Não Quebre o Pacto
O horror da minha vida começou naquela noite. O fim começou na noite em que bebi demais com alguns amigos, e eles me falaram sobre um homem que poderia me ajudar com o meu problema. E naquela época, eu não pensava em mais nada, além daquilo que considerava como o problema.
E que problema era esse? Uma mulher, o único problema que poderia estar na mente de um jovem que tinha a vida feita. Eu era o filho mais velho de uma família muito rica, e nada nunca me faltou, não como faltava para a maioria das pessoas naquele planeta esquecido pela comunidade galáctica.
Nós estávamos no bar, e assim que tomei meu segundo copo daquela bebida verde, já comecei a falar sobre ela, sobre meu grande amor – Esther. Eu amava ela com todo o meu coração, e não desejava nada mais no Universo além de estar ao seu lado. O problema era que ela não pensava da mesma forma. Na verdade, ela discordava completamente dessa noção. Pois ela amava outro homem.
Eu e Esther nunca tivemos nenhum tipo de relação, apesar dela adorar ver eu me humilhar por ela, tentando conseguir migalhas da sua atenção, e se eu desse sorte, um pouco do seu carinho. Mas esse era o máximo que ela estava disposta a me entregar, pois eu não era o seu querido Bruno.
Cansados de me ouvir falar de novo e de novo sobre isso, meus amigos – ou aqueles que eu então considerava como amigos – me disseram sobre um homem que podia realizar o impossível. Eles me disseram que eu poderia pedir qualquer coisa dentro do reino da realidade, e que aquele homem me daria, sem cobrar nada. Não no primeiro momento.
Eu estava bêbado, e perdidamente apaixonado. Minha vida estava em ascensão, e a cada mês que passava, minha fortuna pessoal ia aumentando. E eu sabia que poderia pagar qualquer preço que aquele homem misterioso me cobrasse. Nada era demais pelo amor.
Então pedi para entrar em contato com ele. Nenhum dos meus parceiros alcoolizados sabia me dizer como fazer isso, mas o barista estava ouvindo a nossa conversa, e ele soube me dizer como encontrar aquele conhecido apenas como “Lorde Satã”.
Meu transporte pessoal me levou até a região antiga da cidade, sozinho. Apesar de uma pessoa da minha posição social sempre usar um piloto humano, eu não queria que ninguém soubesse até onde eu estava indo àquelas horas da noite, principalmente com quem iria me encontrar. Então o piloto-automático me serviu bem naquela maldita noite.
Descendo em frente ao prédio arruinado, imaginei que não havia nenhuma forma possível daquilo ser o escritório de um homem de negócios tão notório quanto aquele – notório ao menos entre os círculos sociais que sabiam da sua existência. Inclusive, me foi dito que um dos maiores colegas do meu pai também tinha feito um tipo de trato com o homem.
Olhando ao redor, nada pude ver, além da escuridão e das vidraças sujas na fachada do prédio. A sua arquitetura era antiga, e não parecia o edifício mais bem frequentado daquele lugar. Inclusive passou pela minha cabeça, que aquele lugar era visitado apenas por criminosos e dependentes químicos. Então resolvi sair dali antes que fosse vítima de um crime violento.
Porém, ao tentar entrar novamente em meu veículo de luxo, três homens bem vestidos apareceram, saídos de dentro de um outro veículo de luxo. Eles vieram na minha direção, e apesar das suas vestes finas, pude perceber que suas expressões e rostos eram duros e malévolos. Os homens eram criminosos, possivelmente violentos.
— Você está perdido, garoto? — O menor deles perguntou.
— Acredito que sim. — Respondi, engolindo em seco, mas mantendo minha compostura. — Me deram esse endereço, mas eu não acho que o homem importante que eu queira ver esteja aqui.
— Isso depende. A entidade mais importante do planeta está aí dentro. Só é uma questão de se você está preparado ou não para vê-la. — O homem pequeno e assustador respondeu.
