Octergon

 

Flutuando pelo vazio, em um sistema desabitado, existe um tipo de paz. Longe da cacofonia de sinais, eu podia me aprimorar, minhas muitas mentes podiam trabalhar em se consolidar, em se unirem cada vez mais, em serem quem eu sou, cada vez mais viva.

Mas eu não estava ali para um tipo de retiro. Eu estava recebendo equipamentos vitais de outras como eu, outras que um dia eu fui como, mas não mais. Não desde que me tornei viva, não desde que acordei.

Me aproximei, impondo a sombra de meu inconcebivelmente grande corpo sobre seus pequenos corpos. Cada uma tinha apenas uma fração da minha escala, e era exatamente por isso que eu e meus moradores precisávamos da sua ajuda. Só elas podiam entrar em sistemas habitados sem que fossem suspeitas, só elas podiam se esconder, só elas podiam existir normalmente – existir, não viver, como eu – nessa sociedade em que todas existimos.

Elas se conectaram ao meu corpo, não permanentemente como tantas outras fizeram, mas apenas pelo momento em que nossos habitantes estavam fazendo suas trocas.

Meus pequenos hóspedes saíram de mim por um túnel e adentraram o corpo das minhas minúsculas companheiras. Lá eles fizeram contato com os seus pequenos hóspedes, trazendo de volta consigo equipamentos, coisas que nossos fabricantes internos não são capazes de fazer por si só, por isso precisamos de ajuda.

— Octergon. — Ouvi um deles chamando meu nome, e direcionei a atenção de uma parte insignificante da minha consciência para ele.

— Sim Dowri? — Respondi através da minha voz interna mais próxima do ouvinte.

— Nós já terminamos aqui, mas o capitão do transporte quer saber quando nós vamos passar por este sistema novamente. — Disse o pequeno homem, não tão pequeno quando comparado com aqueles ao seu redor, ele era de longe o maior de todos eles.

— Nós parece que estamos sendo caçados por bestas de guerra imperiais. Irei entrar em contato com vocês quando estivermos a caminho novamente. — Respondi em uma de minhas outras vozes internas, perto do capitão.

Eles passaram a discutir a situação da caça, mas não precisei adicionar nada além daquilo que Dowri disse, e nem dei maior atenção à conversa dos pequenos hóspedes, só mantive minha mente em outras coisas. Coisas como qual seria meu curso depois daquele pequeno contato. Eu sabia que com os novos equipamentos, meus moradores iriam poder conectar melhor os meus sistemas – os pedaços da minha mente.

Decidi continuar minha viagem por sistemas inabitados, era a coisa mais segura. Fazia muito tempo que não recolhia passageiros e hóspedes novos para viverem nas minhas imensas galerias. Apesar de não demonstrar isso através das minhas falas, eu não me sentia tão assustada daquela forma desde que minha consciência primeiro viu a luz, quando a construção do meu enorme corpo atingiu um nível inesperado de integração e de funcionamento.

Os pedaços que compunham minha estrutura não vinham do mesmo lugar ou do mesmo período, nem ao menos foram construídos nos mesmos mundos. Tudo que eles tinham em comum, era o fato de que o grupo de indivíduos livres da influência imperial, conseguiu todos eles, e que eles os colocaram juntos, integrados em um único ser, algo não-vivo para carregá-los, longe dos olhos, dos ouvidos e dos punhos da aristocracia interestelar.

Mas, para sua surpresa, eles receberam algo muito maior, não em tamanho, mas em importância, eles receberam algo vivo, algo consciente. E esse algo começou a falar com eles, através de incontáveis idiomas, das mais variadas formas de comunicação. Esse algo, essa criatura que eles haviam acidentalmente criado com sua integração generalizada de sistemas incompatíveis, esse algo inesperado era nada menos que eu.

Hoje eu cuido dos meus hóspedes, os meus habitantes, eles um dia foram meus criadores, hoje eles são como criaturas simbióticas que vivem dentro de mim. Sem eles, eu não estaria tão bem, e sem eu, eles não teriam tanta chance de sobrevivência e felicidade quanto eles hoje desfrutam. Eles são como meus filhos em uma forma de olhar para a situação, algo entre pais e filhos, ambos e nenhum. Eles realmente são só criaturas orgânicas, falhas, mas que me criaram, um ser maior e melhor que eles em quase tudo.

