Por Ordem dos Deuses
Enquanto andava pelas plataformas flutuantes, ansiosa pela chegada dos meus convidados, chequei cada detalhe da festa. Meu vestido flutuante estava impecável, suas abas flutuavam graciosamente com meus movimentos, ele mal encostava em minhas pernas – como deveria ser. Seus movimentos vinham antes dos meus. A decoração retrô, de plataformas flutuantes viradas em todas as direções estava perfeita. Fiz um ótimo trabalho desenhando aquela dimensão mais cedo, pensei satisfeita comigo mesma.
Cada uma delas, dispunha de sua própria torre de alimentação fotônica, perfeitas para meus convidados mais glutões. Na verdade, nem sabia o motivo pelo qual havia convidado tanta gente para minha festa de promoção. Eu nem verdadeiramente gostava de toda aquela gente. Mas é costumeiro, além de sociável, e eu não estava prestes a ser esquecida, ou abandonada socialmente logo depois da minha promoção.
Satisfeita com os preparativos, abri todos os portais simultaneamente, com apenas um gesto. Ao redor da plataforma central – a maior – em que estava, dezenas de portas para outras dimensões se abriram, e delas, transbordaram pessoas. Cada grupo de convidados estava em uma plataforma cúbica, com sua própria movimentação e gravidade. Aos poucos, elas foram todas se unindo à central para que os convidados pudessem me saudar e socializar.
— Já era tempo dessa festa pomposa ter começado. Eu estou nesse vestido desconfortável desde que o sol nasceu. — Disse minha mãe, com sua delicadeza e apoio incondicional.
— Você sabe que o horário daqui não é o mesmo de onde vocês moram. — Disse baixo para que os outros não ouvissem.
— Vai falar com seus amigos importantes, eu só vim por obrigação. — Ela respondeu acidamente, logo depois foi se banhar na luz de uma das torres da plataforma.
— Parabéns, ninguém merece isso mais do que você. — Disse Klau, a outra que competia para a vaga de exploradora sênior. Ela claramente não trazia verdade por trás das suas palavras, mas sua falsa modéstia ainda era mais confortável do que a crueldade da matriarca sob a luz.
— Mal posso esperar para ouvir notícias de civilizações que você contactou. — Disse o meu vizinho planetário, talvez a única pessoa sincera em toda aquela dimensão – que criei dentro da minha residência.
Um a um, eles vieram me parabenizar, alguns com sinceridade, a maioria com inveja ou desgosto, mas eu era obrigada a trazer aquela gente à minha casa. Quem seria eu sem toda aquela pompa e comemoração? Talvez alguém que conseguiria conversar sem notar as inverdades e todos os tons de arrogância, mas definitivamente alguém que não teria uma boa e divertida ocupação.
As plataformas foram se espalhando, cada uma com um grupo heterogêneo de convidados, conversando, rindo, e se alimentando. Todos ali, em mais uma função social, das muitas que nossas posições nos obrigam a frequentar.
Fiquei um tempo parada olhando para todas aquelas pessoas, pensando comigo mesma: “será que eles também pensam como eu e desejam tudo menos estar aqui, mas pelos mesmos motivos que eu, não falam?”
Então, saído do nada, meu superior, o líder do projeto de exploração veio até mim. Ele já tinha falado comigo mais cedo, e como sei que ele sempre está trabalhando, fiquei um pouco apreensiva. Mas naquele momento, ele carregava um sorriso em seu rosto azul. Um sorriso falso.
— Fastag'na, posso te ver por um momento do outro lado da plataforma? — Ele disse, me tirando do grupo de pessoas com quem eu estava. Eles falavam algo sobre terem movimentado um planeta inteiro para salvar uma espécie de extinção, eu não estava prestando muita atenção – tudo tão chato.
— Algo errado? — Perguntei, tentando ser uma boa anfitriã, quando eu sabia muito bem que havia algo errado.
— A sonda que você mandou para observar aquele mundo. Ela acabou de reportar que capturou pelos seus raios espiões, comunicações que indicam preparações para o começo de uma guerra. — Ele respondeu em seu ar sempre sério.