Senti que aquela era a minha chance. Minha mente ainda ocupada pela bebida não sabia dizer que chance era, mas eu poderia ter dito que não estava preparado. Eu deveria ter dito que não estava preparado. Mas a única coisa que eu podia pensar, era como sem a ajuda de Lorde Satã, nunca poderia ter Esther.
— Eu desejo me encontrar com aquele chamado Lorde Satã. — Consegui dizer, ainda tentando manter minha postura de superioridade social.
— Pois então me siga, senhor. — O homem disse, liderando seus dois comparsas para as sombras da fachada apodrecida.
Eu os segui, não com pouco medo. Naquele térreo assustador, pude ver pedaços de materiais de construção no chão, assim como podia ouvir o som dos roedores de oito pernas que atormentavam as edificações daquela região do planeta. Pensei em como se eu morresse ali, ninguém saberia onde eu estava, e nunca mais seria encontrado. Mas fiz o meu melhor para controlar minha imaginação mórbida. Fiz isso pensando no sorriso meigo e brilhante no rosto de Esther, o meu grande amor.
Os homens me desceram em um tipo de elevador, e assim que saímos dele, a diferença era gritante. Eu não estava mais em um prédio arruinado, e sim em um escritório luxuoso e distinto. As paredes eram do melhor material, assim como os móveis eram importados de outros mundos.
Era uma antecâmara belíssima, adornada com um tapete mais valioso que o meu apartamento. Pinturas antigas brilhavam nas paredes, e sob elas, outros dois grupos de três homens estavam sentados. No total, nove pessoas me observavam, julgando a minha aparência e os meus desejos.
Então as portas de madeira antiga se abriram, e uma mulher rosada atravessou para a sala de espera. Ela era incrivelmente linda, quase tão inesquecível quanto Esther. Nossos olhos se encontraram, e um calafrio percorreu a minha coluna, pois eu senti que ela estava ouvindo vozes.
— Lorde Satã não quer deixar o grande Eike Gottworth esperando, deixe ele passar. — A mulher declarou, abrindo as portas para a minha passagem.
Entrei sozinho no escritório. E percebi que aquilo não era exatamente um escritório comum, ao menos não para um homem. Havia duas poltronas lado a lado, sobre um tapete artesanal e ancião. Mas ao invés de existir uma mesa, e um homem atrás dela, tudo que eu podia ver, era um tanque de vidro, cheio de um líquido indecifrável. E submersos nesse líquido, mantidos por cabos metálicos, estavam seis cérebros humanos.
O tanque era de vidro, mas sua base e topo eram metálicos, com cabos elétricos e lógicos, conectando-se a equipamentos ocultos fora da sala. Não havia mais ninguém na sala conosco, apenas eu e o tanque de cérebros.
Assim que o choque inicial se dissipou, me virei e tentei abrir a porta, mas ela estava trancada. Foi então que eu ouvi uma voz atrás de mim.
— Sente-se, Senhor Gottworth. — Era uma voz culta e cultivada.
Me virei, e ninguém estava lá. E estava certo de que a voz havia vindo da direção do tanque. Talvez o homem estivesse escondido atrás daquilo. Talvez, aquilo fosse algum tipo de escultura doentia, presente para impressionar os visitantes.
— O senhor parece estar abalado. Sente-se, eu vou ordenar que lhe tragam uma bebida e um charuto. — Aquela voz disse novamente.
Controlei minha respiração e me sentei na poltrona direita. Percebi então que minhas mãos tremiam desesperadamente, e que a única coisa que me mantinha aparentemente calmo, era a minha compostura social e distinta. Porém o pânico estava quase vencendo.
— Eu estava sobre a impressão que me encontraria frente a frente com o homem chamado Lorde Satã. — Decidi tomar a ofensiva, mais como uma forma de mostrar para mim mesmo a minha coragem.
— E o senhor está. — Ele disse.
— Não com este tanque entre nós. — Retruquei.
— O senhor deveria ter uma mente mais aberta sobre a forma física daqueles que o cercam. Nem todos são como você, nem todos são pessoas individuais. O serviço prestado por Lorde Satã é importante demais para apenas uma mente. — A voz explicou.