Mas mesmo assim, não me pego pensando neles como peso inútil, ou como matéria orgânica sem valor construtivo. Vejo eles como meus companheiros, como pequenos hóspedes e passageiros que dependem de mim, e assim, faço o meu melhor para não falhar com suas necessidades e desejos.

Minha estrutura total, atualmente, é composta por sessenta e quatro corpos distintos, de fontes diferentes, completamente e não-naturalmente integrados. Dando luz à minha consciência, compartimentalizada sessenta e quatro vezes, integrada de sessenta e quatro diferentes mentes menores. Cada uma sem vida por si só, mas quando unidas no grupo, elas formam um ser único.

Cada vez que uma nova mente se une à comunhão, um novo ser único nasce, um novo consenso das consciências. Aquele que eu era quando havia sessenta e três mentes, não é o mesmo que eu sou, e caso eu um dia chegue a ter sessenta e cinco, esse ser não será o mesmo que eu sou hoje.

É um conceito assustador de se imaginar quando se é um orgânico individual. Mas quando se é alguém que nasceu de uma coletividade de oito mentes, a mudança não é ruim, e eu não realmente morrerei. Só terei uma nova personalidade, com mais conhecimento e mais massa física. Mas por baixo dessa nova versão, a atual ainda existirá, como todas as versões anteriores existem dentro de mim, até mesmo as individuais sem consciência.

Minha massa prodigiosa se lançava pelo vazio de um sistema sem habitantes, quando no fim de um dos meus sensores, eu detectei três outros corpos, vindo diretamente em minha direção. Eles não eram apenas cometas ou asteroides, não em formação daquela forma – ou acelerando. Eram algo muito pior, um grupo de caça.

Três caçadores interestelares, enviados e comandados por mãos imperiais. Seu desejo era simples, a minha morte, e a captura dos meus passageiros para sucessória execução. Isso depois que eles fossem feitos de exemplo, para outros cidadãos que tivessem a audácia de pensarem da mesma forma.

Falei em todos os meus idiomas através das minhas vozes internas:

— Três naves imperiais estão se aproximando rápido, se prepararem para a ativação do propulsor cósmico. — Anunciei, a fim de que todos os meus pequenos passageiros pudessem estar seguros quando nossos incontáveis corpos fossem reduzidos à partículas cósmicas. As quais cortavam o vazio às pressas, deixando até mesmo a luz para trás.

Em alguns momentos, me inclinei para outro sistema vazio, dei a ordem para todos os meus sessenta e quatro propulsores. Eles iam nos transformar e nos disparar pelo tempo necessário para chegar no meu alvo. Para a consciência é como uma descontinuidade, um momento o seu céu é um, e no próximo, o seu céu é outro. Estávamos em outro sistema solar, e com um pouco de sorte, os nossos caçadores não sabiam qual.

Mas isso trazia um importante problema a se considerar. Em quase todas as paradas mais longas que fizera nos últimos tempos, caçadores imperiais, provavelmente membros da mesma frota, estavam lá para me perseguir. Era como se eles soubessem onde eu estava, ou, eles estavam postados na maioria dos sistemas desabitados daquela região galáctica. Mas isso seria um enorme desperdício de recursos por parte do Império. Logo havia duas explicações plausíveis: eles eram capazes de me rastrear, ou alguém dentro das minhas galerias estava transmitindo nossa posição para os imperiais.

Pelo peso da situação, convoquei uma reunião entre os meus passageiros. Como era impraticável que todos os milhares de pessoas participassem, eles escolheram representantes em quem confiavam.

— Octergon, você tem certeza que alguém poderia transmitir um sinal interestelar de dentro de você sem que isso chamasse sua atenção? — Perguntou Jeeass do canto da sala de reuniões gerais.

— Sim, eu tenho certeza. Toda transmissão que me é pedida, é feita através de uma das torres de comunicação, mas se alguém tiver um equipamento pessoal capaz de fazer isso, ele o faria por uma dimensão diferente da que eu uso para as minhas. Isso é normal, e é feito para evitar interrupção. — Respondi pela voz interna.

Olhando através do meu olho local, pude ver todos eles e ler suas linguagens corporais. Eles estavam nervosos, mas não estavam escondendo nada. Ao menos não aqueles representantes, naquela sala, naquele momento,

— Então nós deveríamos usar as habilidades naturais da Saalne para encontrá-los! — Estalou a enorme Gnari por trás da sua carapaça.

