Madame Clarice
— Eu só não acho que seja saudável. É só isso que eu estou dizendo. — Declarei com convicção.
— E eu só acho que você está errada. Ela é diferente, não é como as outras foram comigo. Eu sei que você só está tentando me proteger, mas você está errada Natália. — Meu melhor amigo, Lamar, disse, se opondo.
— Eu não vou ser convencida tão facilmente assim. Você diz que ela é diferente, que ela não vai te machucar igual as outras. Mas já vejo o efeito que ela está tendo em você, e não gosto do que estou vendo. — Disse a ele.
Meu medo era que a próxima e inevitável declaração, fosse causar dano irreparável à nossa amizade, mas eu preferia correr aquele risco do que deixar que meu amigo sofresse nas garras de uma namorada tão manipulativa quanto aquela.
Eu sabia que independente do que ele dissesse, eu estava certa. Não por ser infalível, mas pelo fato de que os efeitos nele já estavam tão aparentes quanto um sol à meia-noite.
— Que efeito, Natália? — Ele indagou, um tanto nervoso, mas ainda sim seguro de si.
— Lamar, não me leve à mal, mas você está cada dia menos inteligente. Não digo isso como um insulto, acredite em mim. Mas é a verdade. Desde que esse seu namoro começou, eu não consigo mais conversar com você sem ter que explicar cada coisinha. Você nem mesmo entende o assunto mais! — Discursei com um nó na garganta.
— Isso não mostra nada, eu nunca fui particularmente inteligente, não como você pelo menos. Mas é só estresse, você não entenderia o estresse que eu estou passando no trabalho, já que você só trabalha sozinha. É estresse, nada mais, Natália. E a Clarice é tudo para mim, sem ela eu já teria sido consumido pelos meus problemas, ela é como meu tanque de ar, eu não sei como vivi tanto tempo sem ela. — O homem se defendeu – na verdade defendeu sua namorada, ao custo de sua postura e intelecto.
— Você sempre foi inteligente, nossas conversas eram ótimas. Isso até o seu QI cair por ao menos trinta pontos de uma semana para a outra. O seu mundo não se baseia só em uma mulher que manda e desmanda em você. Vocês não nasceram colados na cintura. — Disse, ainda tentando fazer com que ele visse a razão.
— Talvez eu seja mais inteligente do que eu acredito. Mesmo com a minha suposta queda de QI, eu ainda consigo ver que você não tem argumento nenhum além de que eu supostamente fiquei burro desde conheci o amor da minha vida. — Lamar disse vigorosamente, ele parecia completamente cheio de paixão por seu ponto.
— O jeito que você fala dela, é como se você estivesse programado para adorá-la. Ela não erra, ela é sua dona, e você não pode ver o ponto de vista de alguém que só quer te proteger? Quem estava com você todos esses anos? Quem sempre te impulsionou a encontrar a felicidade? — Implorei, sabendo que a batalha estava perdida.
— Eu não estou acabando com a nossa amizade, Natália. Só quero que você fique feliz por mim. Encontrei minha alma gêmea e ela me trata tão bem. Estar com ela é finalmente estar vivo. — Ele declarou.
Os olhos dele não tinham brilho de adoração quando ele falava sobre ela. Eles tinham uma total falta de visão, era como se seus sentimentos não estivessem falando, e sim algo mais profundo e desconhecido.
— Olha, eu vou com ela no Tio Gói amanhã à noite. Apareça lá, conheça ela, você vai colocar toda essa bobagem de lado. Ela realmente é diferente de todas as outras que eu conheci antes. Você só quer o melhor para mim, e eu admiro isso Natália, de verdade, mas você não pode tentar destruir a minha relação só por causa disso. — Meu amigo disse, se sentindo moralmente derrotado.
— Eu estarei lá. — Respondi de forma seca.
— Tenho que ir. Eu tenho chefe e meu horário de almoço já terminou tem dez minutos. — Lamar disse, já se retirando do restaurante.
Lamar estava voltando para o seu trabalho, no elevador espacial daquela cidade. Ele era supervisor da área de carga e descarga, e quando algo demorava para entrar ou sair do elevador, era ele quem era responsabilizado. Eu entendia o estresse que ele constantemente estava sob, mas nada explicava o fenômeno que eu estava presenciando nas últimas semanas.
