O Mistério das Areias Brancas

Arrastando minhas botas pesadas pelas finas areias brancas, olhei uma última vez para trás. As montanhas verticais me encaravam como se rissem de mim. Suas frentes como carapaças, sombras como olhos esticados em desdém. Claro que era apenas minha imaginação correndo solta, a pressão tanto do isolamento quanto do seu oposto, vivendo por tanto tempo, tão perto, de outras duas pessoas. Tão, tão perto. Não sabia se preferia o isolamento naquele planeta vazio ou o aperto desconfortável do transporte.

Mas para melhor ou para pior, já era quase noite na nossa última rotação naquele mundo. Ali não encontramos nada, não sei quem esperava algo. Nada no sistema todo. Nenhum dos planetas rochosos dentro da zona habitável da estrela tinham algo orgânico.

E depois de analisar, observar e catalogar mineral atrás de mineral e gás atrás de gás, eu e meus dois colegas de exploração estávamos prontos – finalmente – para sair dali. Nosso transporte estava esperando no cume de uma colina de pedra. Atrás dele a estrela se punha, suas sombras me engolindo.

Mas nem mesmo a horrível proximidade dentro do transporte intrasistêmico era suficiente para me deixar sem vontade de sair de dentro daquele traje de pressão desconfortável. Na verdade, ele era confortável, pelas primeiras rotações, depois disso era como se ele começasse a te agarrar, cada movimento mais pesado que o anterior. Eu sabia que isso só podia ser estresse e fadiga. Claro, os painéis solares nas costas produziam energia para os pequenos motores que auxiliavam o seu usuário com movimentos e com a sustentação do seu corpo. E eu sabia bem o quanto havia feito uso desse auxílio naquela gravidade.

No cume da colina, estava a esfera que era nosso transporte, e eu ao seu lado. Estendendo os tentáculos do meu corpo adiante, encostei no casco externo do veículo, e reconhecendo a assinatura única do meu traje, a parede passou a ser maleável, quase que líquida, para minha passagem. Ao passar, o casco externo se tornou sólido mais uma vez, e então eu estava na pequena comporta de descontaminação.

Com o traje completamente selado, não era possível que eu pessoalmente estivesse contaminado com algo – nem mesmo havia um mísero patógeno naquele planeta para me infectar, – mas independente disso, os gases e luzes que ocupavam a sala, eram importantes para esterilizar o exterior da minha roupa.

Feito esse processo, finalmente pude tirar o pesado traje e ficar à vontade com minha carapaça ao ar – reciclado – livre. Encostando meus tentáculos no casco interior agora, ele reconheceu minha identidade biológica, e como o exterior, se tornou maleável para permitir minha entrada na área de convivência.

Dentro, pude ver que meus dois companheiros já estavam lá. Talvez meu cansaço com aquela expedição tenha causado um atraso, mas como eles ainda estavam comendo, imaginei que eles haviam acabado de chegar também.

— Mais uma rocha estéril para a coleção. — Estalou Biólogo-637, enquanto usava sua boca para sugar uma massa de carne sintética, que estava sobre a mesa.

— Uma rocha placas tectônicas ativas para a coleção. — Estalou Geólogo-558, também sugando carne. Mas ele estava deitado no chão, se deixando ser esmagado pela gravidade.

— Outra rocha sem viabilidade habitacional, fazendo um total de quatro nesse sistema. Quatro de quatro, todas inviáveis. — Estalei de volta, indo até o dispensador de carne para pegar um pouco daquela massa deliciosa.

— E eu estava me perguntando se dessa vez os Astrônomos iam ter acertado com suas observações de viabilidade. — Disse o Geólogo, estalando ironicamente as pinças da sua nuca.

— Eles nunca acertam, é por isso que eu tenho que vir aqui sofrer com vocês. — Falei enquanto sugava minha massa de carne crua.

