Voba não só me contava todas aquelas coisas, mas ele também as narrava para mim, vividamente, como se ele estivesse de volta nos momentos que geraram aquelas memórias.
Tudo que eu fazia, era mudar nomes durante as revisões, para que os livros se mantivessem desconexos. Outra pequena precaução que eu tomava, era descrever Voba e seus companheiros, como humanos, para que o público tivesse acesso à narrativa. Mas isso causou um problema, em que alguns críticos discutiam o fato de que os personagens não pareciam realmente humanos, e sim aberrações frias e distantes. E essa era a razão para isso.
Finalmente eu cheguei nos dias atuais, em que eu era um homem rico, um artista reconhecido e apreciado, como um representante de um próprio estilo cósmico. Muitos outros artistas estavam começando a tentar seguir por um caminho similar, tentando criar seus próprios mundos e seres impossíveis. Mas mesmo com os seus talentos surpreendentes, eles ainda sofriam pelo seu maior limitador – a imaginação humana. Eles estavam presos pelas suas experiências como pessoas, e suas criaturas imaginárias eram limitadas pelas criaturas reais que seus criadores conheciam. Enquanto eu não tinha esse problema, já que aquelas memórias não eram minhas, e sim de meu visitante interdimensional.
Desconheço o motivo pelo qual fui escolhido por aquele ser, mas eu sei que ele não pretendia me largar tão facilmente. Além disso, eu vivia sob os seus caprichos, não podendo tirar férias, ou me manter em meio à presença dos meus iguais. Isso pelo fato de que a qualquer momento, ele poderia aparecer para mim, demandando ser ouvido.
Elena parecia não acreditar, como era de se esperar, quando eu não tinha evidências para lhe apresentar. Entretanto, o problema não era esse, e sim o olhar de preocupação em seu belo rosto. Ela acreditava que eu era insano, e que estava alucinando. Inclusive, ela disse que acreditava que eu acreditava no que estava dizendo. Eu havia aberto o meu coração, e ela havia visto isso como insanidade por minha parte.
Enquanto isso, Voba estava no canto do estúdio, por trás de um tripé, me fitando impassivelmente com seu olhar negro. Ele não estava me julgando nem mesmo declarando algum tipo de hostilidade, apenas estava observando, lembrando e catalogando em sua memória infinita. Algum dia, em algum lugar da existência multiversal, algum artista iria produzir alguma obra sobre aquele momento – eu estava certo disso.
Ao ir para sua casa, Elena me disse que eu deveria passar uma semana com ela, e esquecer sobre meus livros e minhas pinturas. Ela insinuou que eu estava alucinando por causa daquilo, por estar muito solitário e imerso naquelas falsas realidades. Mal ela sabia o quão reais aquelas coisas eram, e como eu as havia visto através do terceiro olho hipnótico – por mais que eu não lembrasse delas.
Por fim eu cedi, e fui com ela para o seu apartamento na cidade, longe do meu estúdio, e da presença opressora daquela criatura nem benigna, nem maligna. Mas contra o meu julgamento, peguei o meu gravador, e o meu terminal de escrita. A única coisa com a qual eu estava preocupado naquele momento, era em provar que eu não era louco, e sim que Voba era real.
Por dois dias, tudo se manteve normal, como a vida de alguém que não é amaldiçoado por visitas interdimensionais. E nesse período, Elena e Nestor, meu melhor amigo, estavam felizes com a minha atitude. Aparentemente, ela havia contado para ele que eu estava sob muita pressão de Semura, e precisava de férias da minha arte.
Mas no terceiro dia, Voba retornou. Foi enquanto Elena estava no seu trabalho. O gigante mal conseguia se manter de pé dentro daquele apartamento – ele estava levemente curvado a todo momento. Eu discuti com ele sobre se mostrar para minha amada, mas ele só era capaz de me lembrar que ela não havia sido escolhida. Mas como um bônus, ele ainda continuava insistindo em me contar sobre uma de suas aventuras.