Lamar era meu melhor amigo, ele sempre esteve lá quando ninguém mais se importava se eu estava viva ou morta. Mas eu tinha que concordar que ele sempre teve um dedo podre quando o assunto era relacionamentos. Todas as mulheres que ele já amou, ou traíram ele, ou o agrediram, ou o manipularam para que ele largasse toda sua vida e se dedicasse somente a ela. Às vezes uma mistura dos três.
Ele era um homem brilhante, conversar com ele era estimulante. Mas não desde que ele conheceu sua maravilhosa Clarice. Ele então ficou lento para entender, lento para raciocinar. Na raridade de ele entender aquilo que eu disse, ele respondia somente asneiras. Não sabia dizer como ainda não havia ocorrido algum incidente no elevador.
Eles se conheceram em uma festa chique ou algo similar. Uma das poucas coisas que eu sabia sobre essa Clarice, é que ela era uma mulher rica. Não que o Lamar não fosse digno dela, seja lá quem ela fosse, mas eu não podia parar de pensar no que um burocrata comum como ele podia oferecer à uma madame planetária que tinha tudo.
Em poucos dias eles já estavam namorando. Ele só a viu duas vezes, e na segunda já declararam namoro. A vida dele então girava completamente em torno dela. A mulher misteriosa era muito mais central do que seria saudável em qualquer relacionamento. E ainda pior, nenhum dos seus amigos havia a conhecido até então.
Ainda fiquei mais alguns minutos sentada no restaurante, mexendo na minha comida sem apetite. Meu amigo estava nas mãos de algum tipo de mulher sádica e cruel. Ela provavelmente queria manipulá-lo por esporte ou algo similarmente doentio.
Por isso decidi que ir encontrá-los no bar na noite seguinte, era a coisa mais importante que eu tinha para fazer. Alguém tinha que conhecer aquela mulher e sentir quem ela realmente era. Se ela não quisesse ser vista com ele, provavelmente sairia rápido, e o bobão ficaria lá magoado e com seu coração na mão. E nesse momento alguém teria que fazê-lo entender a realidade. Caso contrário, o jogo dela seria ainda mais profundo do que isso.
Então fui para casa, para pensar. Também para fazer a minha pequena parte como historiadora. Naquele dia em específico, meu trabalho era um artigo sobre a realidade dentro das naves de geração dos tempos antigos, no começo da Era Espacial.
Mas não pude me concentrar normalmente. Tudo me fazia pensar em como alguém importante para mim estava cego para a verdade, e portanto sairia machucado. E eu seria quem teria que cuidar dele depois.
Depois de toda aquela idiotice, eu deveria deixar ele sofrer sozinho. Mas não seria capaz de fazer isso com ele, não enquanto ainda fôssemos amigos.
No dia seguinte, pesquisei o dia todo. Nada muito incrível aí, mas quando a noite caiu sobre a cidade, coloquei a minha roupa mais reveladora e fui para o bar. A ideia por trás disso era ver se Clarice sentiria ciúmes como uma mulher humana normal, ou se ela ficaria indiferente, completamente confiante na sua manipulação. Qualquer que fosse o resultado do pequeno experimento, Lamar não perceberia, como todo homem, ele não notaria as sutilezas nos olhares das mulheres ao seu redor.
Desci do transporte semi-aéreo quase que diretamente na frente do Tio Gói – o nome do bar. O lugar era relativamente pequeno, só uma loja de dois andares em uma avenida secundária. Mas o público que bebia lá era leal. Eu estava mais ou menos entre esse público. Mais ou menos pois odiava sair, muito menos pagar mais caro por uma bebida que poderia ser facilmente entregue na minha casa. Porém como a maioria do nosso grupo de amigos se reunia ali, eu era obrigada a comparecer – como estava sendo naquela noite.
Ao entrar pela enorme fachada aberta, a mulher atrás do balcão do bar imediatamente me reconheceu e abriu um sorriso. Passei meus olhos ao redor do local e não vi ninguém conhecido, eles ainda não haviam chegado. Isso pois eu já estava atrasada, nem podia imaginar o quão atrasados eles estariam, se é que apareceriam.
Me sentei em uma das pequenas poltronas flutuantes no balcão. A mulher sorridente me serviu a minha bebida habitual – suco natural com vodka.
