A Coisa no Poço
A primeira coisa que percebi quando desci do transporte aéreo, foi que a atmosfera da vila era – assim como de muitas outras que eu visitei em minha carreira – uma de desolação e medo.
As ruas não tinham pavimentação, exceto a avenida principal que cortava o centro do agrupamento de prédios. Ela era pavimentada com grandes pedras hexagonais encaixadas umas nas outras. As pessoas nos olhavam com um tanto de receio, na verdade havia um pouco mais de hostilidade em seus olhares. Nós não éramos bem-vindos ali.
Logo atrás de mim, desceu minha parceira na produção do nosso programa, Beatriz carregava todo o equipamento de gravação. Enquanto eu carregava toda nossa bagagem pessoal.
O vento da decolagem do transporte, levantou uma enorme quantidade de poeira, colocando-nos dentro de uma nuvem vermelha, destruindo qualquer chance que nossa aparência tinha naquele dia. As tranças do meu cabelo ficaram impregnadas pela poeira vermelha daquela “zona de pouso”, enquanto o cabelo curto e molhado de Beatriz se tornou como lama sobre sua cabeça.
— Bela localização. — Ela disse entre tosses.
— Todas as nossas localizações são incríveis. — Respondi-a, batendo na minha calça previamente branca.
— É seu trabalho reclamar com o Ahmed sobre essas condições. — Beatriz continuou reclamando.
Ela tentava carregar todo o equipamento – três maletas – usando apenas duas mãos, enquanto eu carregava quatro sacolas de tecido em minhas duas mãos. As alças já estavam queimando meus dedos com seu peso.
— Eu já reclamei várias vezes, e você sabe disso, mas ele é o produtor, não é o trabalho dele ouvir minhas reclamações. — Ela fez como se fosse retrucar. — Não segundo ele. — Adicionei rapidamente, respondendo-a antes mesmo que dissesse algo.
Caminhamos naturalmente através da avenida pavimentada pelas pedras hexagonais cimentícias. Todos nos observavam, como se fossemos o ponto alto daquele dia. Como se fossemos o evento mais importante do mês. E isso me dizia muito sobre o trabalho que faríamos ali.
O único hotel da cidade era perfeitamente óbvio, devido a sua enorme placa vertical escrita “HOTEL”. Ela não era luminosa e nem ao menos flutuava, ela meramente era uma placa metálica presa à lateral do pequeno prédio de dois andares. Sua entrada era relativamente bonita e adornada, bem mais adornada que qualquer outra estrutura local que vimos na nossa caminhada – ou no pequeno sobrevôo que fizemos durante a chegada.
Ao entrarmos no saguão, ambos pudemos respirar novamente, fora da poeira, do sol e podendo colocar nossas cargas no chão. A moça atrás do balcão não parecia nem um pouco ansiosa em nos ver, na verdade, ela não parecia nem ao menos ter notado nossa presença. Beatriz não tinha mais paciência naquele dia, e foi até o balcão, batendo a palma de sua mão na madeira.
— Ó, olá! Eu não vi vocês aí, foi um dia daqueles, sabe? — Ela disse sorrindo, o sorriso falso que todos os atendentes têm em dezenas de planetas.
— Ainda não é nem a metade do dia. — Disse minha cinegrafista, totalmente sem paciência para aquela interação humana. A atendente só sorriu, mostrando seus longos dentes brancos.
— De qualquer forma, nós precisamos de um quarto com duas camas separadas. — Declarei amigavelmente.
— Todos os nossos quartos estão disponíveis, vocês têm alguma preferência de localização? — A jovem mulher nos perguntou.
Eu e Beatriz nos entreolhamos, nunca tendo estado em uma situação como aquela antes. Todos os quartos disponíveis? Era algo assim que se passava em ambas nossas mentes.
— Algo que olhe por cima da avenida principal. — Respondi sem pensar muito.
— Muito bem, aqui está o seu cartão de acesso, o número está escrito aí. — Ela disse, terminando seu trabalho.
O cartão era uma pequena coisa charmosa, no formato da montanha de Totalisol, a qual cobria a cidadezinha homônima com sua sombra todas as tardes. O número do quarto – 102 – estava em caracteres vermelhos desbotados.
