Sob o Zigurate
Enquanto descia pela antiga escadaria apertada, só podia pensar em como havia sido fácil escapar – um pouco me vangloriando para mim mesmo. Nenhum dos tolos tinha me visto sair, e agora, por fim, toda a glória seria minha!
A equipe nunca foi uma equipe, e sim um aglomerado de pessoas que tentavam arrancar os créditos de descobertas uns dos outros. Eu não teria que me rebaixar a me esgueirar como um tipo de ladrão de túmulos, se a insuportável Doutora Gardênia não tivesse roubado todo o crédito por encontrar a câmara secreta.
Só pensar na discussão de mais cedo, já me deixava irritado E essa minha distração quase me fez escorregar na escadaria escura, a qual parecia descer até as profundezas de um buraco negro.
Depois que o meu equipamento de raios cósmicos descobriu a parede falsa, ela quis reivindicar crédito, como se não fosse o meu equipamento, o qual havia sido colocado e configurado por mim. Eu coloquei a peça lá, e esperei enquanto ele calibrava, pois acreditava que aquela arquitetura apontava para uma parede falsa. A máquina apagou a tela, e fui correndo buscar auxílio técnico, mas assim que voltei, ela estava funcionando perfeitamente, e para minha surpresa – e ira, – a doutora estava sentada na minha cadeira, operando a minha máquina, clamando crédito pela minha descoberta.
Cruzei um tipo estranho de átrio e encontrei a obscura porta que levava até a antecâmara subterrânea. Ainda com raiva e pensando nos acontecimentos de mais cedo naquele dia.
Então, eu expliquei cuidadosamente para eles, que tinha tido a suspeita, colocado meu equipamento ali, calibrado ele e o apontado para a parede, enquanto aqueles tolos estavam olhando para desenhos em paredes. Mas ambos Gardênia e Tien concordavam que se eu tinha saído durante a descoberta, então não a tinha feito, e nem mesmo participado dela.
Isso foi a gota d’água, perdi minha paciência e a chamei do que ela realmente era, uma ladra acadêmica do pior tipo. Como um verdadeiro explorador, eu havia colocado meu coração e todo o empenho do meu massivo intelecto na exploração dos segredos internos daquele misterioso zigurate negro. E o que ela colocou nisso? Nada, ela só apareceu ali e foi declarada como líder do grupo de exploração arqueológica.
Finalmente, após passar por tantas passagens antigas, tantas escadarias e corredores labirínticos, eu estava na antecâmara. Ela era grande e alta, parecendo ser a finalidade de toda a estrutura, como para abrigar um altar. Apesar de que o desenho arquitetônico geral seja o de um zigurate – algo que implicaria no mais importante estar no topo, – a sala que era a mais impressionante era aquela, o grande teatro subterrâneo.
Para chegar ali, eu tinha que subir pela fachada da grande pirâmide de terraças negras, depois acessar o salão de entradas no topo, descer por uma série de escadarias apertadas e de rocha tão negra quanto o resto da estrutura. Então tendo descido quase que uma vez e meia a altura da estrutura externa, era necessário passar por uma série de câmaras suportadas por pilares e com o teto côncavo. Por fim, depois do átrio no fundo da estrutura, obtive acesso ao corredor que levava até a antecâmara espetacularmente aberta.
Tudo isso pode parecer incrível por si só, mas não é nada quando comparado com o potencial daquilo que estava escondido atrás da parede falsa e do enorme altar que ficava no fundo daquela incrível câmara. A sala secreta era pequena quando comparada com sua anterior, mas eu instintivamente, e intelectualmente, sabia que todo o ponto daquela estrutura estava centrada ali, não poderia ser nada mais.
Não liguei nenhuma das enormes luzes que estavam instaladas ali, pois eu sabia que qualquer uso de energia iria ativar alarmes na nave exploratória, e isso iria trazer o resto da “equipe” até mim, antes que eu estivesse pronto para esfregar minhas descobertas nos seus narizes aristocráticos. Eu tinha comigo minha ferramenta de corte portátil, e como ela tinha uma bateria interna, não iria puxar energia do reator da nave.
No breu absoluto, me ajoelhei desajeitadamente sobre os mosaicos ancestrais do chão e usei minha ferramenta para cortar uma porta na parede falsa. Muitos diriam que minhas ações eram um ataque contra a cultura que construiu aquilo, mas um modelo digital em três dimensões já havia sido feito, o mais importante ali era que o crédito da descoberta ficasse com aquele que o merecia, e não com ladrões incapacitados.