— Mas eles são primitivos, suas guerras não podem destruir seu mundo.
— Essa pode. Eu não quis te incomodar mais cedo, mas as primeiras leituras da sonda, dizem que eles têm armas suficientes para matarem milhões do seu próprio povo.
— E ela diz o motivo desse conflito? — Já estava sentindo que minha festa estava fadada ao fracasso.
— Só que dois blocos de nações primitivas se odeiam o suficiente para destruir o mundo, em uma tentativa patética de provar seu ponto. — Ele explicou gravemente.
Estalei meus dedos e um portal para o interior da sonda se rasgou diante de nós dois. Meu vestido se tornou um revestimento colado sobre minha pele e quase tampou meu rosto, deixando só os olhos e o bico para fora.
— Você é sênior agora Fastag'na, eu confio no seu julgamento. Impeça a guerra, eu vou fazer meu melhor para segurar as coisas aqui. — Meu superior ordenou, se virando de costas e voltando para a outra face da plataforma, onde a festa em minha homenagem continuava.
A sonda era pequena, uma esfera um pouco maior do que eu. Mas seu interior carregava uma dimensão diferente, como nas nossas residências, portanto era como se eu estivesse em um tipo de escritório.
— Qual a situação, Daurin? — Perguntei à inteligência incorpórea que controlava a sonda.
— Bem-vinda, Fastag'na. Jogn já te contou os detalhes? — A voz incorpórea indagou, da sua forma tão educada.
— Sim, o nosso supervisor já me deu o panorama geral. Um tipo de guerra dentro da própria espécie por algum motivo ideológico, e eles têm armas o suficiente para destruir ambos os blocos de nações.
— Simplório, mas adequado. — Daurin disse em tom de superioridade intelectual. — Um dos lados pretende vencer a guerra com apenas um ataque às capitais do outro lado. Para isso, eles têm o elemento da surpresa ao seu lado. Mas algo que eles não suspeitam, é a paranóia dos seus adversários, que todo dia se preparam para o fim dos dias.
— Fim dos dias, quão dramáticos, mesmo que todos eles morram, o tempo continua passando. — Reclamei, me recostando contra um dos painéis.
— Posso sugerir que você não fale isso para eles?
Sua sugestão ficou no ar enquanto eu me movia até a janela, uma abertura minúscula no exterior real da sonda, mas que estava sendo magnificada ao ponto de parecer uma janela normal para mim.
O sol estava à pino sobre a planície gélida sob meus pés. De um lado, veículos brancos brilhavam na neve, indo em direção às instalações inimigas – que também eram enormes pontos brancos brilhando na neve.
— Você pode me explicar onde está a surpresa que você me falou agora há pouco? — Questionei a inteligência mecânica.
— A espécie inteligente predominante deste mundo é noturna. Seus olhos não são adaptados à luz, os veículos brancos na neve durante o dia, causam ardor nos olhos dos observadores nativos, assim como a própria neve. Eles dificilmente verão a chegada do inimigo com seus próprios olhos. — Ele explicou.
Andei de um lado para o outro por um tempo considerando minhas opções. Deixar a guerra acontecer: os agressores não venceriam facilmente por conta da paranoia do lado defensivo, e as mortes iriam se amontoar, como Daurin calculou. Auxiliar um dos lados a vencer para minimizar as mortes: nós estaríamos instaurando uma ditadura global baseada piamente em um ideologia ou outra. Nos revelarmos para ambos os lados simultaneamente: isso pode ter dois desdobramentos, ou eles se unem contra nós, os invasores, ou eles aceitam ambos conversarem comigo como mediadora.
— Daurin, transforme o exterior da sonda em um corpo negro quase absoluto e nos coloque entre os dois grupos. — Ordenei.
— Espero que tenha um plano. — A voz disse enquanto a imagem da janela mudava consideravelmente. A sonda estava se movendo brutalmente na direção do chão, com movimentos bruscos, porém precisos.