Notei que vários homens, e quase o mesmo número de mulheres, não puderam evitar me olhar com o canto de seus olhos. Aquilo era um ótimo indicador para o meu plano, se aquele pequeno vestido prateado chamava tanta atenção assim, Clarice não poderia evitar demonstrar ciúmes. Isso é, se ela realmente amasse Lamar.
Então eles finalmente apareceram. Primeiro veio Lamar, me levantei da minha poltrona para abraçá-lo, mas ele parou no meio do caminho e se virou sem ao menos me cumprimentar. Ele estava olhando para trás, como que preocupado com algo. O homem então andou novamente na direção da porta, como que puxado por sua coleira invisível.
Continuei lá de pé como uma idiota, mas não deixei que meu desgosto aparecesse no rosto, permaneci com meu belo sorriso cativante. Mas dei uma olhada na garçonete por trás do balcão – ela estava acompanhando tudo de fora, como uma estranha interessada, – e a expressão no seu rosto dizia tudo. “Isso não é um bom sinal”. Era isso que a cara magra dela dizia.
E finalmente a mítica Madame Clarice se fez presente. A mulher tinha pouco mais de um e sessenta, mas ela compensava com seu salto. O corpo cor de caramelo dela era como uma escultura criada pelo mais perfeccionista dos escultores. Seu rosto era o mais belo que eu já havia visto, até mesmo em meio a modelos e atrizes – o sorriso era completamente indescritível quanto ao efeito que provocava em meu coração. Seu cabelo preto e liso descia por cima de seus ombros nus como cataratas do mais perfeito tecido. Os olhos dela me distraíam do seu generoso decote, pois havia algo especial naqueles olhos. Por um momento ou dois, esqueci completamente da minha antipatia preconcebida por ela. Quase me apaixonei ali mesmo – e eu nem gosto de mulheres.
— Oi! — Disse encostando a minha bochecha na dela. Eu sentia que meu rosto fofo não tinha direito de encostar em tal beleza perfeita como era aquela mulher.
Ela se sentou e permaneceu com seu sorriso plácido e completamente apaixonante. Seus olhos estavam sempre em mim, até mesmo quando Lamar estava falando. Me senti em um outro mundo, um mundo só meu e dela. Eu queria odiá-la, mas ela estava me devorando com seus olhos!
Aquilo era definitivamente um tipo de sinal vermelho para o relacionamento deles. Se ela se portava assim com a melhor amiga do seu namorado – na presença dele, – nem imaginava como ela se portava na presença de desconhecidos. O meu amigo inevitavelmente estava sendo traído.
Mas eu não podia decifrar qual era o objetivo dela com ele. Lamar era um homem atraente, alto e escuro, com uma voz firme. Porém nada para se lembrar para sempre, e principalmente desde que aquele relacionamento abismal havia começado, ele parecia estar ficando mais magro e feio.
Ao fim da noite, eles me levaram até meu apartamento, e apesar de insistir em subir sozinha, Lamar quis subir comigo, para se despedir e conversar. Mas onde ele ia, ela estava logo atrás. A criatura perfeita, espremida dentro do minúsculo vestido preto, ficou no fim do corredor, ainda me olhando com seu olhar devasso e inapropriado.
— Então, muito obrigada pela carona. Boa noite querido. — Declarei, um tanto desconcertada e envergonhada.
— Calma lá Natália, vamos conversar. Depois de conhecer a Clarice, você ainda pensa aquelas coisas que me disse ontem? — Ele perguntou com um ar de quem não tinha nenhum receio sobre a minha resposta.
— Você realmente quer ter esta conversa aqui, agora, com ela me olhando? — Perguntei, tentando falar baixo para que ela não ouvisse.
— Eu não tenho segredos dela. Ela sabe tudo que você disse ontem, e não há motivo para que ela não escute agora também. — Lamar me informou, como se toda a nossa amizade dependesse daquilo.