De qualquer forma, sobre os pontos anteriores daquela expedição, a nave exploratória havia encontrado uma estrutura claramente artificial em um mundo sem vida. Isso já era estranho por si só, mas o fato adicional de que aquele mundo não possuía atmosfera alguma era algo ainda mais excitante para a comunidade arqueológica.
Eu era o xenoarqueólogo residente da expedição, mas quando minha descoberta foi divulgada, rapidamente os outros chegaram, dizendo que eu não tinha competência para realizar aquela escavação, e subsequente exploração, sozinho. E isso foi só o começo dos problemas e dos ataques contra minhas habilidades superiores. Logo eles começaram a roubar minhas notas e adicioná-las aos seus relatórios.
Então, depois do roubo de descoberta que aconteceu com o equipamento de raios cósmicos, fui forçado a tomar medidas drásticas, para proteger e assegurar o procedimento correto, e mais importantemente, para crescer a minha reputação. Por muitas semanas, fui subordinado àquela ladra de crédito incompetente, e por muito tempo, aceitei que os outros passassem por cima de mim. Mas não mais.
Durante o período de sono da maioria da tripulação, coloquei o meu traje de vácuo e cobrei alguns favores com os tripulantes que estavam em serviço naquela noite. Então saí no silêncio sem atmosfera e fiz meu tortuoso caminho até o enigmático zigurate negro, que se erguia imponente na noite, coroado por centenas de milhares de estrelas. Aquela coisa parecia sustentar o arco do disco galáctico.
Então, dentro da enorme câmara escura, abri o meu caminho através de rochas negras que estavam ali havia incontáveis eras. Na verdade, fazia parte do meu trabalho saber a idade daquilo, e portanto eu sabia que as “incontáveis eras”, eram na verdade algo entre cem, e cento e cinco mil anos. Isso para a parede que eu estava tão entusiasmadamente destruindo, a estrutura externa tinha entre cento e cinquenta, e cento e cinquenta e cinco mil anos.
As catacumbas certamente foram construídas após a compleição do templo, mas aquela parede era mais nova do que todo o resto, independentemente de todas as incríveis diferenças de idades entre as salas. A parede era no mínimo cinco mil anos mais recente do que todo o resto. Algo estava escondido ali, e eu seria aquele que iria encontrá-lo.
A parede em si tinha alguns desenhos, mas eles eram abstratos e não representavam criaturas ou cenas – ao menos da forma em que nós humanos entenderíamos. Apesar da minha atitude vândala, ainda me certifiquei de cortar minha passagem em um canto onde não haviam muitos detalhes para destruir.
No topo do mosaico, centralizada, estava uma coleção de símbolos que obviamente eram uma escrita. Alguns daqueles caracteres eu já havia visto antes, naquele mesmo zigurate, mas nosso algoritmo ainda estava trabalhando num códex para tradução. Então capturei uma imagem, e a cópia do algoritmo rodando dentro do meu traje pessoal, começou seu árduo processo de tradução.
Ao cortar uma porta – um tanto torta – para mim mesmo, fui capaz de finalmente passar para a câmara secreta, aquela que havia sido selada antes do presumido abandono do planeta. Minhas lanternas iluminavam furiosamente aquele interior menor, e o que elas mostravam não me deixava feliz. Tudo que eu via ali era uma parede espelhada, flanqueada por duas enormes estátuas metálicas. Havia um pilar negro caído ao longo da da sala, muito como uma árvore caída em uma floresta.
As estátuas representavam criaturas perfeitamente repugnantes. O seu tronco era como o meu, porém alongado, e de aparente fluidez de movimento. A criatura dispunha de quatro braços, os quais estavam segurando o espelho gigante. No lugar de suas pernas, estavam três caudas serpentinas, talvez aquáticas, certamente eram flagelos. Suas cabeças eram pequenas, mas sem nenhum vestígio de pescoço, apenas um pequeno domo perdido nos largos ombros metálicos da criatura.
Olhei de um lado para o outro, certo de que eu não poderia ter errado sobre minha teoria. Não era possível que aquela sala não continha algo secreto o bastante para que valesse a pena tapá-la e depois abandonar o planeta inteiro.