Interessado apenas em provar a veracidade de sua existência, eu primeiro tentei fazer com que ele tivesse contato físico com algo. Eu consegui tocar nele – pela primeira vez na minha vida. Sua pele era fria, e parecia mais como couro do que como pele – ela certamente não era metálica, apesar de sua cor. Suas roupas eram de tecidos desconhecidos ao meu toque, talvez uma mistura de vinil e brim. Seu cabelo era tão real quanto o de Elena. As únicas coisas repulsivas na construção do homem, era a sua pele fria, e a falta de pulso dele.
Primeiro eu tentei capturar sua imagem em um equipamento de fotografia, e com isso, eu tinha uma belíssima imagem dele sentado em sua cadeira imaginária. E pelo restante da tarde, me neguei a ouvir sua história, já que deveria estar de férias da produção da minha suposta arte.
Naquela noite, eu mostrei a imagem para Elena, e para a minha derrota, era uma foto apenas da parede do seu apartamento. Ao menos para os olhos não-escolhidos dela, pois aos meus olhos, era perfeitamente visível, a criatura semi-humana, sentada no ar. Claro que isso gerou ainda mais preocupação por parte de Elena, e era como se eu estivesse realmente fora da realidade.
Depois disso, ele passou a aparecer até mesmo em momentos em que ela estava comigo. Seu rosto era horroroso, enquanto ele exigia atenção. Mais de uma vez, eu imaginei que ele poderia tocar em algo. E por mais que eu quisesse fazer com que ele encostasse em algo, eu não podia falar com ele, não sem que Elena se assustasse comigo.
Certa noite, eu joguei uma taça de vinho no visitante, e por mais que aos meus olhos, o líquido estivesse sobre as suas roupas, Elena insistia que ele estava no chão. Ela limpou a mancha invisível, por baixo da cadeira imaginária de Voba, enquanto eu verbalmente confrontava o homem. E ele só sabia dizer que eu não poderia continuar com aquele comportamento, não se eu esperava continuar sendo o receptáculo das suas histórias. A sua voz estremeceu os copos sobre a mesa, e o líquido dentro deles parecia vibrar em conjunto, mas Elena se negou a olhar.
Mais de uma vez, eu fui acordado pela forma encurvada sobre a cama, com seus cabelos brancos fluindo sobre as cobertas. Ele estava encostado em Elena, mas ela não parecia senti-lo. Seu rosto no escuro era como uma estátua, ainda mais do que o normal, já que não era possível distinguir se ele estava vivo ou não. O único indício disso, eram os seus incessantes pedidos para que eu me levantasse, e ouvisse sua história.
Eventualmente, enquanto eu estava tentando isolar a faixa de áudio de uma das minhas gravações antigas, Elena, Nestor e Semura apareceram, como que por mágica, atrás de mim. Eles falavam sobre como eu não estava bem, e que a minha obsessão estava passando dos limites. Ao menos era isso que Elena e Nestor diziam, pois Semura queria ouvir sobre essa fonte de inspiração.
Eles por muito tempo discutiram entre si, sobre qual deveria ser a linha entre as alucinações de um artista, e a sua realidade. Semura parecia acreditar que não havia linha, e que eu deveria fazer tudo dentro do meu alcance, para continuar criando as minhas obras fantásticas e únicas, as quais vendiam tão bem. E ao mesmo tempo, minha namorada e meu melhor amigo não acreditavam que eu deveria sacrificar minha sanidade por aquilo.
Isso foi o que eu prestei atenção, pois pelo restante da discussão sobre mim, eu estava trabalhando naquela faixa de áudio. Por mais que eu pudesse ouvi-la, clara como o dia, eu sabia que se eu tentasse tocá-la para os outros, eles não iriam ouvir nada, da mesma forma que Voba havia feito com as outras provas. Mas ele não era onipotente, e disso eu tinha bastante noção, depois de transcrever tantas de suas histórias.
Eu sabia que aquela gravação deveria ter algum tipo de dado nela, caso contrário, nem eu poderia ouvi-la. Dessa forma, as ondas sonoras estavam lá, perfeitamente gravadas, com a voz inumana de Voba. Só para testar minha teoria, eu a toquei sobre as três pessoas discutindo, e eu pude ouvir perfeitamente, aquela criatura contando sobre uma viagem através de um pântano flutuante, dentro de um ambiente feito inteiramente de gases semi-sólidos.
