Os Olhos do Desejo
Ao descer do carro, senti como se estivesse indo de encontro com o dia mais feliz da minha vida. Na verdade, essa ideia me foi imposta por meus amigos, que queriam me ver sair e me divertir com eles, ao invés de ficar em casa no meu trabalho. Não sentia tanta melancolia quanto eles suspeitavam – mas de fato não me sentia tão satisfeito na vida, majoritariamente nas questões amorosas.
Desde que mudei da minha cidade natal até ali na capital, não tinha feito muitos amigos, exceto por aquele grupo, mas eu os considerava importantes para mim. Desde o dia que descobriram sobre minha falta de experiência com mulheres, eles começaram a insistir que eu deveria ir para um das suas funções sociais para conhecer damas com eles. O que eles pareciam não entender, é a minha timidez perto delas.
Finalmente, algumas semanas atrás, Bruno e sua nova namorada começaram a organizar uma festa de carnaval na casa dele. Eu não tinha considerado comparecer nem por um segundo, porém os rapazes imediatamente viram a oportunidade de me colocar frente a frente com uma das amigas de Mariana, já que ela pretendia convidar suas amigas, da mesma forma que Bruno estava nos convidando.
No dia em que confirmei presença, eles ficaram eufóricos, até mesmo Gabriel disse que iria deixar sua namorada em casa para participar do evento conosco. Para mim, isso foi um grande sacrifício, pois iria aproveitar o feriado para visitar minha família no interior de Tocantins, assim como descansar da rotina da cidade, e do meu trabalho estressante. Mas segundo meus amigos, a melhor cura para o estresse eram mulheres em grandes números e variedade. Mas também de acordo com eles, mulheres eram a causa da maior parte do nosso estresse. Então me parecia um paradoxo.
Dizer para minha mãe que não iria visitá-la ou visitar os amigos da igreja dela foi difícil por si só, mas explicar o motivo foi ainda pior. Ela sempre me advertiu sobre os riscos da vida mundana na cidade, assim como a influência negativa daquelas pessoas no meu comportamento. Mas para mim, tudo estava certo, e pela primeira vez na vida, eu poderia talvez ter contato de verdade com uma mulher, algo que todos os outros homens da minha idade davam por corriqueiro.
Após tanto tempo de antecipação, meu corpo era uma pilha de nervos, e eu não conseguia pensar em nada mais, além de como seriam as moças que a Mariana tinha convidado para estar ali conosco. Gabriel me buscou em casa, e no caminho até a residência de Bruno, ele estava me dando algumas dicas sobre como “chegar nelas”, como ele colocou. Não sei inteiramente se aquelas eram as melhores dicas do mundo, mas certamente eram melhores do que qualquer coisa que eu tinha.
A casa do nosso amigo era em um condomínio fechado em Vicente Pires, por isso ele foi nos recepcionar na portaria. Aparentemente fomos os últimos dos rapazes a chegar, pois Anderson já estava lá desde cedo, ajudando ele com as bebidas e a carne do churrasco. Um tanto para meu desapontamento, ainda não havia nenhuma mulher ali na sua casa, nem mesmo Mariana, mas tentei me manter tranquilo, sem surtar com a chegada iminente delas.
Assim que entramos, Anderson imediatamente me entregou um copo com uma bebida esquisita. Eu nunca fui de beber, portanto não sabia muito como fazer, e apenas despejei o líquido todo na minha boca, fazendo com que eu tossisse em desgosto com aquela coisa transparente que me deram. Todos riram, e Gabriel me ensinou como fazer corretamente, tomando por sua vez um copo igual.
Depois de tomar algumas coisas para aliviar a pressão, Bruno anunciou que Mariana e suas amigas tinham chegado, e novamente a apreensão se montou sobre minhas costas. Era como se um peso estivesse em meu coração, e uma inquietação no meu estômago – apesar de que isso simplesmente poderia ter sido causado pelas bebidas que me deram.
Quando ela chegou na área de piscina onde estávamos reunidos, Mariana beijou Bruno e cumprimentou todos nós de longe. Logo depois elas entraram, uma por uma, como que em um desfile de moda. Cada uma entrava pelo pequeno portão que vinha da frente da casa, parava ali, da mesma forma que sua predecessora havia feito, e então cumprimentava todos nós de forma tímida e elegante, com uma mão elevada e outra segurando uma bolsinha ao lado do corpo. Era como se elas tivessem ensaiado isso, pois todas haviam feito da mesma forma.