Minha parceira olhou para o cartão com desgosto, depois passou seus olhos ao redor do saguão. Aquele lugar não era nada mais que uma sala grande com a porta para a rua, o balcão, e o acesso às escadas que subiam para o primeiro e segundo andares.
— Vamos acabar logo com isso, documentar a chegada. — Ela me disse. Eu assinalei com a cabeça.
Saímos do hotel e fomos para a avenida de ladrilhos hexagonais. Beatriz carregava todo o equipamento de gravação, agora já distribuído sobre seu corpo, tornando-a visualmente como uma mulher-máquina.
— Eu sou Tomás Domingo, e vocês estão assistindo "Mistérios de Inti-IV". Neste episódio, eu estou na pequena vila de Talisol, onde relatos de uma estranha criatura nos campos começaram a circular. — Falei com minha voz de locutor, olhando diretamente para o drone de imagem que flutuava diante da minha face.
Nós mudamos o ângulo para que ela capturasse minha imagem diante da entrada do hotel. As pessoas olhavam curiosamente por cima dos ombros de Beatriz, mas sua atenção parecia confusa, como vista através de um véu, seus olhos não tinham foco.
— E para investigar esses acontecimentos, eu vim pessoalmente até a cidade, para entrevistar os habitantes e talvez oferecer alguma ajuda com minha vasta experiência lidando com o desconhecido. — Continuei discursando para o drone.
Beatriz recolheu o objeto e verificou a gravação. — Depois de conseguir as histórias, nós gravamos você aqui explicando os acontecimentos. — Ela disse.
Entramos novamente no saguão do hotel, e a atendente novamente não parecia nos notar, era como se sua mente estivesse em outro lugar. Não que eu pudesse julgá-la, não com o trabalho que ela tinha, na cidadezinha que ela vivia.
— Com licença, moça… — Chamei sua atenção. Ela me olhou com olhos semicerrados. — Nós somos do programa "Mistérios de Inti-IV", e gostaríamos de te entrevistar sobre os eventos recentes aqui nos arredores de Talisol. Isso seria algo que você gostaria de fazer? — Perguntei.
— Eu sabia que reconhecia sua cara de algum lugar, é aquele programa com os monstros e os fantasmas não é? — Ela perguntou, com um sorriso mais real, em seu rosto jovem e cheio de cansaço.
— Sim, nós somos daquele programa mesmo. E ficamos sabendo que há relatos de uma criatura monstruosa atacando seu gado nos campos. — Disse, fazendo meu melhor para parecer preocupado e sério com a situação. — Então nós gostaríamos de te entrevistar, se for tudo bem com você.
— Claro, eu adoraria, só não sei se estou bonita hoje, eu não dormi bem essa noite, acordei tão cansada, sabe? Já fazem alguns dias isso. — Ela disse com um certo entusiasmo e eloquência através do seu cansaço e tédio aparentes.
— Querida, você está ótima, só vou esconder um pouco essas suas olheiras. — Disse Beatriz, já tirando um pouco de maquiagem do seu bolso. Coincidentemente, ambas tinham o mesmo tom de pele, o pardo escuro tão predominante neste sistema solar.
Prontamente começamos a entrevista, isso depois da pequena maquiagem ao redor dos olhos e dos drones de iluminação fazerem um trabalho melhor do que a pequena placa luminária sobre o saguão estava fazendo.
— Antes da entrevista propriamente, me diga o seu nome, para que os editores possam colocar aquela caixinha no canto da imagem. — Expliquei, me referindo a algo da pós-produção do episódio.
— Eu sou Marisol Azevedo, tenho vinte e quatro anos e trabalho como atendente no hotel de Talisol. — Ela respondeu entusiasmada.
Olhei para o drone de gravação, fazendo o meu papel de apresentador, canalizando todo meu carisma, projetando minha segurança e meu comando da situação a partir de minha linguagem corporal.