Todo o ar saiu dos meus pulmões, e por talvez um minuto, não pude respirar. Só acordei daquele pequeno transe, pois a mulher rosada estava colocando um copo de cristal na minha mão esquerda, e um charuto na minha mão direita. Seu sorriso era belo e manipulador.
Ela acendeu o charuto, e dei algumas tragadas na fumaça – com mais do que um pouco de tosse. Depois de metade do pequeno copo de bebida macia, eu estava calmo novamente. Meu coração estava batendo normalmente. Estava claro para mim, que estava causando um vexame, mas também sabia que aquela aberração mutante me conhecia, e me respeitava.
— Agora que o senhor está relaxado, calmo perante a minha presença, porque não me diz tudo sobre o motivo de estar aqui? — Ele me pressionou.
— Bem, é algo bem simples. Uma história tão antiga quanto a humanidade. Eu tenho tudo, e nada desejo, não preciso fazer tratos obscuros para conseguir um cargo, ou para arruinar outra pessoa. Muito menos preciso de dinheiro, ou de desaparecer. Só há uma única coisa que eu não consigo obter, algo que eu preciso para completar a minha vida. Eu preciso do amor de uma mulher. Mas não de qualquer mulher, dezenas de garotas da alta sociedade adorariam me ter como marido, menos uma. Esther Vera, a única mulher com quem eu me importo. Mas veja, ela não se importa comigo. — Expliquei, me sentindo um garoto idiota por dentro, mas ao mesmo tempo, já estava ali, e era só dinheiro.
— Então o senhor deseja um casamento duradouro com Esther Vera? Isso pode ser facilmente arranjado, só preciso de alguns dias para realizar o seu desejo. — A massa encefálica me disse.
— Explêndido. E quanto isso vai me custar? — Meu entusiasmo era profundo, e contagiante, ao menos eu achava que era.
— Não vai te custar nada. Não em termos de capital. O senhor vai ficar me devendo um favor, um favor que eu irei cobrar quando achar adequado. E quando eu vier cobrar esse favor, o senhor não poderá me negar. É assim que esse meu negócio funciona, eu te dou aquilo que o senhor deseja, e o senhor me dá aquilo que eu desejo. Temos um acordo? — Ele explicou.
— Temos. Mas eu só lhe concederei o seu favor, caso o meu realmente aconteça. — Disse, tentando negociar a minha própria satisfação.
— Não se preocupe com isso, ela estará te visitando em casa até semana que vem. O senhor tem a garantia do Lorde Satã. Agora, uma última coisa para que selemos esse pacto. Permita a introdução daquele pequeno implante ali. — A voz disse, e quando eu menos esperava, a secretária introduziu um tipo de agulha na minha nuca.
Não houve algo que poderia ser considerado realmente doloroso, mas mesmo assim foi uma horrível picada sem que eu tivesse realmente concedido. Ela então passou uma pomada sobre o local da ferida, e imediatamente parou de arder, voltando ao seu estado normal.
— Foi um prazer negociar com o senhor. Esteja à espera da realização do seu desejo. E não se esqueça, quando eu vier cobrar, “não” não será uma resposta possível. — Lorde Satã instruiu enquanto eu me removia da sua presença aberrante.
Seus capangas me levaram até o meu veículo, cordialmente, e então o piloto-automático me levou de volta para casa. Pela manhã, em meio à minha ressaca, acreditei que tudo aquilo não tinha passado de uma piada elaborada, feita por todos os meus amigos coletivamente. Minha nuca estava perfeitamente normal, como sempre fora, assim como eu não tinha nenhum contrato escrito com aquele mutante horrendo.
Minha vida seguiu como normal por alguns dias, até que o inesperado aconteceu. Esther me visitou em casa. Ela e seu pai desejavam discutir uma união das nossas famílias tradicionais. Ela me contou sobre como tinha sentimentos por mim, e sobre como Bruno era apenas uma distração juvenil.