Então eu vi, diante de mim, o espelho refletia toda a sala, e eu era apenas um clarão de reflexão das lanternas – ou era isso que eu pensava inicialmente. Em uma examinação mais próxima da reflexão, vi que ela não era reflexão alguma! O pilar caído estava de pé, a parede que escondia a sala não estava lá, e o mais importante, a minha suposta reflexão não tinha pernas. Aquilo que eu via era só o clarão da luz refletido pela superfície reflexiva diante de mim.
E apesar de como me sentia, fui até o vidro. Me sentia apreensivo e ainda olhava para os dois lados, como alguém que esperava por uma armadilha ou para ser pego pela Comandante Danuzze. Nisso, reparei em um reflexo dos olhos de uma das estátuas, e aquela pequena lente reflexiva me dava a impressão de estar me seguindo ao longo da sala, atenta para se certificar de que eu iria me aproximar do seu espelho secreto.
Coloquei uma de minhas mãos enluvadas sobre a superfície reflexiva e até onde pude ver, nada havia acontecido. Nenhuma sala secreta havia se aberto na superfície, e para o meu bem, tampouco um buraco no chão havia se aberto. Me virei para descer dos dois degraus que havia escalado, e foi quando percebi que o pilar caído não estava mais no chão. Ele estava novamente na parede, onde ele pertencia. Rapidamente me virei e apontei minhas luzes para o chão diante da parede reflexiva, e pude ver que o pilar agora estava lá, do outro lado do espelho. Eu havia sido transportado de um lado para o outro daquela reflexão assimétrica.
Atrás de mim, a parede falsa não existia, apenas uma passagem para um corredor longo. Olhando ao redor da sala, pude ver que as exatas mesmas duas estátuas estavam lá, com os exatos olhos roxos que pareciam me seguir a partir das suas cabeças de domo cromadas. Elas estavam da mesma forma, segurando o espelho com o poder combinado dos dois quartetos de braços.
Saindo da sala, percebi que aquele corredor era incrivelmente mais longo que a antecâmara que tanto havia me impressionado antes. O chão não exibia nenhum mosaico, ele era completamente negro e contínuo, com a largura total da sala do espelho. Em ambos os lados do corredor, existiam pilares brancos, cilíndricos e com topos ornamentados por formas que me pareciam abstratas.
A euforia da descoberta dominava a minha mente e meu coração, permeando todo meu corpo com uma deliciosa adrenalina. Todo o crédito por encontrar aquele colossal complexo subterrâneo seria meu, toda a glória seria minha. Estaria em todas as notícias em todos os sistemas humanos, um zigurate negro solitário sobre um planeta deserto e cinza, e sob ele, os restos ainda preservados de uma antiga civilização. E eu poderia nomeá-los, escrever todos os volumes sobre o assunto, me tornar uma referência interestelar. E tudo isso teria seu começo ali, contanto que eu encontrasse algo mais do que um corredor.
Caminhei naquele lugar sem fim até que a parede de um dos lados se alargou em uma câmara lateral, e ela subia com degraus para um espaço ainda maior acima. Cuidadosamente, escalei aquela larga escadaria negra, levando-me até um compartimento gigante, no mínimo sete vezes maior que a câmara ritualística do zigurate.
Aquilo era além de incrível, era absurdo, inacreditável. Como seria possível que algo com um teto tão inconcebivelmente alto estivesse escondido sob aquela plácida planície onde se encontrava o zigurate? Os feixes das minhas lanternas mal alcançavam o teto, e quando o faziam, era na forma de diminutos círculos fracos.
Olhando ao meu redor, pude ver que aquilo era um tipo de salão, completamente desprovido de qualquer tipo de mobília ou estruturas de apoio, somente o comprimento e um teto curvo a perder de vista na imensidão obscura. Me aproximei de uma das paredes – a mais próxima de mim – e observei que ali estavam mais daquelas estátuas metálicas, dispostas em alcovas, as quais eram espaçadas de forma simétrica e consistente. As poses das figuras eram um tanto diferentes, pois ao invés de segurar algo, eles estavam apenas em guarda, como que observando tudo que se passava no salão.
Continuei minha incrível caminhada pelo escuro sem fim. Com minhas luzes somente iluminando o chão alguns metros na minha frente, segui caminho ao longo daquele edifício titânico, até que por fim atingi uma parede paralela à outra que eu havia previamente visitado.
Eu imaginava que o comprimento da câmara era muito maior que sua largura, portanto após atingir um fim paralelo, tentei encontrar a parede diretamente oposta àquela com as estátuas. E dessa forma a encontrei, com muito menos caminhada do que foi necessária para a parede sem estátuas, provando que aquela caverna escura era um tipo de retângulo muito longo – ao menos para minhas pequenas pernas humanas.