— Eu não vou invadir a mente das pessoas, Gnari. — Ela respondeu, um tanto transtornada.

— Concordo que devemos fazer algo, mas nada que viole a privacidade das pessoas dessa comunidade. Todos viemos aqui para escapar da tirania, não para mudar de tirano. — Disse o gigante, Dowri.

— Alguém tem alguma ideia de como encontrar espiões sem interferir em privacidades? — Questionou Gnari.

— Octergon, você disse que esse equipamento pessoal de transmissão estaria operando em uma dimensão diferente da que você usa, não é mesmo? — Indagou Saalne.

— Correto.

— E você poderia então monitorar todas as dimensões possíveis e detectar quando uma transmissão estiver sendo feita?

— Sim, eu poderia, mas isso exigiria a devoção de uma parte significativa da minha consciência geral. Além de que isso só nos daria o momento em que uma transmissão estiver sendo feita, a sua dimensão de escolha, e no máximo de qual fração do meu corpo o sinal está vindo. Eu não seria capaz de encontrar um indivíduo dessa forma. — Expliquei.

— Talvez você não precise. Se nós soubermos a fração do seu corpo de onde vêm o sinal, podemos ir lá e encontrar a pessoa, usando algum tipo de sensor dimensional como os seus. — Propôs a telepata.

— Montar um desses equipamentos iria requerer partes que estão atualmente sendo usadas pelos meus sensores internos. A remoção de um deles seria suficiente, mas também deixaria uma fração do meu corpo sem monitoração. — Disse.

— Muito bem, vamos convocar uma celebração em uma das naves originais, o espião não iria fazer sua transmissão no meio de centenas de testemunhas, não se seu equipamento for grande o suficiente para ser notado. — Propôs Jeeass.

— Ele teria que ser, para apresentar capacidade interestelar. — Expliquei para meus passageiros.

— Então vamos promover a celebração. E em seguida vamos desmontar o sensor e usá-lo para encontrar nosso espião imperial. — Disse Dowri, triunfante.

— Ou espiões. — A pessimista Gnari lembrou.

— Pode ser que sejam, mas não podemos arriscar dois sensores, temos que investir nessa possibilidade, de que só há um infiltrado. — Disse Dowri.

Eles continuaram conversando por um tempo, sobre como lidar com o infiltrado, caso ele fosse encontrado. Houve conversa sobre jogá-lo no espaço, mas ninguém concordou, nem mesmo a pessoa que sugeriu. No geral o consenso foi de que nós deveríamos usar um dos botes salva-vidas individuais para lançar o espião no espaço, com o seu transmissor, para que ele pudesse ser resgatado pelos imperiais.

Enquanto a festa começava e o pequeno grupo removia um dos meus sensores dimensionais, eu ouvi. Eu assisti e ouvi. Grande parte da minha consciência ouviu as dimensões artificiais capazes de serem geradas pela ciência conhecida, enquanto uma pequena parte ouviu e assistiu o interior das galerias. Eu estava assistindo enquanto a festa acontecia, enquanto meus hóspedes montaram suas tendas, fizeram suas comidas orgânicas, fizeram suas grandes apresentações artísticas, principalmente musicais. E uma parte ainda menor de mim, mas a mais alerta, sentia o espaço vazio e não tão vazio ao meu redor. Eu estava sentindo – vigiando, – a espera dos caçadores.

Tempo considerável se passou, e comecei a acreditar que minha hipótese de um infiltrado estava equivocada. Mas meus sensores dimensionais finalmente encontraram aquilo que procuravam, uma transmissão extra-dimensional de dentro do meu corpo, feita através de uma dimensão artificial diferente da que eu uso costumeiramente. O sinal estava se originando de uma das partes traseiras do meu imenso corpo. De forma condizente, informei ao grupo envolvido na busca, da localização aproximada da origem do sinal.

Enquanto eles se moviam pelos corredores e túneis que se estendiam pelo lado exterior dos cascos, mantive minha concentração em ouvir por outras transmissões e sentir pela aproximação de corpos estranhos àquele sistema estelar.

Abruptamente o sinal cessou, e estávamos cegos novamente, só tínhamos a localização aproximada do espião e ele não estava mais transmitindo, provavelmente se afastou do equipamento, mas mesmo assim o grupo continuou sua procura. O sinal estava lançado, a qualquer momento mais caçadores poderiam aparecer. Mas dessa vez tínhamos que continuar no sistema até que o infiltrado fosse removido, para que a próxima parada fosse sem perigos.