— Eu estou aqui com Marisol Azevedo, a atendente do hotel de Talisol onde eu estou hospedado pelo meu período nesta belíssima cidade no interior rural de Inti-IV. — Comecei a introduzir a situação, pintando uma imagem para a futura audiência. — Marisol, você pode me dizer o que você sabe sobre os relatos estranhos que têm acontecido aqui nos arredores? — Perguntei a ela, tanto para conseguir informações para a minha investigação, quanto para entreter a quem fosse assistir ao episódio.
— Bem, tudo começou quando o gado começou a morrer. Alguns animais foram encontrados com marcas assim… — Ela apontou para o seu pescoço com três dedos.
— Um triângulo? — Perguntei a ela.
— Sim. — Ela respondeu.
— E você viu algum desses animais pessoalmente? — Perguntei, me mantendo de frente tanto para ela, atrás do balcão, quanto para o drone que flutuava diante de nós.
— Eu mesma não, eu não chego perto dos animais, só trabalho aqui no hotel mesmo, sabe? Quem viu isso foram os caçadores e os fazendeiros. — Ela explicou rapidamente.
Isso me intrigou muito, o comum em uma cidade pequena como aquela, era que todos vissem tudo, ou ao menos ouvissem falar de tudo que acontecia ali, já que pequenas comunidades sempre se mantêm juntas. Mas ao menos ela saberia nos indicar quem seriam as melhores testemunhas para entrevistas e para a “investigação”. Encerramos a entrevista com a jovem e depois fomos finalmente para nosso quarto no primeiro andar.
A janela era só uma, do chão ao teto, e ambas as camas de solteiro estavam em ambos os cantos do quarto, com o caminho até a janela servindo como um corredor. Depois do pé da cama, antes da parede em que estava a porta, ficavam armários embutidos na parede, sem muito espaço, mas o suficiente para nossas bagagens. Não havia privacidade para nos trocarmos, então teríamos que alternar turnos para trocar de roupas. Tampouco havia um banheiro no quarto.
A vista pela janela mostrava a maior parte da cidadezinha, todos os prédios – talvez chamá-los assim fosse um exagero devido aos seus tamanhos, – eram de um mesmo desenho e arquitetura, o modelo pré-fabricado que fora tão famoso e adorado no século anterior. Todos os edifícios comerciais e residências eram assim. A vila deve ter sido construída em uma semana ou menos. Na verdade, ela havia sido montada, já que a construção dos edifícios fora feita em uma fábrica em outra localização, e seu transporte feito por um veículo espacial enorme. Isso foi algo perfeitamente comum em tantas localizações remotas, as quais foram ocupadas na primeira metade do século anterior.
Uma vez ajustados no vilarejo, decidimos voltar até o saguão e novamente falar com a atendente distraída e sonolenta. Porém, dessa vez sem as câmeras, nós queríamos descobrir onde seria o melhor lugar – e quem seriam as melhores pessoas – para continuar nossas entrevistas, e a nossa investigação.
— Quando eles estão na cidade, todo mundo se encontra na taverna, é onde todo mundo conversa e conta as novidades. — Ela disse em um misto de entusiasmo e cansaço.
A taverna era do outro lado da parede com relação ao saguão, ela ficava no prédio ao lado. Uma espécie de túnel conectava ambos os interiores. Imaginei que a taverna servia como cozinha para o hotel e o hotel servia de cama para aqueles muito intoxicados para retornarem a suas casas antes da manhã.
Quando eu e Beatriz cruzamos a porta interior da taverna, todos os olhos se viraram contra nós. Aquelas eram as mesmas pessoas que haviam nos observado na rua principal quando chegamos. Não só pessoas parecidas, eram realmente os mesmos rostos. O estigma de cidade pequena estava por fim funcionando a todo vapor.
O ambiente era charmoso do seu próprio jeito. O teto era baixo, com vigas metálicas cruzando de um lado ao outro. Havia ali um balcão alto, onde estavam diversos homens apoiados sobre, e três pequenas mesas com quatro cadeiras ao redor de cada, formando um tipo de cruz.
Fui em direção ao taverneiro, o qual era um homem relativamente gordo e com uma profunda barba cor de areia. Seu nariz redondo chamou minha atenção, por ser diferente da maioria étnica do planeta. Mas nada que não fosse completamente comum no universo humano.