— Olha, Lamar, quando você está com ela, você não é você mesmo. Desde que esse relacionamento começou, você mudou quem você é – e não para melhor. E te ver hoje pisando em ovos em volta dela, agindo como um robô de serviços, não me fez ter uma opinião mais favorável sobre essa situação. — Disse para ele, vendo o seu coração partir diante dos meus olhos, sabendo o estrago que minhas palavras estavam tendo naquela amizade. Mas não pude parar, pois eu tinha noção da importância daquilo – ou pelo menos eu achei que tinha. E vendo que não havia muito espaço para as coisas piorarem, resolvi dar o golpe de misericórdia. — E eu ainda tenho razões para crer que ela não seja totalmente fiel ao seu compromisso.
— Vá respirar vácuo Natália. — Lamar disse, se virando rapidamente e saindo.
Antes de fechar a porta do meu apartamento, ainda vi ele passando do lado dela, enquanto ela o envolveu com um dos seus braços e colocou sua mão dentro do seu bolso traseiro. Cada som do salto dela contra o chão corredor era mais uma pontada no meu peito. Me sentia como se tivesse jogado fora alguém que eu amava.
Mas eu realmente era tão culpada assim, ou era ela quem havia organizado tudo aquilo?
Naquela noite, fiquei deitada na minha cama sem ao menos remover o vestido apertado. Apenas fiquei lá chorando, olhando para o teto e sentindo minhas lágrimas quentes descendo pelas laterais do meu rosto, apenas para se depositarem nos meus ouvidos.
Mas também foi naquela noite, que decidi que era Clarice quem havia feito a cabeça dele daquela forma, que o havia colocado contra mim quando não havia motivo para haver conflito. Era ela quem estava manipulando-o por algum motivo desconhecido.
Eu iria fazer o meu melhor para descobrir as razões por trás dela. Alguém deveria salvar ele, e se ele mesmo não fosse essa pessoa, ao menos eu ainda poderia ser.
Não importava se ele queria ou não falar comigo, aquela mulher havia programado tudo de forma muito meticulosa para não ter uma razão escondida. E apesar da sua cara jovem, eu estava certa de que atrás daqueles olhos vivia uma malícia antiga.
No dia seguinte, durante minha pesquisa na central de arquivos da cidade, comecei a sonhar acordada. Todos os meus pensamentos me levavam de volta àquela mulher, àquele sorriso inabalável – lindo – e ao fato de que ela usou meu amigo como uma ferramenta no dia anterior. Na minha mente, quase pude ouvir sua voz meiga saindo da boca rústica de Lamar. A língua dele falou, mas as palavras eram dela.
E antes que eu pudesse me impedir, já estava abusando do meu certificado de pesquisadora, e estava pesquisando o nome dela no banco de dados central. Eu queria saber tudo que era possível sobre Clarice, coisas que não apareceriam em bancos de dados acessíveis para qualquer pessoa.
Era antiético? Era. Mas eu não iria parar só por conta disso. Principalmente depois que a minha curiosidade inquisidora me trouxe tantos frutos.
Aparentemente, a Madame Clarice era herdeira de uma enorme fortuna, assim como de uma luxuosa e icônica mansão no centro da cidade, remontando até os tempos coloniais, antes da independência planetária. Uma mansão herdada após a morte do seu marido, o último de uma linhagem antiga. Outras entradas contavam uma história ainda mais sórdida sobre o passado dela.
Uma série de boletins sobre pessoas desaparecidas, homens e mulheres quase que em uma proporção de um para um. Segundo os bancos de dados de segurança pública, familiares requisitaram a investigação dela no desaparecimento de um de seus entes queridos. Quando uma pessoa se muda para a casa dela, ela desaparece.
E isso não foi um caso isolado, nem ao menos dois, mas eram dezenas deles. O problema era que quando os investigadores iam até a casa da madame, a pessoa desaparecida estava lá, dizendo que cortara relações com a família. Eventualmente os investigadores pararam de dar ouvidos às acusações.
Os primeiros boletins vinham com depoimentos dos familiares e amigos, e eles descreviam exatamente o mesmo fenômeno que eu havia vivido apenas na noite anterior. Foi então que tentei compilar uma linha temporal das ações criminais movidas contra ela.
Fiquei chocada e tive que verificar a veracidade dos dados mais de uma vez. Eu não havia considerado olhar as datas antes, mas finalmente me dei conta de que o artigo sobre a morte do seu marido tinha mais de setenta anos de idade! Mas aquela mulher que eu conheci não tinha um dia acima de vinte e cinco.