A primeira a entrar após Mariana foi Lilian. Uma mulher alta e magra, mas extremamente elegante, e com um corpo perfeitamente esculpido. Seus cabelos dourados eram cacheados, e caíam sobre seus ombros como uma coberta talvez, já que não era possível ver nada do outro lado. Aquela era uma massa sólida de lã amarela. Seu vestido era colado em seu corpo, e bem revelador.
Logo depois, veio Isa, uma mulher menor e mais larga, mas que igualmente tinha um corpo perfeito. A principal característica dela, possivelmente era seu sorriso largo e aconchegante, apesar de que seus cabelos coloridos também estavam chamando bastante atenção. Ao contrário da sua amiga anterior, ela não usava um vestido colado, mas sim um short curtíssimo, e uma blusa decotada que deixava toda sua barriga para fora. As curvas do seu corpo cheio chamavam minha atenção, provavelmente mais do que as de Lilian. Mas nada havia me preparado para quem entrou depois.
A última a nos agraciar com sua presença, foi Jade, uma mulher simplesmente perfeita em todos seus aspectos. Primeiro detalhe que notei, foram seus cabelos negros cacheados. Nenhuma cabeleira poderia se equiparar à dela. Seu rosto era cheio de ternura ao mesmo tempo em que exibia uma intensidade poderosíssima. Mas principalmente seus olhos, seus olhos ficavam sob suas sobrancelhas e era como se tivessem sua própria fonte de luz, pois eles chamavam atenção mesmo dali onde eu estava sentado. O sorriso tímido e levemente nervoso era a chave de ouro que fechava aquele rosto tão belamente esculpido diante de mim. Seu corpo não era tão magro, mas existia em proporções perfeitas, algo como se o molde de mulher do mundo das ideias de Platão tivesse sido feito a partir dela. A musa usava um vestido curto, mas não colado ao corpo, e suas botas eram um contraste com as sandálias de suas amigas.
Quase não pude acreditar nos meus próprios olhos, de tamanha atração que senti naquele momento. Talvez eu estivesse encarando-a, mas ela olhou para mim com um sorriso encantador, e seus olhos escuros encontraram os meus. Tentei desviar o olhar o mais rápido possível, mas enquanto ela me fitava, eu estava preso. Quando a vi ali naquele corredor, era como se eu estivesse em um sonho, e ela fosse alguém criado pela minha própria mente, especificamente para sobrecarregar meus olhos com tamanha beleza.
Gabriel convidou eu e Anderson para irmos na cozinha buscar bebidas para as mulheres recém-chegadas, como cavalheiros – de acordo com ele. Lá, ele bolou um plano de ação. Ele me perguntou por qual delas eu tinha me interessado mais, soando muito mais animado do que deveria estar. Respondi que havia praticamente me apaixonado por Jade, e ele começou a gargalhar, dizendo para que eu diminuísse a velocidade. Mas com minha escolha feita, eles decidiram que Gabriel ficaria com Lilian, e Anderson com Isa.
Quando perguntei sobre sua namorada, ele apenas me respondeu que ela não precisava saber, e nem a Lilian – sem mencionar a ameaça que ele fez sobre quebrar os dentes daquele que mencionasse alguma coisa na frente das garotas. Eu não conseguia conceber como ele sempre fazia questão de estar saindo ou flertando com tantas mulheres além da sua namorada, sendo que eu não conseguia estar nem mesmo com uma. Isso me fazia pensar que às vezes a vida não era justa.
Como instruído pelos meus amigos, levei a bebida direto para Jade, e me sentei ao seu lado na grande mesa onde estavam os artigos de tabacaria. Para meu espanto, ela me deu bastante atenção, e não parecia se importar com minha timidez ou falta de habilidade para conduzir uma conversa interessante com ela. Tanto, que eu nem mesmo precisei da inestimável ajuda dos meus amigos naquela situação. Apenas fiquei conversando naturalmente com ela, e quando vi, cada um de nós estava absorto em nossas próprias conversas individuais, as quais pareciam ter o mesmo nível de sucesso.
Quando voltei com mais bebidas, Jade me convidou para sentar com ela na beira da piscina, longe dos outros. Eu fui sem pensar duas vezes, e como notei posteriormente, os outros três casais haviam feito o mesmo, cada um em um canto, sem notar a existência um do outro. Mas isso não parecia estranho, não quando eu tinha aqueles olhos fitando os meus.