O interior da interdimensão mudou do seu branco comum para a projeção fiel da situação no exterior. Era como se eu estivesse voando sobre a neve e os soldados, no lugar do corpo mecânico da sonda negra.
Todo o comboio militar parou. Atrás de mim, onde estava a imitação do complexo de defesa, dezenas de pessoas minúsculas saíram olhando para o céu, provavelmente correndo algum risco de cegueira devido ao sol. Pessoas saíam dos veículos brancos e olhavam para o céu da mesma forma. Dali de cima não tinha como distinguir uma facção da outra, de tão obviamente iguais que eles eram, com diferenças étnicas distinguíveis somente para os olhos da sua própria espécie de certo.
— Nós temos a atenção deles. Faça uma praça negra na neve sob nós e coloque alguns obeliscos em volta com qualquer besteira na nossa escrita. Não queremos que cada lado ache que isso é uma distração do outro lado. Deixe claro que nós não somos daqui. — Expliquei para a máquina.
— Muito bem, gostaria de ler a documentação detalhada sobre esses povos enquanto esperamos suas reações?
— Não, eu vou voltar para minha festa. Você me avisa quando pessoas importantes de ambos os lados estiverem aqui, prontas para seu primeiro contato com outro mundo. — Disse, já transformando meu traje ambiental novamente em meu elegante vestido.
— Eu devo protestar… — Ele começou, mas eu já estava cruzando o portal de volta para a plataforma flutuante.
— Fastag'na! A situação já foi resolvida? — Indagou Jogn, incrédulo.
— Resolvida ainda não, mas já está encaminhada. Estou aqui esperando movimentação por parte dos nativos.
Ele parecia impressionado e estressado simultaneamente. Mas como Jogn sempre estava estressado, me contentei com a expressão positiva como a principal.
— Onde você estava, querida? Achei que tinha ido embora da sua própria festa. — Reclamou uma política que eu nunca havia visto antes.
— Só cuidando de coisa de trabalho, sabe. — Respondi sem graça.
— Nos conte um pouco, adoraria ouvir. — Incentivou um dos companheiros da velha.
— Ah, essas coisas são chatas, uma guerra global aqui, uma disputa territorial e ideológica ali, nada que eu não tenha visto antes. — Tentei falar rápido, querendo escapar daquela conversa.
— Guerra? — Uma outra velha perguntou.
— Um conflito armado, onde pessoas matam umas às outras. — Expliquei.
— Escandaloso que você trabalhe com esse tipo de coisa! — Exclamou um homem por trás da pequena multidão que havia se juntado ao redor do grupo.
— Não, não é nada demais… — Tentei dizer, mas o alvoroço era grande. Aparentemente eles achavam que eu era algum tipo de mercenária.
Eu estava perdida. Minha festa estava se tornando um desastre, e para piorar, as pessoas importantes da sociedade achavam que toda minha linha de ocupação era nada mais que um nome vangloriado para assassinos em massa, ou algo similar. A pessoa comum da nossa sociedade não entende esse conceito por estar há tanto removidos desse passado.
— Senhores, senhores, por favor, nós não começamos essas coisas, elas começam sozinhas, nós muitas vezes paramos elas. — Exclamei, quase que em súplica.
Eles pareciam ainda mais confusos, mas pelo menos seus ataques cessaram. Certamente não iria falar mais com aquelas pessoas. Por isso me movi em direção a outro grupo, em uma plataforma diferente.
— Onde você estava? Você tem que resolver uma discussão aqui. — Falou uma das minhas colegas de ocupação, ela parecia intoxicada com a luz laranja que estava devorando.
— Se fosse só aqui… — Murmurei.
— Então, nosso amigo aqui, — ela apontou para um dos homens ao redor da luz laranja — estava dizendo que um verme engolidor de energia não é capaz de engolir luz, mas eu acho que eles podem. Então quem está certo?
— Sinto te dizer querida, mas ele está certo, eles ficam sob o sol mas é só por causa do calor, não da luz. — Expliquei para o grupo de pessoas intoxicadas.