Não tinha ideia do que fazer com aquela informação. Como era possível que por setenta anos, uma mulher estava desaparecendo pessoas e não sendo investigada por isso? Ou ainda mais fantástico, como ela mantinha aquela aparência?
Mesmo com o meu artigo histórico se atrasando por conta daquele pequeno projeto lateral, resolvi imediatamente correr até o serviço de Lamar e levar minhas conclusões até ele. Sendo elas frutos de uma pesquisa antiética ou não.
Um dos seus colegas me reconheceu e veio falar comigo na porta do escritório.
— Ele pediu um dia de folga hoje. Estamos atolados aqui, milhares de transportes vindos do interior, querendo mandar suas cargas para o espaço, e o Lamar ocupado com mudança. — O homem rotundo me disse enquanto tentava parar a tremedeira em sua mão.
— Ele está mudando? — Perguntei incrédula. Senti um calafrio intenso correr pela minha espinha e se acomodar no meu estômago.
— Eu achei que você sabia. É, ele vai morar com a namorada dele em uma mansão aí. A tal mulher é rica, você sabe quem é? — Ele perguntou, demonstrando um interesse de fofoca.
— Sim, ela é uma madame planetária. Bem chique e luxuosa, tudo dela custa mais do que o meu apartamento. — Respondi desdenhando.
— Nossa. Se eu não tivesse faltado naquela festa, poderia ser eu indo morar com uma madame planetária. — O homem sonhou acordado.
— De qualquer forma, tenho que ir. Obrigado por falar comigo. Boa sorte com os seus carregamentos. — Disse já saindo o mais rápido possível, ignorando os protestos do homem.
Fui para o meu apartamento correndo. Eu tinha que fazer alguma coisa, mas sozinha não seria capaz. Falar com Lamar naquele ponto não adiantaria nada, ele já estava hipnotizado por seja lá quem aquela mulher se passando pela Madame Clarice era.
Minha única chance era os investigadores, e eu sabia disso. Mas eu também sabia, que historicamente eles ignoravam acusações contra ela. Logo eu precisaria de algum tipo de prova de atividades nefastas antes de fazer a denúncia.
De volta na central de dados, resolvi acumular mais crimes. Eu estava determinada a invadir a mansão dela no fim de semana, vasculhar aquele lugar e encontrar algo que a ligasse aos desaparecimentos, e que claro, comprovasse que foram de fato desaparecimentos e não só pessoas que se mudaram e cortaram relações.
Para a minha sorte, a idade secular da mansão a dava a qualidade de histórica, algo que garantia uma planta do prédio acessível para oficiais da cidade. Eu não era uma oficial da cidade, mas como uma importante pesquisadora registrada, tinha uma credencial de acesso aos mesmos bancos de dados que eles.
A mansão era tão ridiculamente grande, que mais parecia um palácio, ou um edifício residencial. Centenas de pessoas poderiam viver confortavelmente ali. Ela foi construída por um dos líderes planetários iniciais, e desde então continuou na família, ao menos até a morte do marido de Clarice.
Decidi pesquisar sobre ele. Haviam surpreendentemente poucos dados sobre o homem. O falecido Dan Traeve era um explorador galáctico e que trouxe de volta para os museus, centenas de artefatos antigos e curiosidades biológicas. Mas ali dizia que pouco antes da sua morte, ele foi suspeito no desaparecimento misterioso de sua irmã mais nova, uma tal de Giovana Traeve.
Quando olhei os arquivos dela, quase caí da minha cadeira desconfortável. Aquela era Clarice! Porém a suposta desaparecida não tinha a beleza anatomicamente perfeita da mulher que conheci. Mas era ela, eu poderia jurar mil vezes diante dos Deuses Estelares que aquela era a mesma mulher. Mas como aquilo seria possível? Giovana desapareceu setenta anos antes de Lamar conhecê-la. E se aquela era a Clarice, quem era a esposa de Dan?
Foi difícil, mas por fim encontrei uma imagem pública do seu casamento. E não era a mesma mulher, a Clarice original era uma mulher alta e branca. Apesar de que o seu vestido era simplesmente celestial.