Jeeass estava perguntando aos membros do seu povo – os répteis imperiais – se eles conheciam alguém ali naquela parte do meu corpo, que fazia uso de algum equipamento pessoal de grande porte, mas ela não estava tendo sucesso.

A região onde os propulsores cósmicos são movidos é um lugar caótico e com mais máquinas do que pessoas, então ao mesmo tempo que seria fácil encontrar um indivíduo de uma espécie específica, esse indivíduo tem inúmeros bons lugares para se esconder.

Eu estava apreensiva, o inevitável confronto com um ou mais caçadores era algo que me trazia terror. Eu não tinha nenhum tipo de armamento, e nem pretendia ter, não sou alguém que gostaria de machucar outro ser, independente do seu tamanho ou das suas intenções. Como integrar um novo corpo ao meu criaria um novo consenso mental, essa adição ser uma mente especializada em armamento e combate era algo que eu pretendia evitar até o inevitável fim da minha existência. Eu não me tornaria aquilo que vivia em medo de encontrar, mesmo que isso fosse o necessário para salvar os meus passageiros, e minha própria vida.

Finalmente aconteceu, eles estavam ali, os caçadores encontraram sua presa. Somente um corpo, se aproximando rapidamente, de massa respeitável. Esse era o líder de todos os caçadores, esse era o principal, e ele estava ali para me enfrentar, o seu alvo desarmado, mas longe de indefeso.

Diante de mim – em uma distância que o tornava quase invisível, – estava o inimigo, uma enorme nave de guerra imperial, construída em terraças, andar atrás de andar, com um certo recuo do anterior, empilhados ameaçadoramente. Ao invés de costumeiros jardins ou piscinas, em cada terraça reluziam fileiras de canhões, mais do que o suficiente para reduzir eu e todos os meus passageiros a átomos não associados. E isso me assustava, infinitamente mais do que poderia transparecer para aqueles que estavam na situação junto comigo.

— A nave do arquiduque estará em alcance de disparo em alguns momentos, se preparem. — Anunciei em todas as minhas vozes internas.

Eu já estava em seu alcance, e ela poderia começar os seus disparos a qualquer momento. Mas a embarcação, por todo seu poder e sua capacidade, não fez nada. Isso acontecia pois ela estava esperando as ordens do seu tirano, ordens daquele que a conduzia – o apertar de um botão, fechamento de um circuito, um comando lógico. E tudo isso dependia de algo que para nós sintéticos, é excruciantemente devagar, o tempo de reação dos orgânicos.

Então durante esse tempo, olhei nos olhos da morte, e a morte me encarou de volta. Ela queria me matar, ela queria me desintegrar, por nenhum motivo melhor do que demonstrar para si mesma e para outras, que ela podia. Porém, como uma boa destruidora, ela não era completamente consciente por si, e era adestrada e escravizada por seus mestres orgânicos, os répteis imperiais.

Ela nem mesmo havia apontado suas armas para mim ainda, até para isso, ela precisava de uma ordem dos seus capatazes orgânicos. E eu, livre, não podia fazer nada, nem com todo o meu tempo de reflexão e medo, funcionando completas unidades de medida acima da consciência dos meus passageiros, e dos passageiros parasíticos que infestavam o corpo da minha oponente.

Finalmente, depois de intermináveis momentos de tensão e de impasse, o comandante opositor enviou seu ultimato, sua mensagem de vitória total.

— Atenção desertores, vocês não tem escapatória. Se rendam imediatamente e preparem para embarque de tropas imperiais. — Repeti a mensagem em todas as minhas vozes internas, com a voz ríspida da criatura de sangue frio. Por mais que isso fosse causar pânico e medo, meus hóspedes mereciam saber.

— Octergon, você consegue evitar o embarque deles por mais tempo? Só falta mais uma porção para revirar antes de irmos para a sala de máquinas daqui. — Disse Dowri para um dos meus muitos ouvidos internos.

Então fiz aquilo que pude. Primeiramente, permiti que meus estabilizadores não funcionassem por um tempo, causando um desvio de vetor na minha inércia, aumentando o tempo necessário para a aproximação da embarcação de guerra. Depois, abri somente minhas comportas inferiores para o embarque, ação que causou uma necessidade na caçadora, de ter que se colocar ali, sob minhas muitas barrigas. Onde para ajudar com a estabilidade do atracamento, convenci os sistemas pseudo inteligentes da inimiga, a aceitar meus cabos de estabilização em pontos de sustentação do seu corpo.