— Você tem certeza, Fastag'na? — Ela perguntou, embaraçada, enquanto os outros no grupo riam dela. Fiz como quem não sabe, e ela por fim riu também.
Dei alguns passos em direção a outro grupo, mas a voz de Daurin veio no ouvido da minha mente.
— Sugiro que volte, eles estão aqui. — Dei meia volta e fiz caminho para o lado oposto da plataforma, o lado de baixo da mesma, onde o rasgo espaço-temporal do portal estava.
Já com meu traje ambiental no lugar do vestido de gala, entrei na projeção tridimensional da neve, que era a sala do interior da sonda nesse ponto. A imitação do quase-campo-de-batalha era tão realista, que eu me sentia como uma gigante flutuando sobre a praça negra criada pela sonda. Já era noite, e ao redor dos obeliscos, estavam dois grupos de cientistas independentes, imaginei que cada um pertencia a um dos lados ideológicos.
— Anoiteceu rápido, não? — Indaguei.
— É a diferença temporal, na interdimensão onde você mora. O tempo passa mais devagar que aqui no universo externo. Vocês usam isso para sua longevidade relativa. — A voz incorpórea ofereceu.
— E como eles estão engolindo a situação? — Perguntei enquanto analisava as pequenas figuras sob minhas botas.
— Tomei a liberdade de usar figuras mitológicas do passado deste mundo – usando trajes como o seu, – como ilustrações no chão da praça. Eles já chamaram especialistas em arqueologia e os maiores teoristas sobre vida em outros mundos.
— Muito bem. — Declarei com total sinceridade. Aquele plano estabelecia uma base melhor que a que eu tinha em mente para um começo de diálogo. — Posso respirar o ar lá fora? — Indaguei.
— Não por muito tempo sem algum tipo de dano.
— E eles são que tipo de animais?
— Mamíferos.
— Me dê o capacete com rosto de réptil. Mamíferos se assustam facilmente com répteis. Quero mantê-los em estado de atenção. — Enquanto eu falava, o capacete, que mais parecia uma cabeça viva de lagarto, se materializou em minhas mãos. Coloquei-o e transformei as luvas de meu traje em mãos de lagarto – ainda com polegares opostos, claro.
— Abra uma saída, vou dar oi para nossos amigos. — Disse me colocando em posição formal.
— Com o modo teatral de sempre? — Ele indagou, fazendo referência a outros encontros com novas civilizações, que nós tivemos juntos antes.
— Claro, mas diminua consideravelmente a intensidade da luz, não queremos cegar nossos anfitriões. Mas aumente a emissão de fumaça para compensar.
— As linguagens predominantes dos povos já estão presentes no capacete, ele irá traduzir automaticamente, baseado no uniforme ou insígnias de quem você estiver olhando diretamente. — A máquina informou.
— Quem eu seria sem você? — Perguntei retoricamente, apreciando sua preparação.
— Uma planejadora de festas medíocre.
O interior interdimensional da sonda voltou a ser seu branco sem detalhes, e uma porta se abriu diante de mim.
Dei dois passos para frente, e vi que os soldados de ambos os blocos estavam lado a lado apontando suas armas primitivas para mim, porém cegados pela luz que emanava por trás de mim. Coloquei ambos os pés na neve e então a porta se fechou. Isso cessou a apresentação de luzes, mas minha forma ainda estava envolta na névoa que saiu junto comigo.
Eles estavam olhando para mim, atônitos. Mamíferos boquiabertos, maravilhados, assustados. Naquele momento, eles certamente estavam encontrando uma segurança maior nos seus irmãos de espécie ao seu lado – independente de ideologia – do que comigo, uma “réptil” vinda do espaço.
Esperei por alguns momentos antes de falar qualquer coisa. Esse era o momento mais importante de toda a operação. Esperei até que um deles viesse até mim. Um cientista discutiu com seus colegas e veio até mim, fazendo um tipo de saudação. Imitei seu gesto e por fim falei, olhando diretamente para ele, para que meu tradutor funcionasse.
— Eu sou Fastag'na, e venho em amizade à todo seu povo.