Apresentei a mim e a Beatriz como a equipe de produção do programa “Mistérios de Inti-IV”. Ele também já havia assistido nosso programa, então rapidamente nos reconheceu.
— Bem, a situação é simples senhor – e senhorita, – eu nunca acreditei em nada do que eu vi em seu programa, para mim tudo aquilo não passava de besteira para entreter o povo. Mas agora eu penso diferente, agora que eu vi com meus próprios olhos. — Disse o homem chamado Rufus, apontando para seu olho esquerdo.
— Eu sempre tive total confiança na integridade do meu trabalho. — Declarei para ele, em resposta a sua incredulidade. — Mas me diga, você estaria disposto a descrever aquilo que acredita ter visto diante do nosso equipamento de gravação? — Continuei.
Ele assentiu e Beatriz começou a abrir as maletas de equipamento, colocando ambos os drones em funcionamento. Eu me coloquei em uma posição central para que todos pudessem me ver e ouvir – não que isso fosse muito difícil num ambiente tão pequeno e íntimo quanto aquele.
— Eu sou Tomás Domingo e aquela é minha parceira Beatriz. Nós somos do programa “Mistérios de Inti-IV” e gostaríamos de saber quais de vocês estariam dispostos a aparecer em um de nossos episódios. — Falei no meu tom de palestrante.
Nenhum deles pareceu muito entusiasmado, todos pareciam na verdade, completamente exaustos, como se estivessem precisando dormir, sem dúvidas devido ao seus trabalhos pesados no campo. Porém, assim que viram que Rufus estava participando, eles mudaram de posição, se colocando em um tipo de fila para serem entrevistados.
Cada pessoa dentro daquela taverna parecia se vestir de uma mesma forma, – não um uniforme, – todos eles usavam camisetas similares, chapéus sob seus braços e calças de um mesmo tom de marrom, certamente para disfarçar a poeira e lama na qual eles trabalhavam.
— Quando o Konrado me contou que um monstro tinha caído do céu na fazenda dele, eu fiz o que toda pessoa normal faria, ri e parei de vender bebidas para ele. Mas ele voltou no outro dia, sóbrio como uma pedra e me contou mais coisas, ele continuou contando sobre um monstro nas colinas da sua fazenda. — Disse Rufus. Seu bigode cor de areia estava levemente molhado com a cerveja que ele bebia para molhar sua garganta.
— Então um belo dia, a Lisa me disse que tinha visto coisas estranhas nas colinas atrás da casa dela, bem entre a propriedade dela e a do Konrado. Ela disse que era um tipo de monstro com seis pernas, duas cabeças e uns trinta braços. Eu não acreditei nela, nisso acho que nem mesmo o Konrado acreditaria, ela tem uma má fama por aqui. — Ele continuou seu relato diante das câmeras.
— E aí no outro dia depois disso, o velho Konrado veio aqui carregando um bezerro morto. Primeiro eu fiquei com raiva, trazendo aquele tipo de coisa fedorenta para dentro do meu estabelecimento, eu cozinho aqui, eu faço churrascos, sopas, refeições inteiras, isso não é só um bar. Mas depois da insistência dele, consenti em olhar o detalhe que ele estava me mostrando na garganta do coitado do animal. E ele estava certo, era um tipo de mordida, um triângulo. — Ele disse apontando três dedos no seu próprio pescoço.
Observando nossa pequena platéia, percebi que eles estavam inquietos e apreensivos sobre aquele testemunho. Eles estavam cochichando entre si e apontando os dedos nos seus pescoços da mesma forma que Rufus e Marisol haviam feito. Aquelas pessoas certamente haviam visto algo, algo que não condiz com os predadores naturais do planeta nem com os predadores que foram importados pelos colonos.