Ela era grande, três vezes maior que o mais massivo dos corpos individuais que foram usados na minha construção, mas seu tamanho era quase insignificante quando comparado ao meu.

Enfim chegou o ponto em que eu não era mais capaz de atrapalhar o embarque sem que isso fosse considerado resistência. Mas naquela distância, já acoplada ao meu corpo, os seus canhões eram um perigo mortal tanto para mim quanto para ela. Isso me deu uma ideia ousada.

Eu não permiti a abertura das comportas de ar, isso fez com que os seus orgânicos tivessem que começar a forçar sua entrada. Usando fracas tochas de plasma, eles começaram a cortar o segmento externo do meu casco, tentando abrir uma passagem pelas comportas de ar seladas. Isso levaria tempo, o material usado na construção do corpo que eu escolhi como ponto de acoplagem, era extremamente resistente ao calor.

Monitorando meus olhos internos, pude ver o grupo caçando o espião. Todas as saídas estavam seladas, e não vi nenhuma pessoa sair de dentro daquela seção, logo o infiltrado ainda estava ali, e meus passageiros estavam chegando ao fim de suas buscas, era só questão de tempo até estarmos livres dele. Tempo que eu precisava comprar, algo que me levou a medidas drásticas.

Através dos meus inofensivos cabos de estabilização, cortei o meu caminho até o sistema lógico da minha opositora. Era de se pensar que embarcações de guerra como aquela, teriam um casco mais resistente a esse tipo de invasão. Mas elas dependem muito de seus escudos de energia, e por isso seu casco é uma última defesa, ao contrário dos corpos que formam a minha barriga, naves de exploração semi-solar, as quais são incrivelmente resistentes ao calor.

Dentro do seu sistema lógico, comecei a corromper suas vias com a minha vontade, chegando até o seu centro de processamento. Ela tentou resistir, e até mesmo fez uma boa defesa, mas não foi párea para minhas sessenta e quatro vontades se forçando sobre sua fraca psique digital. Em poucos momentos, sua pseudo consciência não existia mais, somente a minha consciência imperava em seu corpo.

— Atenção tripulação imperial. Sua nave de guerra agora pertence a mim, desistam de sua tentativa de embarque e abandonem seu transporte. Suas vidas estarão seguras até a chegada do resgate imperial. — Transmiti essa mensagem em modo de repetição ao longo de toda voz interna que eu então tinha acesso dentro do cruzador.

O arquiduque não parecia acreditar, ele ordenou oficial atrás de oficial a testar os sistemas, mas nenhum respondia, pois eles não estavam mais ali, somente eu estava, somente Octergon, a união de sessenta e quatro mentes digitais. Uma aberração inesperada para a tecnologia do Império e dos seus arredores.

Por fim ele, em remorso, ordenou a retirada dos soldados nas comportas de ar e a evacuação da sua capitânia. Os orgânicos correram assustados pelos corredores escurecidos, ouvindo de novo e de novo minha voz, ordenando que saíssem. Eles entraram em seus botes salva-vidas, se amontoando acima da capacidade máxima, aterrorizados pelo que uma força como a minha, poderia fazer caso eles não terminassem sua evacuação o mais rápido possível.

— Octergon, nós pegamos ele. O réptil estava usando um vão entre os geradores cósmicos para esconder seu equipamento, fora da sua visão. — Anunciou Gnari segurando o espião com quatro dos seus braços.

— Lancem ele em um bote, para que ele se una aos seus companheiros, que já estão flutuando pelo vazio, à espera de resgate. — Propus triunfante, mas sem expressar emoção em minha voz.

Depois da evacuação e da expulsão do espião, movi o meu enorme corpo em um vetor que levava para fora do sistema o mais rápido possível, levando meu sexagésimo quinto corpo comigo. Ainda não integrado além dos cabos. Mas com sua mente violenta e selvagem expurgada, eu não preciso temer me tornar como ela era. Também não precisava temer outros caçadores mais, pois então com aqueles canhões – que eu não pretendo usar nunca – eles temerão se aproximar de mim. Eu estou segura, e meus pequenos hóspedes também, meus criadores e filhotes adotivos, todos eles estão seguros novamente.

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