Depois do breve momento de camaradaria na sala comum, voltamos ao nosso silêncio habitual. Vivendo tanto tempo tão perto daquela forma, sem privacidade alguma, tirava qualquer vontade de socialização que poderíamos ter. Falamos uns com os outros somente o essencial.

— É tempo de sair daqui. — Disse indo em direção à cabine de pilotagem que ficava no topo da esfera.

Usando meus tentáculos e pernas, escalei a rede que levava até a entrada. Lá me acomodei na poltrona, enrolei os controles apropriados com cada um dos meus seis membros superiores, e comecei os preparativos para a decolagem.

Com os propulsores montados ao longo do casco do interior do transporte, ele ergueu vôo, e como um pássaro sem asas, nos levou aos céus. Seu casco externo repelindo gases atmosféricos, subimos envoltos em uma cápsula de vácuo, rapidamente deixando a atmosfera do planeta estéril para trás.

Um curso foi traçado para a parte interestelar do nosso transporte, a qual estava fora da heliosfera do sistema. Ajustei a velocidade, calculei a estimativa de tempo para aquela viagem, e retornei para a sala comum.

— Dezessete ciclos. — Estalei de forma simples. Eles sabiam que isso era referente ao tempo de viagem até a outra metade do transporte exploratório.

O explorador era composto de duas partes que se separavam, a esfera e o acelerador de hiperluz. A esfera – onde estávamos, – era usada como habitat para a tripulação, era a casa de instrumentos, trajes de pressão, ferramentas, e o centro de controle de tudo, além de ser usado para viagem dentro do sistema e para pousar e decolar dos corpos cósmicos. O acelerador era usado como o transporte interestelar, ele era consideravelmente maior que a esfera – a qual só se encaixa no seu interior, – e usava hiperluz para vencer as distâncias entre as estrelas. Mas como sua velocidade era um perigo para sua própria integridade física, ele só era usado fora do sistema, onde não há nada mais que partículas no vácuo.

Passamos o período de sono em silêncio dentro da sala comum, nossas extremidades quase encostando umas nas outras. A sala era um simples círculo ao redor de uma mesa. O resto da esfera era somente equipamento e máquinas. O frio era desconfortável, o cheiro forte dos corpos tão próximos ainda pior, mas tudo seria recompensado quando voltássemos para a base mais próxima.

Eu estava com os olhos fechados – meditando, tentando me colocar em um tipo de transe, – quando começou. Os estalos de Biólogo-637 pareciam estar longe, a princípio imaginei que não eram reais, pois se fosse algo importante, ele teria encostado em mim para chamar minha atenção. Mas então um tentáculo encostou sobre minha carapaça.

— Computador-471. — Chamou Geólogo-558.

— É algo importante? — Indaguei.

— Eu sinto que podemos ter problemas, de natureza biológica. — Estalou Biólogo-637.

— Ele está sentindo coceiras muito fortes sob sua carapaça e seus tentáculos. — Explicou o geólogo.

— Poderia ser alguma condição que veio com você da base? — Perguntei, achando impossível que possa ter vindo de algum dos planetas que visitamos.

— Não, meus exames deram todos nominais, — começou o biólogo — e eu obviamente não removi meu traje de pressão em nenhum momento durante as visitas, se eu tivesse, teria sufocado ali mesmo. Mas suponho que seja possível que a descontaminação tenha falhado e eu tenha tido contato com algo que estava no exterior da minha roupa.

— Mas seu trabalho apontou que não havia presença de vida no planeta. — Disse o geólogo.

— Eu posso ter deixado algo passar. — Admitiu tristemente.

— Não é como se desse para fazer uma quarentena aqui nesse aperto. — Reclamou o geólogo.

Nesse momento, todo o desespero começou a vir. Comecei a senti-lo, assim como vi nas expressões corporais do Geólogo-558. Nós estávamos desesperados com a ideia de que aquilo era transmissível, e de que presos naquela cabine minúscula, iríamos sem dúvidas sermos infectados pelo mesmo que nosso colega tinha. Então uma ideia óbvia me veio à mente.