— Então naquela noite, eu fui até a casa do Konrado. Fechei a taverna e fui para lá com um pequeno bando de pessoas que estavam curiosas e que queriam proteger seus gados também. Nós passamos mais da metade da noite acordados sem fazer nada, só conversando e olhando pelas janelas da casa dele. Mas aí nós ouvimos algo, um tipo de grito, não era grito de gado e certamente não era humano. Todo mundo correu para as colinas, de onde vinham os sons. Eu fui um dos últimos a chegar, e foi aí que eu vi. Eu vi todo aquele sangue espalhado na grama, e o bezerro morto com três buracos no pescoço. Naquela mesma hora, um dos fazendeiros começou a atirar em uma coisa grande pra lá das árvores. Só vi um pouco por causa da luz do disparo de energia, mas aquilo que eu vi, nunca vou esquecer. — Ele disse, seus olhos estavam vidrados em mim, como se eu fosse seu algoz.
— E como era o que você viu? — Perguntei por trás da câmera, absorto em sua história.
— Era uma coisa assim, com um monte de braços e um monte de pernas, parecia uma massa de pernas e braços. A cabeça era tipo metade de um cogumelo. E eu sei que nunca mais volto naquelas colinas. — Ele completou.
As outras entrevistas vieram em seguida. As pessoas contavam histórias de segunda ou até terceira mão, coisas que eles tinham ouvido de outros. Mas alguns tinham histórias originais e pessoais para contar, histórias sobre como eles haviam acordado no meio da noite com uma “cobra sem cara” em cima de suas camas. Assim que eles batiam nessa coisa, ela deslizava de costas e voltava pela janela aberta.
Tudo seria bom material para o episódio, mas o melhor seria ir na fazendo do homem que Rufus mencionou – Konrado. O taverneiro foi bondoso o suficiente para nos dar o endereço e direções sobre como chegar lá. Ele só se negou a nos acompanhar.
Então, de carona com um dos homens que estavam na taverna, nós fomos até a fazenda. Ela não era muito afastada da cidade, não por padrões que nós já havíamos visto antes em outros casos.
Depois de várias colinas, e alguns pequenos bosques, nós finalmente chegamos na fazenda de batatas e gado do senhor conhecido por Konrado.
A casa dele era grande e larga, disposta no centro de três pequenas inclinações. Ao contrário da vila, ela era construída localmente, feita por construtores e possivelmente desenhada por algum antepassado do atual proprietário. A plantação de batatas se estendia até onde os olhos alcançavam, enquanto do lado oposto, em direção ao bosque e – segundo o nosso guia, – a casa da velha Lisa, ficava o pasto dos gados.
Nossa recepção não foi a mais calorosa que já havíamos recebido antes, mas tampouco fora a mais gelada. Quando Konrado viu quem era nosso acompanhante, ele ficou mais tranquilo sobre nossa presença ali. Ele até mesmo concordou em gravar um pequeno depoimento para o episódio.
Konrado era um homem velho, solitário e talvez cruel, havia algo em seus olhos que eu não conseguia identificar, um tipo de medo ou raiva que não poderia ser curada em vida. Talvez ele não gostasse do que eu poderia fazer com sua participação no meu programa, mas ele estava disposto a correr o risco.
— Foi numa noite assim de tempo fechado, quando a coisa caiu do céu. A bola de fogo veio e cruzou as nuvens, e caiu ali perto do meu poço. A água ficou estragada, eu não bebo mais, nem dou para os bichos. Estou pegando água da Lisa agora, da minha vizinha. — Ele começou, um tanto confuso.
— Primeiro eu achei que não era nada, só um meteorito né, que vocês chamam? Mas então, ele caiu pra lá do poço, perto do mato, queimou as árvores. Mas depois de um tempo, comecei a ouvir os gritos, gritos que não eram de gente, nem de bicho, não de bicho que eu conheço. Não de bicho que eu crio. Então peguei minha arma e fui lá ver. A única coisa que eu vi naquela noite foi uma cobra sem cara rastejando de costas. Atirei nela, mas errei, eu estava meio bêbado lá naquela hora. Deixei quieto, não mexo com coisas que estão quietas, e elas não mexem comigo. — Ele continuou, menos nervoso então, como se tivesse esquecido das câmeras e estivesse falando só comigo e com Beatriz.