Mas foi pensando em roupas que percebi outro grande detalhe naquele quebra-cabeças. Na imagem tridimensional, Giovana estava usando apenas um terninho feminino, sem ao menos se preocupar com maquiagem. Pela aparência de todas as outras mulheres naquela imagem, aquilo definitivamente não era a moda na época. Logo a moça gostava daquele estilo e o usava com propósito e propriedade.
Se a namorada de Lamar era a Giovana, como ela havia mudado tão radicalmente de estilo? Não só isso, mas foi para um estilo extravagante e chamativo, que era idêntico ao da verdadeira Clarice. Entretanto, nada daquilo tinha importância, pois aquelas duas – três – mulheres não podiam ser a mesma pessoa. Giovana não podia ter passado setenta anos com a mesma aparência, da mesma forma que Clarice não pode ter se transformado em outra pessoa.
Ou será que ela podia? Quem era Clarice antes de Dan Traeve? Fiz o meu melhor para encontrar algo sobre a sua antiga vida, mas o máximo que eu pude encontrar foi a menção de que ela voltou com Dan de uma de suas expedições interestelares. Qualquer outro arquivo deveria estar no seu planeta de origem, o qual inconvenientemente não era mencionado em lugar algum do artigo midiático.
Conforme a luz ia diminuindo, mais e mais eu pensava sinceramente na possibilidade de estar enlouquecendo. Eu estava procurando explicações para como uma mulher havia se transformado em alguém de estatura, cor e formato diferentes. Para como ela havia passado setenta anos mantendo sua aparência jovial. Nada daquilo era possível, nem mesmo com os melhores tratamentos contra o envelhecimento.
Aquela tinha que ser uma descendente de Giovana Traeve, a qual tomou de volta aquilo que era seu direito ancestral. Mas por qual motivo ela não só assumiria a identidade da Madame Clarice, mas também continuaria o seu legado de desaparecimento de namorados?
Todas as suspeitas e especulações eram imateriais até que eu entrasse na mansão – palácio – e obtivesse minhas respostas. Por isso fui para casa com a minha cabeça cheia. Nem mesmo percebi quando o transporte parou na porta do meu apartamento.
Não tinha sentido, eu estava obcecada. Desde que ela começou a olhar no fundo dos meus olhos, que eu estava obcecada por ela, só não da mesma forma que Lamar era obcecado. Eu odiava ela e faria de tudo para destruí-la. Inclusive enlouquecer.
O restante da semana se arrastou impossivelmente. Nada mais podia fazer além de teorizar como uma louca completa. Normalmente, sempre fui reconhecida como uma mulher prática, mas os fatos que eu havia descoberto sobre a amante do meu ex-melhor amigo, estavam me deixando paranoica. Eu estava acordando no meio da noite, imaginando que Clarice havia vindo para me levar.
Inúmeras vezes, imaginei como estava sendo tola, paranoica, louca, obsessiva. Mais de uma vez, desisti de invadir a mansão, como qualquer pessoa com sua sanidade em bom estado teria feito.
De nada me serviria cometer um crime daquele nível, usando como base, apenas o fato de que uma pessoa pela qual tinha muita consideração me tratou de forma horrível – e depois, eu de coração partido, procurei coisas às quais não eram da minha conta, e acabei por encontrar uma série de coincidências improváveis.
Mas o grande dia chegou, aquele que escolhi como o mais provável para eles estarem em um encontro até mais tarde. Então coloquei o modelito que comprei exclusivamente para aquela atividade ilegal, e segui para o centro da cidade.
As ruas estavam alegres com comemorações, pessoas apaixonadas andando de mãos dadas, pessoas intoxicadas cantando e abraçando umas às outras. Era um fim de semana comum por ali, se não fosse pelo fato de que eu estava me dirigindo até o limiar de um buraco negro proverbial.
A mansão ocupava toda uma quadra da cidade, com centenas de janelas, um belíssimo telhado e desenhos intrincados nas paredes exteriores – aquela era realmente uma obra de arte em forma de casa. Rodeei a residência até encontrar o local isolado que eu poderia escalar. Eu havia estudado incansavelmente a planta daquele local, e sabia que depois daquele bloco de construção, estava um pequeno pátio interno, talvez um jardim depois de tantos anos.