Enquanto conversávamos, eu era completamente incapaz de não ficar encarando aqueles enormes olhos castanhos, que tinham uma nota de azul em seu branco. Mas quanto mais eu olhava, mais me perdia no mundo que era representado pela sua presença intoxicante. Porém eu não sentia uma atração carnal tão poderosa, mas sim uma paz que me relaxava por completo – me sentia seguro e completo enquanto tinha aqueles olhos nos meus.
Nesses momentos, ela olhava para baixo rapidamente, apenas movendo seus olhos em um ato quase que inconsciente. Isso fazia com que os meus olhos fizessem o mesmo, involuntariamente, e quando isso ocorria, seus lábios rosados capturavam inteiramente minha atenção, e isso sim me deixava com um desejo por ela, pelo seu corpo quente contra o meu – mesmo que eu não soubesse como era essa sensação.
Ficamos assim por um tempo, até que ela tomou a iniciativa e me beijou, o que de acordo com Gabriel é um anátema. Depois de algumas rodadas de beijos quentíssimos, percebi que meus amigos estavam da mesma forma com suas respectivas mulheres, e que a música alta não era nada mais do que apenas um preenchimento de fundo para nossos universos particulares, compartilhados em duplas.
Não sei ao certo quanto tempo ficamos daquela forma na cadeira de praia ao lado da piscina, mas eu me sentia além da Lua naquele momento. A forma como nos entrelaçamos era diferente de qualquer coisa que já havia sentido antes. E se apenas os beijos eram daquela forma, mal podia imaginar como poderia ser a união dos nossos corpos em um só. Meus pensamentos podem ser antiquados e estranhos para aqueles que estão acostumados a terem contato romântico e carnal com outras pessoas, mas isso se deve apenas à como vivi minha vida até então.
Ela me convidou para entrar na casa com ela, e a segui como um fiel cão. Jade disse que havia notado que eu não era como os outros, e quis saber o motivo pelo qual eu estava ali. Contei a ela a verdade, que meus amigos haviam me convencido a participar da sua festa de carnaval na esperança de que eu me envolvesse com uma das amigas de Mariana, que foi precisamente o que ocorreu. Também lhe expliquei que apenas estava consumindo o álcool e o tabaco para me enturmar com todos, e estar próximo em especial dela.
Ao ouvir sobre isso, ela ficou alegre, e talvez até mesmo de forma maliciosa se mostrou interessada em descobrir o que mais eu faria por ela – para ter ela, como ela tão eloquentemente disse. Por mais que eu estivesse ativamente pensando que aquilo não era um bom sinal, mesmo assim não conseguia desistir daquele curso, pois os seus olhos me aprisionavam, e os seus lábios me chamavam. Porém agora, quando tentava beijá-la, ela colocava seu dedo na minha testa, e dizia que eu deveria fazer algo para ela antes.
Dez vezes eu fiz o que ela pediu. E progressivamente seus pedidos se tornaram piores e mais degradantes para mim. Mas nada disso importava, pois eu desejava ela, e cada vez mais, ela estava se tornando receptiva aos meus desejos carnais crescentes. Jade me disse que iria me conceder meu desejo, mas que primeiro eu deveria continuar fazendo suas vontades, e passando pelo seu teste.
Depois que eu já havia me machucado para demonstrar para ela meu desejo e minha devoção, ela permitiu que eu adorasse seu corpo. Quando Jade se repousou por cima de mim, com seu cabelo descendo até meu rosto, pude sentir sua respiração ofegante perto do meu rosto, e por uma última vez, seus olhos hipnóticos olhando profundamente nos meus. Pois então tudo mudou.
Aqueles olhos castanhos pelos quais eu tanto era obcecado, viraram para dentro da sua cabeça, e o que havia do outro lado daqueles orbes enormes era a visão de um pesadelo. As janelas da sua alma se tornaram poços horríficos de amarelo, com pupilas verticais, que me observavam não mais com ternura, mas sim com algo como fome.
O sorriso dela começou a se alargar de forma doentia e perturbadora, rasgando seu rosto cada vez mais, até que era impossível que aquilo diante de mim ainda fosse humano. Uma boca humana não vai de orelha a orelha. E pensando bem, até a última vez que eu tinha percebido, ela não só possuía um par de orelhas, mas também cabelo. Ambas essas características haviam desaparecido da sua cabeça enquanto eu assistia horrorizado à transformação da sua boca. Jade era uma forma absurda com olhos amarelos gigantes, uma boca rasgada, sem cabelo ou orelhas – e algo me dizia que seu nariz estava murchando aos poucos.