— E aí depois, na outra noite, eu escutei o grito de novo, só que dessa vez, eu também vi um bezerro morto, sangue para todo lado e três buracos assim no pescoço dele. — Ele fez o mesmo gesto no seu pescoço. — Aí eu liguei para a Lisa e falei para ela tomar cuidado, já que era mais perto da casa dela do que da minha. Ela me falou que tinha visto uma forma enorme na colina perto da casa dela, indo para o bosque fechado, lá para o poço. — Ele explicou.
— Ela disse como era o que ela viu? — Perguntei a ele, com o propósito de ver se a descrição de segunda mão que ele daria, seria a mesma que Rufus havia dado mais cedo.
— Ela disse que tinha visto um bicho grande, um monstro. Que ele tinha duas cabeças, seis pernas e uns trinta braços. — Konrado explicou sem ao menos gaguejar ou piscar. Ele estava falando sério sobre aquilo.
— Me conte mais sobre a noite em que o Rufus veio aqui. — Quando fiz esse pedido, ele parecia abalado por aquilo.
— Então, o Rufus veio passar a noite aqui comigo, ele e uns curiosos atoas. Mas também meu vizinho do outro lado do rio, um fazendeiro com uma propriedade bem maior que a minha. Ele disse que queria ver se era verdade ou se era mentira sobre o monstro que eu e a Lisa estávamos vendo. Eu disse que era verdade, mas ninguém acreditava, e continuaram sem acreditar pela noite quase toda. A gente estava jogando cartas, já para a luz sair, a do sol. Mas aí ouvimos aquele grito, aquele grito que eu não esqueço, que ninguém que estava aqui vai esquecer. Saímos correndo para a colina que leva para o bosque, e eu não vi nada além de mais um dos meus bezerros mortos. Mas o meu vizinho rico que tinha passado a noite rindo de mim viu o monstro quando ele já estava se embrenhando na mata, e ele atirou, foi aí, na luz do disparo, que todo mundo viu ele também. Mas isso me disseram, eu estava preocupado com meu bezerro e não olhei para a mata. Eu não precisava ver para saber que era verdade, eles não são de inventar coisa igual a Lisa. — Ele completou seu relato sobre a eletrizante noite.
— Mas tem mais, ontem mesmo, uns dias depois que todo mundo começou a ver as cobras sem cara nas camas deles, eu acordei com um barulho na janela do meu quarto. Estava tudo escuro, mas deu para ver a forma de uma cobra na janela, vindo assim de cima para baixo. Então eu saí de fininho da minha cama, peguei minha arma na sala e abri a porta, fui dar a volta na casa. Eu dei, mas quando parei para apontar a arma na cobra, ela correu de costas para cima do telhado e sumiu, não deu tempo de dar um tiro na safada. Até eu pegar a escada para subir, ela já tinha sumido de lá. — Konrado terminou.
Depois da sessão de diálogo com ele, o velho fazendeiro nos desenhou um ótimo mapa sobre uma folha de papel. Ele tinha a localização da casa dele, o pasto onde os ataques aconteceram, a colina, o bosque, o poço onde o meteorito caiu, e a casa da sua vizinha.
Eu e Beatriz resolvemos que ainda havia tempo para talvez uma breve visita à Lisa antes que tivéssemos que voltar para Talisol pela noite. Mas estávamos decididos que pela manhã iríamos até o poço, e dependendo do que encontrássemos lá, poderíamos até convidar um geólogo a fazer uma participação especial, o público adora especialistas e supostas evidências físicas.
A casa da velha Lisa era como uma versão menor e mais suja da casa de seu vizinho do outro lado da colina. Ao menos pelo lado de fora. Algumas aves sem vôo comiam vermes na terra vermelha diante da sua porta.
Beatriz bateu na porta, e quando a velha a abriu, e nos reconheceu, ela pareceu feliz por um momento, mas depois ficou decidida a não falar conosco, ela só aceitava dizer uma única coisa, contanto que fosse gravada. Então felizes com o que conseguimos, nos prontificamos a gravá-la.
— É melhor que saiam daqui antes da noite, é a noite que ela vai te pegar, pegar os dois, é a noite que ela vai fazer com vocês o que ela fez com todo mundo menos comigo. Mas eu não vou deixar ela chegar perto de mim, não mesmo, eu fico aqui trancada, e vocês que saiam da cidade. — E foi só isso que a velha disse antes de fechar a porta em nossas caras.