A escalada foi terrível, já que eu não tinha costume algum disso. Mas a determinação e a obsessão me motivaram a continuar. Depois de muita dor e sofrimento por parte dos meus braços e do meu peito, atingi o pequeno pátio interno. Ali pude ver quatro portas de vidro me cercando – novamente, eu sabia qual era o melhor caminho para o escritório principal da residência.
Não levei em consideração a força do vidro, ou ao menos se haveria um alarme ou não. O vidro não quebrou, tudo que eu tentei não o fez mudar de ideia. Mas em um momento de desespero completo, tentei abrir a porta de forma normal, e ela abriu – a porta simplesmente não estava trancada.
Ao entrar na casa, movendo-me pelo interior escuro, me senti como uma ladra, suja e imoral. Mas isso não importava naquela situação, eu só queria justiça e respostas. O interior estava completamente abarrotado de coisas luxuosas e claramente caras, muitas delas bem mais modernas que a época de Dan Traeve e sua irmã. Clarice claramente esteve ocupada com suas compras, ou talvez com as fortunas roubadas de suas vítimas.
A porta do escritório estava igualmente destrancada. Adentrando, pude ver que não havia nada ali, não só nada de interesse, mas não havia nada dentro do cômodo. Ele era o único cômodo sem mobília que eu havia visto até aquele momento. E isso em si era de interesse.
Examinando calmamente as paredes e o chão, notei que eles haviam sido limpos recentemente, o cheiro de produtos químicos usados em limpeza pesada era nítido. Aquele lugar havia sido esterilizado. Poderia ela ter desconfiado da minha visita?
Invés de correr e sair dali de imediato, resolvi ir até o quarto principal. Subindo as escadas, senti um medo existencial de tal grau previamente desconhecido por mim. Eu não temia ser encontrada, não pelas autoridades, mas temia que ela me encontrasse ali.
A porta do quarto havia sido deixada aberta, portanto entrei me esgueirando e me abraçando às sombras. A cama era simples o suficiente, e não parecia ter sido usada nunca. O armário dentro da suíte era do tamanho do meu apartamento, e estava completamente lotado das roupas mais belas e finas que estavam disponíveis naquele sistema.
No fim do corredor de roupas e sapatos, estava de pé um tipo de tubo criogênico, ou algo semelhante. Me aproximei e limpei os cristais de gelo que estavam no vidro, obstruindo minha visão. Dentro do objeto, disposta em um cabide como um macacão, estava a pele de uma pessoa, e aquela pele era de Clarice. Ou seria de Giovana?
Finalmente o bom senso entrou na morada da minha mente e eu corri dali. Mas o problema foi exatamente o fato de que corri ao invés de me esgueirar, como vinha fazendo desde que entrei no palácio dos horrores. No pé da escada estava parado um homem no escuro, ele me observava sombriamente. Naquele momento, não quis dizer nada, apenas correr na direção contrária.
Entrei em um quarto para me esconder. Nem ao menos olhei ao redor, só entrei fechei a porta, e fiquei encostada na mesma, ouvindo os passos pesados do homem sombrio que me perseguia.
Ouvi os passos passarem direto pela porta, então pude relaxar. Fechei os olhos e virei de costas para a porta, pensando em como poderia sair dali com minha vida. Quando finalmente abri os olhos, percebi que pequenas luzes adornavam todo o interior do quarto escuro.
Ao acender minha lanterna, vi que aquele lugar estava repleto de tubos criogênicos como aquele que eu havia visto no quarto da triplamente amaldiçoada Clarice. Meu desejo por evidências não era tão facilmente apaziguado, e por isso, olhei dentro de um dos tubos. Olhando de volta para mim, estava a pele de um homem, colocada em um cabide, exatamente da mesma forma como a de Giovana estava.
Aquilo foi demais para mim, eu saí correndo dali, e dei de cara com Lamar parado dois metros na frente da porta. Ele era o homem sombrio que estava me seguindo.
— Lamar, ali dentro tem um monte de tubos criogênicos com peles humanas dentro! — Exclamei em prantos.
— Você não deveria estar aqui. — Foi tudo que ele me respondeu.
— Eu não deveria estar aqui? Você também não deveria, vamos sair daqui antes que aquele seja o nosso fim! — Gritei enquanto tentava me remover dos braços dele, mas ele me segurou violentamente pelo braço.
— A Madame vai querer te ver. Você então será uma das roupas dela. — Lamar me informou de forma apática, sem ao menos olhar na minha cara.