— Biólogo-637, vá para a comporta de descontaminação e coloque o seu traje. Ele talvez nos proteja do que você tem, pelo menos um pouco, enquanto eu e o Geólogo-558 vamos tentar descobrir a falha no sistema. — Expliquei enquanto basicamente subia em cima do meu colega saudável, a fim de que o doente pudesse passar para a comporta sem encostar em nós.

Depois dele sumir através da parede metálica sólida, eu e meu colega estávamos na mesma situação e tínhamos muito a discutir.

— Se aquilo é transmissível pelo ar, nós já temos. — Disse preocupado.

— Nós nem sabemos se é transmissível, ou se ele pegou aqui nesse sistema. — Ele disse, tentando ser otimista.

— Nós sabemos que os exames dele eram nominais antes de sair da base, e que nós estamos aqui esse tempo todo e nenhum sintoma antes disso. Ele foi infectado aqui, mas como?

— Descobrir isso é seu trabalho, Computador, eu vou colocar o meu traje e tentar cuidar dele. Nós não sabemos o que poderia ser essa doença, e eu não quero a morte dele na minha consciência. — Disse o geólogo, estalando tristeza.

Ele foi em direção à comporta e atravessou a parede sólida, enquanto eu fui até o computador mecânico da esfera para tentar conseguir alguma informação. Sabendo que alguma doença conhecida teria sido capturada pelos exames na base de fronteira, foquei minha pesquisa em coisas que poderiam causar o sintoma que ele estava exibindo. E sinceramente o prognóstico não era bom, nada conhecido causaria aquilo, além de radiação, mas isso é protegido pelos trajes, além de que todos nós estávamos na mesma região do mesmo planeta. Se fosse a radiação que atravessou o seu traje, todos nós estaríamos doentes naquele ponto.

Mas outro ponto importante para pesquisa, tratamentos e drogas. Além de soro anti-radiação para doses leves, presente na esfera, só tínhamos disponível um líquido para causar dormência no corpo, para que ele não sentisse a coceira ou uma possível dor futura.

Quando desci da cabine, diante de mim estava o geólogo em seu traje, linguagem corporal tensa.

— Melhor você colocar o seu traje e vir ver isso. — Ele estalou.

Fui até a comporta pela qual entrei pela última vez, onde estaria meu traje na parede. Vesti-o, me sentindo novamente preso dentro daquela prisão móvel. É claro que me sentia preocupado com o estado de saúde do nosso biólogo. Mas minha maior preocupação naquele ponto, era que nós não poderíamos ir pra casa, já que fomos expostos à sua doença misteriosa.

Saí da comporta, dentro do meu traje pesado, me movendo normalmente pela cabine, a qual tinha sua gravidade regulada para o nosso normal, ignorando a taxa de aceleração do veículo – que enquanto tudo isso acontecia, continuava indiferente, caindo pelo vazio, a velocidades incríveis, em direção ao fraco sinal da outra metade do Explorador Interestelar.

Ao entrar na comporta onde estava o biólogo, imediatamente me senti ofendido pelo que via através dos meus três olhos. Ele estava deitado sobre o traje, não usando ele, mas suas extremidades, os seis tentáculos e ambas as pernas estavam inchados. O biólogo dificilmente seria capaz de se levantar ou de manipular algum objeto no estado em que se encontrava. Não quis imaginar se havia algum cheiro associado àquela imagem.

— Você piorou nesse pouco tempo? — Indaguei.

— Sim, eu não consegui colocar o traje por causa dos tentáculos inchados. — Ele respondeu, como se estivesse cansado.