Ao longo da parede curta – como passei a pensar sobre ela, – encontrei várias indentações, um tanto diferente das alcovas da parede ornamentada. Elas eram rasas e pouco tiravam da qualidade lisa da estrutura. Mas em um ponto que, apesar de eu não poder ver o conjunto completo, me parecia o centro, me deparei com uma enorme porta. Enorme não é um adjetivo correto, eu deveria chamá-la de titânica, colossal, imensa…
A ação mais prudente da minha parte, teria sido voltar naquele momento, mas eu sabia que aquele salão vazio não era grande coisa, não quando atrás daquela porta eu poderia encontrar uma outra câmara, uma que poderia conter artefatos, ou até mesmo espécimes mumificados, ou preservados de alguma outra forma pelo vácuo. Eu tinha que continuar, era meu dever e minha única jogada continuar, eu deveria impossivelmente abrir passagem e prosseguir. E imaginando que aquele salão inconcebível era apenas uma antecâmara, me coloquei a pensar sobre como eu faria aquilo.
Eu poderia cortá-la com minha ferramenta da mesma forma que havia feito com a parede anterior. Mas a arquitetura ali era totalmente diferente, não só pelos desenhos, mas também pelo gigantismo absurdo. O zigurate tinha passagens apertadas, salas escondidas, átrios grandes somente para a percepção humana. Mas aquilo ali, aquilo era simplesmente uma câmara do tamanho de uma nave, duas vezes mais alta do que uma. E vazia.
Frustrado, não medi minha fúria e simplesmente empurrei a porta dupla no meio de sua união, como se a força do meu frágil e patético corpo fosse fazer alguma diferença contra aquela mãe de todas as portas. E para o meu total e incompreensível espanto, as portas se abriram.
Dei alguns passos para frente, ainda sem fôlego pelo que tinha acontecido, e foi quando eu vi que o teto do novo espaço estava cravejado de coisas brilhantes. Eu nem mesmo havia apontado minhas lanternas para eles, e mesmo assim seu brilho estava evidente para meus olhos.
Caminhei para dentro desse espaço, e minhas luzes não encontravam paredes ou teto, elas simplesmente se perdiam. Com um tempo pude ver que diante de mim se erguia um edifício com uma porta similar a que eu havia aberto, mas isso era impossível, não poderia haver um espaço tão grande sob aquela planície cinzenta, não capaz de acomodar dois ou mais salões como aqueles.
Foi nesse ponto que minha mente começou a fazer sentido do que aqueles objetos brilhantes poderiam ser: eles eram estrelas e eu estava do lado de fora. Mas eu não conseguia ver o disco galáctico que dividia o céu. Nem mesmo podia ver uma das constelações que viviam na janela da minha cabine pelas últimas semanas. Tudo estava errado naquele céu, principalmente na quantidade e na disposição das estrelas.
Depois de desligar as lanternas e ouvir somente minha respiração e os batimentos do meu coração acelerado, analisei corretamente aquelas estrelas, aqueles objetos brilhantes. Eu não estava dentro de uma caverna ou na superfície do planeta. Eu nem mesmo estava próximo do centro galáctico. Era possível que eu estivesse na beirada, ou até mesmo fora da galáxia. Aquele lugar era em espaço intergaláctico, e aquelas coisas no céu eram galáxias!
Eu nunca seria resgatado ali, então imediatamente me virei e corri de volta para o meu salão de entrada. Minha mente me dizia que eu precisava chegar no espelho e retornar ao zigurate o mais rápido possível. Corri o mais rápido que minhas pequenas pernas humanas podiam me levar com relação àquela grandiosidade cósmica que então me cercava.
Ao chegar perto do prédio, subitamente, como no estalar de dedos, as estruturas começaram a brilhar, e meus pequenos olhos puderam ver tudo. Eu estava em uma cidade inconcebível, e o meu setor parecia permeado por salões como aquele. Não havia tempo para esperar, minha presença tinha sido notada, e eu deveria escapar.
Na porta do meu salão, estavam duas das estátuas, paradas como sempre estiveram, porém agora bloqueando minha passagem. Elas haviam se movido! Meu coração afundou até meu estômago e os pelos da minha nuca se levantaram como nunca antes. O perigo era iminente e a morte uma possibilidade.