E eles não ouviram nada, além dos ruídos de ambiente, como as minhas perguntas para o nada, e os sons naturais do meu estúdio. Elena e Nestor estavam horrorizados com aquilo, mas Semura apenas estava sorrindo, maravilhada com meu suposto processo.
Naquele momento de ápice da minha obsessão, Voba veio, e ele presenciou aquilo, como era de seu feitio. Ele estava apenas sentado ao fundo, com sua presença tomando conta da sala. E eu estava discutindo com ele, dizendo como eu pretendia fazer com que os outros ouvissem a sua voz. A engenhosidade da tecnologia sempre superaria qualquer coisa, e ele sabia disso – fora ele quem me ensinara isso. Ele apenas disse que eu poderia tentar.
Enquanto Semura tentava tocar na figura invisível e intangível, Elena estava chorando, e Nestor estava me reprimindo pelas minhas atitudes. Mas eu estava tão próximo de ser vindicado, tão próximo de comprovar que eu não merecia créditos pelas minhas obras, mas por outro lado, eu merecia crédito por algo muito maior do que isso – uma relação diplomática e artística com uma forma de inteligência não-humana.
Por fim, usei um sintetizador para extrapolar as ondas sonoras do arquivo, e de forma independente, criar a sua própria versão, a partir daquilo que estava oculto. Quando a compilação estava pronta, eu me pus de pé, desafiando todos os poderes interdimensionais daquele que havia me roubado a minha vida e a minha sanidade, mas que ao mesmo tempo havia me dado tudo aquilo que me fazia quem eu era.
— Eis, a voz de Voba! — Anunciei para todos, por mais que dois terços deles não queriam saber, e estavam prestes a me forçar em um hospital psiquiátrico.
Ao pressionar o botão, um estalo foi ouvido por todos, e uma versão de baixa qualidade da voz da criatura foi audível. E dessa vez, não só para mim, eles também ouviam aquilo. Ele estava falando sobre uma criatura que fingia ser uma planta, para atacar suas presas por baixo. E ainda mais, eu estava tendo uma conversa com ele naquele trecho, dessa vez completa com as perguntas e as respostas.
O olhar de espanto no rosto de Elena era tudo que eu queria ver. Mas não queria vê-lo mais, eu apenas queria que ela não tivesse mais medo, e não me olhasse daquela forma.
— Você comprovou a minha existência para eles. — Voba disse, ainda sem se revelar para ninguém além de mim.
— Sim, e não há nada que você possa fazer sobre isso. — Declarei, enfrentando o ser que havia adquirido um ar sinistro.
— Mas há. — Ele declarou, se erguendo da sua cadeira.
O teto do apartamento se curvou com o impacto da sua ascensão, e rachaduras foram vistas por todos. O meu terminal de computação explodiu atrás de mim, assim como toda a energia desapareceu da residência. Os seus passos eram pesados, e ao colocar o seu rosto perto do meu, eu fui hipnotizado pelo seu terceiro olho, de tal forma que eu não pude me importar com todos os gritos ao meu redor.
No dia seguinte, todos concordavam no que haviam visto. Mas eu não conseguia mais desenhar, ou escrever. Por mais que eu ainda soubesse a linguagem, eu não tinha a capacidade de escrever, apenas de falar. Ele havia retirado a minha arte de mim, por eu ter desobedecido os seus desejos. E isso, se encaixa com o retrato tão velho quanto a humanidade, de um deus mesquinho.
Daquela noite em diante, eu nunca mais vi Voba, e da mesma forma, nunca mais produzi um pingo de arte. Elena nunca mais foi a mesma, e eu a perdi. Nestor passa a maior parte do seu tempo livre tentando explicar racionalmente o que aconteceu. Enquanto Semura busca pelo próximo hospedeiro do parasita Voba.
E eu? Eu estou finalmente livre da minha vigília. Aquele fardo não é mais meu, e eu tenho dó da pobre criatura à qual ele irá se agarrar depois de mim. Mas quanto menos eu lembro daqueles três olhos negros no rosto metálico, menos eu tenho calafrios e pesadelos durante as minhas noites.



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