Em alguns segundos, sua pele parecia se dissolver diante de mim, como que por uma reação química, pois ela borbulhava e encolhia em amontoados. Mas eles nunca caíam de onde estavam, apenas eram absorvidos pelo que estava abaixo da sua antiga cobertura quente e macia, a qual eu tinha acariciado por tantas horas naquela noite. Era algo duro como escamas, mas que para mim, mais se assemelhava a uma textura muscular.
Durante todo o tempo dessa transformação grotesca, eu estava paralisado, não apenas por medo, ou por choque, e nem mesmo pelas mãos de Jade que me seguravam pelos punhos. Minha paralisia era proveniente de algo mais, algo diferente, que eu não sabia exatamente qual era a fonte, apenas que ela existia e que eu não tinha a capacidade de me mover mais de acordo com minha própria vontade.
— Vocês humanos são tão engraçados. — Jade declarou, e apesar do estado do seu rosto, ela pronunciou todas as sílabas normalmente, como fazia minutos antes. — Você fez absolutamente tudo que eu mandei, sem hesitar nenhuma vez, não importava o quão ruim era. Pelo quê? Por esse corpo? Até mesmo agora em que eu posso sentir o cheiro de medo exalando do seu corpo de primata, ainda consigo sentir o cheiro do seu desejo por mim. Como é possível que vocês sejam tão cegos pelos prazeres carne, que nem mesmo isso possa te atrapalhar?
Não pude responder, pois minha boca se abria, mas nenhum som saía. Quando alguém entrou na sala, onde estávamos, ela moveu apenas um dos seus olhos para observar a pessoa, enquanto o outro se manteve em meu rosto. Em seguida, uma sequência inteligível de estalos, cliques e pequenos exalos guturais foram ouvidos atrás da minha cabeça, mas não pude virar para investigar.
— Eles quebram tão fácil não é mesmo? Esse aqui chegou a níveis que eu não achava possível. E tudo que precisei foi um pouco de feromônios, e quase nada de hipnotismo. Ele realmente caiu sob meus charmes, mas principalmente pelas armadilhas criadas pela sua própria mente. O desejo dele pelo contato íntimo comigo o levou à extremos. É um milagre que essa espécie ainda consiga fazer algo com seus dias, além de participar desses rituais de acasalamento complexo deles. — Jade disse, ainda mantendo seus dois olhos em pontos separados.
— Por que falar na língua deles? — A voz misteriosa por trás de mim indagou.
— Eu gostei desse. Talvez leve ele comigo para tê-lo como algum tipo de escravo ou animal de estimação. Se os nossos machos agissem dessa forma, seria muito mais fácil controlar todos eles, e de gerar nossas ninhadas. Ainda não entendo como as mulheres primatas ainda não dominaram este mundo. — Minha captora discursou, agora mantendo seus dois olhares em mim.
— Provavelmente pois eles as mantêm em um estado perpétuo de subjugamento. As coisas aqui funcionam ao contrário do nosso mundo, lembre-se disso. — A outra mulher-coisa disse. — Agora pare de brincar com sua comida e venha, nosso jantar está servido.
— Não acho que vou jantar hoje. Vou apenas aprender a usar esse pequeno escravo mamífero. Se conseguir adaptar meu controle sobre ele para ser usado nos nossos próprios machos, eu serei a fêmea mais poderosa do mundo. — A coisa que um dia foi Jade declarou, abrindo sua boca podre, revelando uma carreira de dentes carnívoros por trás dos seus dentes humanos falsos. Isso ocorreu apenas para que uma língua bifurcada pudesse lamber meu pescoço.
— Realmente é uma pena que você nunca irá tocar uma mulher humana, Josué. Eu até poderia sentir pena de você, mas o que realmente sinto é o desejo de devorar seus amigos.
E com isso ela se levantou subitamente e desapareceu para fora da casa, me deixando paralisado no sofá. Minha boca ainda estava aberta pela minha tentativa de falar mais cedo. A única coisa que parecia funcionar no meu corpo eram minhas lágrimas, as quais escorriam quentes pelas laterais do meu rosto. Mas também podia sentir um formigamento estranho onde ela havia acabado de me lamber.



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