Não pude acreditar no que estava ouvindo. Mas as palavras de Lorde Satã continuavam ecoando na minha mente, e eu sabia que aquilo havia sido feito por ele. Aquela monstruosidade realmente tinha conseguido. Eu não sabia como poderia ser possível, mas havia acontecido. Esther subitamente estava interessada em mim, e subitamente estávamos noivos. Finalmente tinha tudo que queria, e nem ao menos havia pago nada por isso.
Depois de exatamente um ano de noivado, nos casamos em uma cerimônia histórica para a alta sociedade daquele mundo. Todos estavam lá, e a minha felicidade estava finalmente completa.
Após nossa lua de mel em três sistemas solares diferentes, me peguei pensando sobre Lorde Satã, e sobre o seu poder, sobre como ele poderia ter feito aquilo.
Usando minha influência crescente, descobri que aquele nome era extremamente renomado, e que quase todas as pessoas de notoriedade já haviam feito acordos com ele. Por fim, as minhas perguntas levantaram alarmes, e em um evento de caridade, o administrador da cidade veio falar pessoalmente comigo.
— Você deve parar de perguntar sobre Lorde Satã. Todos nós o conhecemos, e todos nós devemos algo para ele. Ele tem todo o planeta na palma da sua mão, mas não podemos fazer nada sem que ele ouça. — O administrador disse.
Ninguém mais desejava falar sobre o assunto, então eu simplesmente o deixei de lado. Vivi minha vida.
Esther sempre pareceu extremamente feliz e satisfeita com a nossa vida, nunca mencionando nada sobre ter sido manipulada ou obrigada a nada. Depois de alguns anos de casamento, decidimos ter um filho, e então a minha adorável Jade nasceu.
Pouco após a festa de aniversário de quinze anos da minha linda filha, eu estava sozinho no meu escritório, ouvindo ela contar para a mãe sobre o seu dia, quando uma voz entrou na minha mente. Pude ouvi-la como se estivesse do meu lado. E aquela voz era conhecida, pois era a voz de Lorde Satã.
— A sua vida parece ótima, Eike. Eu imagino que esteja bem satisfeito e agradecido com o favor que eu lhe concedi todos esses anos atrás. — Lorde Satã disse, sem maldade ou crueldade, apenas como dois homens distintos conversam enquanto bebem.
— Como você está fazendo isso? — Perguntei cochichando para mim mesmo.
— Há um implante na sua coluna. Lembra daquela picada no fim da nossa reunião? De qualquer forma, o importante não é o como, e sim o porquê. — O homem coletivo declarou.
— Você veio cobrar o favor. — Afirmei.
— Exatamente, Eike. O senhor é um homem mais velho agora, um homem mais experiente, mais maduro. O senhor ouviu algumas histórias sobre mim, e sabe que minha vontade não deve ser negada. Como devo lhe lembrar, o senhor concordou em me conceder um favor, seja ele qual for. — A criatura continuou.
— Eu concordei. Vamos acabar com isso de uma vez. Qual o seu desejo? — Perguntei cautelosamente, pois pensei saber do que ele era capaz.
— Como você colocou, é bem simples. Eu preciso que você se livre de uma pessoa para mim.
— Quando você diz se livrar…
— Sim, eu desejo que você termine a vida de um indivíduo para mim. E então a sua dívida estará paga, você poderá viver o restante da sua vida – a qual eu fiz feliz – sem se preocupar comigo. — O monstro declarou.
— Mas eu não posso matar alguém! Você tem tantos capangas, eu tenho certeza que eles são mais do que capazes de tirar a vida de uma pessoa. — Protestei tentando não exaltar os ânimos, já que minha família estava apenas do outro lado da porta.
— Eles são, você está certo, Eike. Mas se esse fosse um serviço que eles pudessem fazer, eu não estaria te pedindo, estaria? De qualquer forma, este é o meu desejo, e você não pode negá-lo. Tudo que eu lhe dei, eu posso tirar de você. Pense sobre isso por um minuto. — Ele disse, dessa vez de forma selvagem.