Então estava óbvio que nós não poderíamos tirar nossos trajes, já que ele estava incapaz de colocar o dele. A situação estava se deteriorando rápido, muito mais rápido do que eu imaginava. E pelo que temia, não seríamos capazes de chegar em ajuda a tempo suficiente para fazer alguma diferença, se aquela enfermidade fosse realmente letal.

— Eu vou buscar drogas para te deixar mais confortável. — Declarei, saindo pela parede em seu estado maleável.

Na sala comum estava o geólogo me esperando.

— Ele está piorando rápido. — O geólogo disse preocupado.

— Isso não parece nada bom. Ele pode estar infectando nossos trajes toda vez que chegamos do lado dele, e dessa forma não seremos capazes nem de comer sem perigo. — Reclamei.

— Você não parece preocupado com ele nem um pouco mais do que está preocupado com si mesmo. — Ele me julgou.

— É claro que eu estou, nós não podemos fazer nada por ele além de enchê-lo de drogas e ficar assistindo seu corpo sofrer. — Estalei indo em direção à parede oposta. — E falando das drogas, eu tenho que pegá-las, líquidos para coceira, dor e inchaço. — Falei enquanto manipulava os controles do sintetizador na parede.

Pelos próximos dois ciclos, os remédios seguraram sua condição de piorar, o tratamento parecia surtir efeito. Geólogo-558 passava todo seu tempo junto ao doente, e eu ficava na sala comum, procurando informações no computador e rodando simulações, tentando descobrir qual teria sido o problema no sistema de descontaminação que causou aquilo.

Mas no terceiro ciclo, bolhas negras surgiram nas dobras das peças da sua carapaça natural. Elas pareciam algo entre uma queimadura química grave e uma doença. Aquelas bolhas provavelmente estavam cheias de algum tipo de secreção, que uma vez estouradas, lançariam líquido infeccioso pelo chão da comporta, piorando ainda mais nossas condições. Ou poderia ser algum tipo de pólen ou esporos que tomariam nosso sistema de reciclagem de ar. A situação poderia piorar exponencialmente, mas o nosso geólogo continuava positivo.

No quarto ciclo a situação se selou. O biólogo estava cego. Eu estava dormindo do lado do sintetizador quando o geólogo me acordou.

— Ele não consegue mais ver, por nenhum dos olhos. — Sua preocupação e derrota eram palpáveis em sua expressão corporal.

— E eu não tenho nenhuma droga para cegueira aqui. — Disse, seguindo fatos.

— Você não consegue fazer nada mais útil do que ficar aí sentado me dizendo aquilo que já sei? — Ele indagou irritado.

— Olha, não, nenhum de nós tem. Nem mesmo você que ciclo após ciclo, desperdiça seu tempo lá na comporta assistindo ele morrer aos poucos, tentando bancar de médico. — Acusei sem me mover, só estalando minha nuca.

Ele não foi capaz de responder, só virou transtornado e voltou para a comporta onde o morimbundo estava. Continuei sentado ali, pois enquanto nós não chegássemos em um sistema habitado, ele não receberia ajuda. E já estando cego apenas no quarto ciclo, eu não tinha esperanças sobre uma recuperação.

Antes mesmo do quinto ciclo, quando fui levar drogas para a dor, notei que ele sangrava dos três olhos, e quando chamei atenção para o fato, ele se agitou e o sangramento aumentou. Tudo que não era coberto pela carapaça estava inchado, tudo coçava, seus olhos cegos ardiam e sangravam, suas bolhas causando dor absurda nas dobras da armadura natural do seu corpo. O biólogo era o retrato de pestilência e sofrimento, eu não aguentava mais um instante ao lado dele naquela situação.

Dois ciclos depois, após muita dor e sofrimento, ele finalmente morreu, em uma cama feita por fluidos escorridos do seu próprio corpo. Espalhado pelo chão da comporta em que estava, ele morreu agonizando durante o período de sono.

E ao chegarmos na base, nenhum de nós estava infectado. Não era transmissível, seja lá o que matou o Biólogo-637.

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