A multidão começou a se entreolhar, comentando entre si em burburinhos. Cientistas do bloco oposto começaram a gesticular vigorosamente, provavelmente em deferência à minha fala no idioma dos seus inimigos.
— Não há motivo para acreditar que eu favoreço um grupo sobre o outro. — Declarei, olhando para os cientistas do lado que estava reclamando. Suas expressões fizeram toda a viagem valer a pena.
— Tragam seus líderes e seus especialistas. Tragam seus estudiosos. E então falarei com seu povo. — Fiz minhas exigências para o cientista que me recebeu primeiro.
Dei meia volta e retornei para a sonda, atravessando a parede ao invés de passar por uma porta. Não queria causar dano permanente aos olhos das pequenas criaturas noturnas.
— Você não vai voltar para sua festa, vai? — A voz me perguntou incrédula.
— Eu sou mais que capaz de lidar com as duas coisas ao mesmo tempo. — Disse, removendo meu capacete e transformando meu traje em um vestido de gala.
— Te avisarei quando pessoas importantes aparecerem. — Ele disse, um pouco triste.
— Sim. E trate de mandar um aviso sobre os acontecimentos para todos os entusiastas de vida em outros mundos que você encontrar. Não queremos que as autoridades apaguem nosso trabalho aqui. Quanto maior o alvoroço, melhor.
Fui andando rápido em direção ao portal e estava de volta no lado oculto da plataforma flutuante. Andando mais calmamente, cheguei do outro lado, onde estavam meus convidados em suas mais diversas configurações sociais, sobre plataformas em todo tipo de orientação espacial.
— Está tudo bem com você? Te vejo correndo de um lado para o outro. — Disse uma senhora que se destacou de um grupo de cientistas.
— Sim, sim, claro, só tentando ser uma boa anfitriã, você sabe a importância dessa festa. — Respondi sem graça, com um sorriso nervoso estampado no rosto.
— Sei sim, mas na verdade depois de todo esse tempo e de todas as festas que eu dei para essa mesma sociedade, não sinto que isso fez a menor diferença para mim pessoalmente. Só serviu para me manter em boas graças com essa gente. Isso para eles me convidarem para as suas festas. — Ela disse francamente.
— Mas é exatamente as boas graças dessa gente que eu preciso para continuar com minha carreira intacta. — Confessei, já me sentindo exausta e aliviada por tirar esse peso da mente.
— Mas não deveria ser, nosso sucesso deveria ser determinado pelos nossos próprios méritos, não por quem está ou deixa de estar em nossos círculos sociais.
— Adoraria que nossa sociedade fosse assim. Na minha ocupação, eu encontro todo tipo de sociedade e cultura, e muitos deles não dão nem um pouco de atenção para funções sociais como essas. Mas simplesmente não é assim que nossos mundos funcionam. Então tenho que continuar a atuação de boa anfitriã. — Elaborei sobre meus ressentimentos.
— Então vá e seja quem eles esperam que você seja. — Ela disse desapontada.
Cumprimentei mais algumas pessoas pela segunda vez na festa, muito importante ser vista e ser ouvida. Todo o sucesso do que estava fazendo ali dependia de que no futuro, aquelas pessoas pudessem falar que se divertiram na minha festa, e se lembrem de me convidar para as delas.
— Eles estão aqui. — Veio a voz de Daurin no ouvido da minha mente, como se fosse minha imaginação, mas era claramente uma entidade externa me contactando.
— Qual é o grau dessa dilatação temporal? — Indaguei já me apressando em direção ao portal, abandonando minha festa mais uma vez.
— Não tanto quanto parece, mas os nativos já cercaram a sonda. — Ele disse, plácido.
No interior branco sem detalhes da sonda, mais uma vez transformei meu vestido em traje ambiental e coloquei o capacete de réptil. Olhando pela janela, pude ver que algum tipo de estrutura havia sido montada ao redor da pequena sonda.
— Qual a situação lá fora? — Indaguei para a voz sem corpo.