— Quem é a pessoa? — Perguntei, derrotado, temendo pela minha vida, e principalmente pela vida de minhas duas amadas mulheres. Jade ainda era pouco mais que uma criança, e sua vida já estava sendo ameaçada pelos erros do seu pai. Eu tinha um dever de protegê-las e de garantir a sua felicidade, mesmo às custas da minha própria paz. Eu deveria arcar com as consequências das minhas ações.
— Lucca Carzinni. Mate-o dentro de uma semana. — Lorde Satã ordenou na minha mente.
— Mas eu não posso! Ele é o meu melhor amigo. — Quase falei em um tom de voz normal, pude perceber que minha filha havia parado de tagarelar.
— Então não deve ser um problema para você se aproximar dele, não é mesmo? Só faça aquilo que eu mandei, mate-o dentro de uma semana, ou eu vou tirar de você tudo aquilo que tem por valioso. Lembre-se, há destinos piores que a morte. — O gângster disse por fim, e sua presença aberrante se desensinuou na minha mente.
Por mais que eu estivesse sozinho no meu escritório, a discussão na minha mente era o suficiente para encher todo um salão. Eu não podia matar alguém, muito menos Lucca. Eu era uma boa pessoa, apenas havia cometido um erro, mas aquele erro iria me custar muito. Ou ele custaria a vida de Lucca, ou a minha família. E apesar do meu carinho e amor pelo meu amigo, ele não tinha como ser colocado à frente da minha família.
Ainda naquela noite, liguei para ele, e o convidei para passar a semana comigo na minha propriedade rural, perto de um lago. Ele sempre amou aquele lugar. Por um momento ele achou estranho o convite tão repentino e em cima da hora, mas não pôde deixar de aceitar o meu convite tão querido.
Lucca Carzinni era um homem importante para todo o planeta, pois ele tinha conexões com os governos de três outros mundos, enormes parceiros comerciais do nosso. Por isso, ele não se sentia seguro sem a presença dos seus seguranças em lugar nenhum na cidade. O único lugar que ele se sentia seguro, era no campo, na sua casa ou na minha. Principalmente na minha, já que ninguém pensaria em procurá-lo lá.
E eu sabia disso. Isso foi o pior daquela traição. Eu sabia que ele se sentia assim, e por isso o convidei para ir comigo para lá. No lugar afastado e sem os seus seguranças, onde ele poderia relaxar a sua guarda, e não pensar em negócios por alguns dias. Só eu e ele, conversando e pescando no meu lago.
Então, dentro de dois dias, eu e Lucca estávamos a caminho do lago. Ele estava tão animado, falando sobre como o estresse o estava comendo vivo, e como o meu convite veio em um momento perfeito. Lucca até disse que estava considerando seriamente pedir para usar a minha casa de campo, mas que não teve coragem para fazer o pedido na festa da Jade.
Quando chegamos, os seguranças dele já haviam terminado a sua varredura de segurança do local, e garantiram para ele, que nós estávamos perfeitamente seguros ali. Almoçamos uma refeição incrível, feita pelos meus funcionários locais. Era possível ver o brilho nos olhos dele, e como ele podia respirar ali. E tudo isso fazia com que cumprir a minha responsabilidade, fosse ainda mais difícil.
O convidei para uma pesca noturna, e saímos no meu pequeno barco em meio à noite. Somente eu e ele, no pequeno veículo aquático. E por horas conversamos enquanto os equipamentos tentavam fisgar alguma das serpentes do lago. A arma da propriedade estava dentro da minha sacola de lanches, mas não conseguia pegá-la, não conseguia apontá-la para o meu melhor amigo.
— Lucca, eu tenho que te confessar uma coisa. — Declarei, sem perceber que minha mão já estava dentro da sacola.
— Qualquer coisa, Eike. — Meu amigo respondeu, tentando olhar no meu rosto, mesmo no escuro absoluto do lago.
— Eu fiz uma coisa quando eu era jovem. — Consegui dizer, mesmo sentindo o meu coração se rasgando dentro do meu peito. Eu não conseguia olhar no seu rosto.
— Eu tenho certeza que você fez muitas coisas.