Me virei para buscar esconderijo em meio às criaturas metálicas, mas havia mais delas, se movendo grotescamente sobre seus flagelos cromados. Eles me cercaram e tudo que eu podia fazer era apontar lanternas, idioticamente, para suas pequenas caras.
Ao contrário do que eu esperava, eles não me mataram. Uma das bestas idênticas simplesmente me pegou em seu colo e começou a me carregar, como o objeto involuntário de uma procissão diabólica.
Passamos por incontáveis avenidas pavimentadas com a mesma pedra negra, e apesar de estar violentamente – e futilmente – me debatendo contra meu captor, ainda pude ver que estávamos subindo um tipo de ladeira, e que no topo dela, quilômetros à frente, se erguia um novo zigurate. Mas não como aquele que eu entrei originalmente, o zigurate que coroava aquela cidade silenciosa era como uma montanha preparada para esmagar o próprio céu.
Subimos seus infinitos degraus, e da primeira das terraças, consegui ver a cidade como um todo, e aquilo que eu via me assustava até o fundo da minha alma não-existente. Não se tratava de um planeta, mas sim de um asteroide negro esculpido para se tornar aquela perversidade simétrica à qual eu tão humanamente me referia como cidade.
Eu não podia nem começar a imaginar de onde estava vindo aquela gravidade igual ou imperceptivelmente semelhante a do planeta, mas se um espelho havia me transportado inconcebíveis parsecs para fora da galáxia, eu não estava prestes a questionar a tecnologia daquelas criaturas.
Portas redondas se partiram para nossa entrada, e fui levado para dentro da cúpula que residia no topo da mais alta das terraças. Dentro dela, a iluminação sem fonte era da mesma intensidade que aquela do lado de fora, eu podia ver tudo ali, captar cada detalhe. Eu estava sendo carregado ao longo de um caminho central, pavimentado de rocha negra, em ambos os lados estavam chãos espelhados, e no fim do caminho existia um tipo de altar.
Por entre os pilares brancos que decoravam as paredes daquele lugar, surgiu uma criatura completamente diferente dos seres que me carregavam. Ela não era grande, não para combinar com a escala dos edifícios que eu havia visto. Aquele monstro era só um pouco maior do que eu, talvez dois metros e trinta.
O ser metálico – provavelmente um autômato – que me carregava, me abaixou para que a outra criatura pudesse me inspecionar. Ele me segurava firmemente pelos meus braços. Com ambos os pés, tentei chutar o horror diante de mim, mas ele estava longe. Fui forçado a fitá-lo.
A primeira e mais óbvia coisa que notei, foi que aquela criatura não dispunha de uma cabeça. Seu torso se parecia com o humano, mas só parecia, pois era quase reptiliano. Ele tinha dois braços longos e finos como gravetos, terminando em pequenas mãos com seis longos dedos – distribuídos simetricamente em um círculo. Suas pernas estavam cobertas pelas vestes que ele usava, mas mesmo assim, vi pequenas garras que se seguravam no chão – oito delas. Por fim ele abriu seu robe no centro, e ali, no meio do seu terrível e inesquecível peito, havia uma boca assemelhando-se à de um tubarão terrano.
Minha pressão caiu tanto que eu quase desmaiei, mas o que veio em seguida me manteve acordado. Ele começou a apontar algumas máquinas para mim, e minha cabeça começou a doer de forma que nunca havia doído antes. A partir daquele momento, eu podia me lembrar de cenas que nunca havia visto, ter orgulho de coisas que nunca havia feito e meu medo foi transformado em adoração.
O abissal não iria me machucar, o abissal era um ser superior e nada tinha a ganhar em me torturar. O sumo-sacerdote iria me mandar de volta, pois tinha visto a verdade. Ele era bom, e a raça humana deveria adorá-lo por quem ele era, ele e todo o seu povo. Nós deveríamos dar-lhes um lar entre nossas estrelas. Nós não somos dignos de seus ensinamentos, mas tínhamos que fazer o nosso melhor para recebê-los.
Fui carregado de volta até o espelho, e durante todo o caminho, me senti em paz. Alguém tão indigno quanto eu, tinha ficado na presença do sumo-sacerdote abissal, e eu era o encarregado de levar seus ensinamentos de volta ao meu povo.
Enquanto nós descíamos o corredor dos pilares brancos, meu traje me alertou que a tradução estava completa. Minha natureza curiosa me compeliu a lê-la. Os símbolos diziam: “o mal eterno dorme sob o zigurate”. Mas aquilo era bobagem, então deletei o arquivo.



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