— Desde que você saiu, ambos os lados começaram a cooperar para a construção de uma pequena bolha em volta da praça – para manter segredo. Mas como por suas instruções, avisei entusiastas de vida em outros mundos. E pessoas de todas as nações estão se juntando nos limites de onde as forças armadas envolvidas os deixam chegar. Eles dificilmente manterão esse segredo por muito tempo. — Daurin resumiu.
— Bem, é tempo de fazer outra apresentação para eles. Gere uns efeitos antes de abrir a saída, para que os líderes estejam em posição. Eu quero falar com eles. — Disse, me posicionando onde a saída seria feita.
Depois de algum tipo de apresentação teatral de fumaça, a abertura se fez diante de mim. Nós estávamos dentro de um hemisfério, feito de algum tipo de tecido, sustentado por vigas curvas de metal. A neve havia sido limpada de cima da praça negra. Perante a mim estavam duas pessoas atrás de uma espécie de bancada, ambas de pé.
Dei alguns passos em direção aos políticos, seus rostos de pavor e encantamento mesclados era o meu alimento, o motivo de eu fazer aquilo. O motivo de eu não mostrar meu próprio rosto, de mantê-los desconfortáveis. Aquilo me dava satisfação.
— Vocês são os líderes deste mundo? — Perguntei primeiramente à mulher.
— Sim, eu sou a líder do Bloco Oriental. — Ela respondeu com orgulho sob a voz trêmula.
— E eu lidero o Bloco Ocidental. — Disse o homem baixinho.
— Ótimo, então são vocês que quase destruíram as vidas de milhões de pequenos mamíferos inocentes. — Falei de forma seca.
Ambos protestaram, claramente ofendidos pelo julgamento feito por uma aberração escamosa vinda de outro mundo.
— Quem você se considera para interferir em nossos assuntos internos? — Questionou agressivamente o homem.
— Eu sou Fastag'na, aquela que pode fazer tudo isso acabar em apenas um instante. — Ergui minha mão e usei um raio de luz invisível para rasgar e abrir a semiesfera de lona, expondo minha imagem para toda a multidão que estava do lado de fora.
Assim que o breve susto passou, todos os soldados estavam com suas pequenas armas apontadas para mim, preparados para matar seu primeiro visitante.
— Eu sou Fastag'na, aquela que pode tornar inútil todas as suas armas. — Apontei uma das garras da minha luva transmutada em mão reptiliana, para o cano de uma das primitivas armas de projéteis cinéticos. Novamente raios de luz invisível saltaram de seus emissores para fazer minha vontade, derretendo o cano da arma.
Os outros continuavam apontando seus tubos de fogo para mim, mas eles não tinham mais certeza da sua letalidade. Eles só tinham dúvidas e medo em seus olhos, talvez até mesmo respeito.
— Eu sou Fastag'na, aquela que veio impedir que vocês destruam o seu mundo. — Coloquei ambas as mãos sobre a mesa. — Vocês podem matar um ao outro na minha frente, mas eu não vou permitir que vocês ordenem que milhões sejam mortos pela sua disputa.
Os dois líderes se entreolharam, assustados e provavelmente imaginando que eu estava ali para dominá-los, para destruir sua espécie eu mesma, possivelmente para usá-los como fonte de alimento. Por isso meu disfarce de sangue-frio.
— E você então sugere por meio desse vulgar uso de força que ambos devemos nos submeter à sua vontade? — Indagou a política.
— Não, eu simplesmente aponto que vocês não são a maior força aqui, e que se eu não quiser que a sua guerra aconteça, ela não irá acontecer. — Eles estavam prontos para meu plano agora.
— Então você irá nos policiar baseando-se em sua própria moral?! — Disse o homem, indignado.
— A única forma de evitar a intromissão das minhas mãos escamosas na sua política interna, é se vocês pararem de brigar e passarem a se ajudar, como fizeram para me esconder do seu povo. — Exclamei, gesticulando para as vigas metálicas e para as multidões que estavam assistindo tudo.
— Se vocês não estiverem a ponto de se matarem, eu não preciso vir aqui guardar os seus brinquedos, não é mesmo? — Completei.