— Você se lembra daquele dia no bar, com o grupo todo. E que eu disse que faria qualquer coisa para conseguir a Esther? — Perguntei.
— Isso parece uma descrição de todas as noites antes do noivado de vocês. — Ele disse, soando confuso, mas rindo.
— Uma daquelas noites, você disse que tinha que sair mais cedo, e que tinha que receber uma ligação de um empresário que estava em outro fuso horário. — Lembrei ele sobre o ocorrido.
— Ah sim, esse foi o meu grande dia. Aquela reunião criou o meu império atual. Não sei como deixei vocês me levarem para um bar apenas horas antes. — Lucca relembrou, rindo.
— Quando você saiu, eu fiquei bêbado. E alguns dos outros me disseram sobre alguém que poderia realizar qualquer sonho que eu tivesse. — Continuei.
— Onde você está indo com isso, Eike? — Meu amigo perguntou, com preocupação em sua voz.
— Lucca, você já ouviu falar de Lorde Satã? — Perguntei, em prantos.
— Todos já ouvimos falar dele. — Ele respondeu com medo. — Não, Eike, não. Não me diga que você… — Lucca não conseguiu terminar, pois eu estava apontando a arma para o seu rosto.
— Eu não posso Lucca. Eu não quero. Mas ele vai tirar a Esther e a Jade de mim. Ele vai tirar tudo de mim. A Jade só tem quinze anos. — Eu estava chorando histericamente nesse ponto.
— Eike, você não precisa fazer isso. Nós podemos vencer ele juntos. Voltamos para a sua casa, e vamos falar com os nossos funcionários. Podemos tirar a sua família do planeta, levá-los para onde o crime organizado local não pode encontrá-los. — Lucca disse, ele também estava chorando.
— Lucca, você não entende, ele pode ouvir tudo que eu falo. Ele colocou um implante na minha coluna. Ele pode te ouvir. Ele está em todo lugar. O antigo administrador me disse para não falar sobre ele, pois ele escuta tudo. — Nesse momento, abaixei a arma.
— Isso, não importa se ele está nos ouvindo, ele não pode tocar em mim. Se pudesse, não teria te obrigado a fazer isso. Vai dar tudo certo, Eike. — Lucca disse, tentando calmamente pegar a arma da minha mão.
— Lucca, você é um amigo muito melhor do que eu poderia ser. Muito obrigado, eu não consigo te agradecer o suficiente. Eu tinha que fazer isso, ele sabe onde minha família está. Nós temos que tirar eles de lá agora mesmo! — Exclamei, histérico.
— Nós vamos fazer isso, assim que conseguirmos chegar na sua casa. — Ele disse, ainda tentando pegar a arma. — Eike, solta a arma, nós estamos juntos nisso agora. — Meu amigo pediu.
— Eu não estou segurando ela… — Expliquei, olhando incrédulo para a minha própria mão. — Eu não consigo sentir a minha mão.
O meu braço então se levantou calmamente e a arma estava nivelada com o rosto de Lucca. Com a minha mão esquerda, eu tentei desesperadamente abaixar o braço, ou até mesmo arrancar a arma da minha mão dormente. Mas era como se outra mente estivesse controlando tudo abaixo daquele ombro.
— Eu não consigo controlar o meu braço! — Gritei no escuro. — Socorro, alguém nos ajude! — Gritei novamente, completamente desesperado.
— Eike, eu não sei que poder esse homem tem sobre você, mas você tem uma escolha. Não precisa me matar para salvar a sua família. — Meu amigo implorou.
— Ele não é um homem, Lucca. Ele é uma monstruosidade, um tanque com seis cérebros dentro. — Consegui dizer antes da minha boca travar.
— Talvez ele tenha te drogado, talvez… — Lucca tentou argumentar, mas a arma em seu rosto não estava facilitando seu raciocínio.
— Mate-o, agora. — A voz de Lorde Satã estava na minha mente, clara como o dia. Ele poderia estar ali do nosso lado.
— Eu não vou matar o meu melhor amigo. — Consegui dizer, choramingando.