O homem me arrastou pelos braços escadaria abaixo, mesmo enquanto eu gritava por socorro e me debatia com o vigor acumulado por uma vida inteira de sedentarismo. Sua força era grande, até mesmo para o seu tamanho, ele parecia estar drogado ou sob a influência de alguma outra força externa. Não era difícil para mim teorizar que aquela força era a hipnose da Madame Clarice, ou seja lá quem fosse que estava dentro daquelas peles.
Meus olhos estavam tão cobertos pela procissão infinita de lágrimas, que não pude ver exatamente o caminho por onde ele me levou. Apenas notei que o nosso destino final foi uma sala de visitas, com várias poltronas finas e estantes com pequenas esculturas.
Pela porta oposta, uma criatura obscena entrou. A monstruosidade tinha seis pares de membros, e quanto mais eu olhava, mais a sua forma parecia diferente. Não era possível obter apenas uma visão, era como se aquele horror fosse vários outros simultaneamente. A sua forma metamórfica não parecia ser sólida, ao mesmo tempo em que não parecia ser líquida. Ela certamente não possuía ossos, não da forma que se movia.
Lamar me forçou a sentar em uma das poltronas. Ele me segurou rigidamente pelo cabelo e me fez encarar a forma de sua madame.
— O que você vai fazer comigo? — Consegui dizer em meio ao meu choro.
— Eu vou me alimentar do seu intelecto, e depois vou me tornar você, bobinha. — A besta disforme disse, sua voz perfeitamente inocente e feminina. Aquela era a voz apaixonante da Madame Clarice.
Sem nenhum tipo de troca verbal, ela aparentemente ordenou que Lamar nos deixasse. Ele me largou e deu alguns passos para o lado, permitindo que ela pudesse me envolver em sua massa transparente de órgãos, veias e braços.
Vi minha chance e a aproveitei. Virei a cadeira de uma vez e a acertei com ela. Lamar não tentou me impedir, ele apenas tentou acudir a sua amada. Clarice – ou a coisa que usava esse nome – não ficou surpresa por um momento a mais do que era absolutamente inevitável. Com ódio, ela tirou o homem de cima de si.
Desesperada, comecei a pegar tudo que estava ao alcance do meu braço e jogar nela. Pratos, garfos, uma jarra d’água, um cartão – nada parava a madame do Inferno Cósmico. Ela escalou por cima da mesa com a facilidade que só uma criatura amorfa podia sonhar em ter. Peguei uma garrafa de bebida alcóolica que estava sobre um carrinho de bebidas largado no canto da sala.
Por um momento ela exitou, e isso foi tudo que precisei para jogar aquela garrafa nela. Quando aquilo bateu no peito dela, a garrafa se estilhaçou, e o seu conteúdo alcoólico se espalhou por cima da criatura infernal, fazendo com que ela convulsionasse violentamente. Clarice gritava simultaneamente com a voz de todas as suas vítimas, sua forma mudava mais rápido do que os batimentos do meu coração afogado em adrenalina.
Enquanto a criatura exclamava em sofrimento indescritível, Lamar entrou em desespero e tentou colocar de volta os pedaços semi-líquidos da sua amada, que estava derretendo-se em contato com o álcool. Apenas corri, ouvindo aqueles gritos desumanos, o choro e as súplicas desesperadas do meu ex-amigo.
Saí pela porta da frente e corri ensandecida na rua, em direção à central de segurança pública mais próxima. Lá contei toda a minha história ao investigador-chefe. Ele não acreditou em mim, e queria me prender ali mesmo pelos crimes que eu havia confessado. Porém, ele ficou preocupado com a integridade física da belíssima Madame Clarice, a qual ele conhecia pessoalmente. Por isso ele foi até a mansão.
Eu não fui permitida como acompanhante do grupo de investigadores, mas quando eles me soltaram, pude ver o horror no olhar de cada um deles. O investigador-chefe apenas me disse que Lamar havia cometido suicídio sem a sua amada, sua dependência emocional havia levado-o ao seu limite.
Nada daquilo chegou à mídia, mas em alguns meses, a mansão foi vendida, e o nome de Madame Clarice nunca mais foi dito em nenhum dos altos círculos sociais.



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