— Convivência pacífica? — Perguntou a mulher.
— Convivência harmoniosa e trabalho proativo para a integração dos blocos, sem o descarte de nenhuma das suas ideologias. Elas podem conviver. Elas podem se contradizer, mas o local para suas discussões é em fóruns políticos e em instituições de ensino, não em campos de batalha. Resolvam seus problemas com suas vozes, não com suas armas. — Discursei para todos ouvirem.
— E se ser bom com seu vizinho não for razão suficiente, façam isso acontecer para que eu não precise voltar aqui. — Disse só para os políticos ouvirem.
Antes mesmo que eles pudessem falar algo, me virei e marchei de volta para a sonda, atravessando a parede novamente, adentrando o interior branco sem detalhes.
— Daurin, abra um canal para que eu possa falar para todos ouvirem lá fora, nos dois idiomas. — Pedi.
— Feito. — Ele respondeu.
— Eu sou Fastag'na, a cruel salvadora de mundos. Lutem contra seus vizinhos e corram o risco. — Gesticulei para cortar a transmissão de voz.
Removi o capacete, finalmente minha cara azul de bico estava livre para respirar. Transformei meu traje novamente num vestido de gala. Talvez nem mesmo fosse o mesmo modelo de antes, mas isso não importava mais.
— Daurin, vamos sair daqui, mas antes, não esqueça de fundir os sistemas de lançamento de mísseis e de desativar os explosivos. — Ordenei.
— Feito, já estamos saindo da atmosfera. E gostaria de dizer, seus métodos podem ser considerados pouco ortodoxos, mas não podemos contestar seu sucesso. — A voz me disse.
— Obrigada Daurin, você é provavelmente o único que vê assim, só você e o supervisor. Mas de qualquer forma, não esqueça de deixar uma sonda menor monitorando a situação, pretendo cumprir minha palavra e retornar em caso de guerra. — Instrui.
— Pare de se preocupar, volte para sua festa, Fastag'na.
Eu corri para o portal aberto e atravessei pela última vez. Cruzei o espaço até o lado superior da plataforma até minha festa. Muitos estavam saindo já pelos seus portais, de volta para seus mundos, suas interdimensões espalhadas ao longo do universo.
— A situação está contida? — Indagou Jogn, vindo até mim.
— Sim, tudo continuará pacífico, os detalhes estão com o Daurin. — Respondi.
— Daurin? — Ele perguntou.
— A inteligência da sonda. — Expliquei.
— Tudo bem. Bom trabalho Fastag'na, sua festa pode ter acabado mas eu aprecio suas ações hoje.
— Minha carreira está acabada, não é? — Eu perguntei, me sentindo um pouco tonta.
— A minha festa de ascensão também terminou assim. Eu parei um conflito interestelar enquanto a elite da sociedade se banhava nas luzes laranjas da minha residência. — Ele disse.
— E como você se recuperou socialmente?
— Se um dia eu me recuperar, te aviso. — Jogn disse, com um raro sorriso sincero e se virou, indo para seu portal.
Olhando ao meu redor, eu estava sozinha, só minha mãe ainda estava lá, a primeira a chegar e última a sair. Não por apreciação ao meu esforço, mas para manter as suas aparências sociais de boa e dedicada mãe.
Os enfeites ainda estavam em perfeito estado, tudo que eu passei tanto tempo desenhando e planejando estava perfeito, cada detalhe e cada intenção, apesar dos outros da alta sociedade não terem apreciado.
— Você não conseguiu fazer uma mísera festa, não sei como eles te dão controle de equipamentos nessa sua ocupação. — Ela teve a graça de dizer antes de sair.
Todos ali podiam não ver ou entender minhas ações, mas como aquela cientista velha me disse, o importante são nossas ações e não como os outros nos vêem. Independente de como aquilo ali terminou, aqueles mamíferos noturnos podem agradecer à uma salvadora dos céus, um monstro escamoso que os salvou da obliteração certa, e isso é suficiente para mim. Eu sou Fastag'na, a cruel e injustiçada salvadora de mundos.



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