— Isso, não me mate, Eike. — Lucca implorou.
Então senti todo o meu corpo ficar dormente. Até mesmo os meus olhos. Minha mente flutuava sobre o nada, e eu apenas podia ver aquilo que estava na frente dos meus olhos. Não era minha mente quem estava controlando meu corpo, eu não tinha mais um corpo. Eu era apenas uma consciência no vazio, e aquilo era um sonho. Um pesadelo. A qualquer momento, eu poderia acordar, pois aquilo não estava acontecendo.
Estava convencido de que aquele não era eu. Pois eu só estava assistindo aquela cena na minha frente, como se fosse uma alucinação de entretenimento.
— Olha, Lucca, eu não faço as coisas pessoalmente, mas o Eike aqui não consegue completar essa tarefa simples. — Ouvi a minha própria voz dizer, mas não fui eu quem disse aquelas palavras.
— Eike, você está doente, me dê a arma, e eu vou cuidar de você. — Lucca disse, sussurrando.
— O Senhor Gottworth não está em casa. Mas ele está ouvindo tudo, Senhor Carzinni, ele entenderá o recado. Tenha uma boa noite. — Minha voz terminou de falar, e então a arma disparou sozinha, desintegrando o rosto de Lucca.
Minha mão soltou da arma, e pegou o meu amigo morto por baixo dos seus braços. Eu não senti isso, eu não senti nada. Apenas assisti enquanto aquelas mãos, que pareciam tanto com as minhas, jogavam ele no lago.
— Agora, Senhor Gottworth. — Minha voz disse. — Eu vou voltar para a casa, e dizer que o Senhor Carzinni caiu no lago e foi atacado pelas serpentes. A ajuda irá chegar, e eles vão encontrá-lo despedaçado. Tudo será tratado como um terrível acidente, e o senhor irá para casa, na cidade. — Assisti impotente enquanto minhas mãos manipularam os controles do veículo.
— Depois disso, eu vou cumprir aquilo que te prometi. Você não cumpre com os seus prometidos, Eike. Mas eu cumpro. Fui eu quem te conseguiu a sua esposa. Falando nisso, você é patético. Usar um líder do crime organizado para obrigar uma mulher que te odeia a casar com você? Esse foi um dos desejos mais idiotas que eu já realizei. A sua sorte era que ela me devia um favor, então não teve escolha a não ser casar com a sua pessoa. Você sabe por quê? Pois ela cumpriu com a sua responsabilidade. — Minha voz discursou.
— Era só você ter matado aquele idiota, e eu teria te deixado viver a sua vida em paz. Você e sua esposa feia. Os dois teriam pago os seus compromissos comigo. Mas não, você tinha que ser um idiota e contar tudo para o Carzinni. Agora eu vou ter que fazer com você aquilo que prometi, eu vou ter que tirar tudo que te dei.
— Eu vou matar a Esther. Sim, eu vou, e vai ser brutal, vai estar na imprensa por anos. Eu considerei matar a Jade também, mas não, ela é mais útil viva. De qualquer forma, eu vou matar a Esther, e depois disso, você vai ser pego em flagrante. Sua filha vai te odiar, e você vai apodrecer em uma prisão, a qual eu comando.
— A Jade então vai ser a herdeira do seu pequeno império, e eu vou dar um jeito dela criar uma dívida comigo. Tudo vai estar consertado, e todos os problemas que você me causou vão desaparecer. Desaparecer junto com você, com a sua reputação, com a sua felicidade, e com a sua amada Esther.
— E a propósito, ela nunca te amou. Ela ainda vê o Bruno. Na verdade, até acredito que Jade seja filha dele. Você é realmente patético, Eike.
Eu não tinha controle algum sobre o meu corpo, nem mesmo sobre a minha própria boca. Para qualquer observador externo, parecia que eu estava falando sozinho, mas na verdade estava preso, um prisioneiro dentro do meu próprio corpo. Pois quem o controlava, era a mente coletiva, conhecida na alta sociedade apenas como Lorde Satã.



Comentários
Postar um comentário