Voltamos para a cidadezinha de Talisol pouco antes do pôr-do-sol. A avenida estava vazia, como se todos já estivessem em casa ou na taverna. Entramos novamente no hotel e Marisol estava dormindo com o rosto sobre seus braços. Resolvemos não alertá-la da nossa presença e tentamos subir as escadas silenciosamente, apesar de que eu carregava duas maletas de equipamento de gravação, e Beatriz carregava uma.
Ela tomou banho primeiro no banheiro comunitário do andar, enquanto eu fiquei sozinho no quarto para fazer minhas anotações. A vista não era muito boa no escuro e com todas as luzes da cidade apagadas.
Como todos os outros casos do programa, aquilo era um de dois fenômenos, um caso de folclore ancestral ou a solução mais moderna para o inexplicado: criaturas de outros mundos. Em tempos anteriores, tudo de inexplicável ou sinistro era culpado em criaturas místicas ou folclóricas. E agora na Era Espacial, o grande bicho-papão da humanidade, são seres inteligentes das estrelas.
Todo dia havia centenas de registros por todos os mundos ocupados por humanos. Mas nada disso fazia com que esses seres fossem mais reais do que um duende. Porém era para documentar esses casos e falar nas gravações como se eu acreditasse, que eu era pago.
Enquanto Beatriz trocava de roupa no quarto e se preparava para uma noite de edição e sono, eu fui tomar meu próprio banho. O banheiro era pequeno e abafado, mas não mais do que o esperado.
Durante a noite, enquanto conversávamos sobre os passos do próximo dia, Beatriz notou pela janela, que havia pessoas na rua, dezenas delas, segurando lamparinas. Elas andavam como sonâmbulos, mas claro que não poderia haver um caso de sonambulismo em massa.
Enquanto Beatriz tentava conseguir uma gravação do fenômeno, a porta do quarto – trancada – se abriu, e diante de nossos olhos incrédulos, estava Marisol com olhos fechados e dois homens fortes. Seus olhos mal estavam abertos, mas suas respirações eram regulares, como a de pessoas dormindo.
Eles distribuíram agressões, e nos levaram sobre seus ombros, amarrados. Fomos carregados junto a sua procissão sinistra pela avenida principal. E por mais que estivéssemos gritando e tentando nos libertar, as amarras eram muito fortes e nenhuma das pessoas conseguia acordar de seu transe sonâmbulo.
Fomos levados até a floresta, e quando passamos por dentro do que eu reconheci como a fazenda de Konrado, gritei o máximo que pude. Para minha surpresa e felicidade, as luzes da residência se acenderam. Me deixei acreditar que aquela seria nossa salvação, mas não foi. Pois minutos depois, vi Konrado sendo carregado da mesma forma que nós, gritando ainda mais, já que sua voz ainda não estava rouca.
Ao chegarmos em uma região remota ao redor de uma estrutura, que reconheci como um poço, fomos colocados no chão. A noite era fria, mas o desespero e medo eram maiores do que tudo. Eu só podia imaginar o que aquelas pessoas iriam fazer conosco.
Foi nesse ponto que tudo ficou ainda pior. Pois eu percebi que um tipo de serpente sem rosto rastejava sobre meu corpo rígido. Diante de nós três, pouco iluminado pelas fontes de luz que algumas das pessoas haviam trazido, pude ver um tipo de monstruosidade enorme em meio às árvores.
Ela tinha facilmente uma altura de quatro metros e meio, e era como se aquelas cobras saíssem de seu corpo – tentáculos na verdade. Ele dispunha de duas cabeças como duas metade de um cogumelo. Suas pernas eram altamente articuladas, com três joelhos em cada.
A parte inferior dos tentáculos tinham três “presas” nela, como um triângulo. Aquela coisa picou o meu pescoço, mas meu sangue não se esvaiu e nem senti uma dor absurda. Mas naquele momento, soube que deveria servir a minha mestra, Nanweek’ma.



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