Sepulcro no Vazio
Adentrei a grande estrutura, segurando por um cabo. Imediatamente percebi, em ambos lados, grandes ilustrações – figuras que, para mim, lembravam serpentes com quatro membros superiores e cabeças como cogumelos. Seus corpos eram vermiformes, como uma grande cauda, esticando a partir dos seus tóraxes, os quais continham dois pares de membros.
Essas figuras estavam escavadas no concreto das paredes, em baixo relevo fino, um trabalho artesão. Elas foram feitas entre pares de pilares, os quais mais aparentavam ser como esculturas que sustentavam o teto. Quando virei minha iluminação sobre elas, vi que na verdade, também eram representações das mesmas criaturas. Dois de seus membros estavam sustentando o topo do pilar por cima de sua ampla cabeça, enquanto as outras duas estavam sobre seu “abdômen”, fazendo algum tipo de símbolo com suas terminações manipuladoras.
Mas antes de prosseguir, deveria contar como me encontrei dentro daquele local extraordinário. Em uma rota comum de troca entre os mundos de Anir e Fabri, os sensores do meu transporte de carga detectaram algum tipo de estrutura sozinha no vazio. Pelo sistema de modelação tridimensional, ela aparentava ser algum tipo de templo, sem nenhum tipo de propulsor perceptível, apenas pilares em volta de uma caixa de concreto. E havia um tipo de afunilamento em seu lado superior, como um tipo de telhado, algo sem motivo algum no vácuo entre mundos. Para mim era como se algo tivesse somente removido uma construção da superfície de um planeta e atirado-a aos céus.
Atiçado pela curiosidade, levei minha embarcação até uma posição relativa de atracagem de frente para o templo. Através de uma análise visual feita pelas janelas, determinei que realmente se tratava de uma construção superficial, pelo menos em arquitetura. Em questão da construção em si, ela parecia ter sido feita para suportar os extremos cósmicos. Então, contra meu melhor julgamento, vesti meu traje espacial. Deixei o transporte sob o controle total da sua própria mente artificial, e saí em direção à grande porta que adornava a fachada do objeto.
Perto desse ponto estrutural, pude observar os seus detalhes, vários símbolos e marcas que somente posso descrever como algum tipo de escrita desconhecida para mim. Elas preenchiam o grande espaço bidimensional da frente dos portões sólidos que impediam minha visão da área interna. Usando meu equipamento de sensores, percebi então que ela não estava lacrada, apenas fechada. Detalhe que demonstrava que não havia nenhum tipo de atmosfera dentro do objeto misterioso. Após algumas tentativas, consegui mover a massa desafiadora da porta e com isso, ganhei acesso ao interior.
Pensando em retrospecto, não dei atenção aos pilares exteriores, não os coloquei sob minhas luzes. Eles apenas existiram na escuridão interestelar. Porém, imagino que sua aparência tenha semelhança ou seja igual aos pilares internos – as esculturas reptilianas vermiformes e os seus símbolos gesticulados.
Uma vez dentro da antecâmara escura, onde as imagens em pedra me observavam, analisei tudo. A grande riqueza em detalhes da construção era surpreendente, desenhos e mais desenhos, como o chão e o teto, opostos em relação às paredes, porém iguais em decoração. Ambos serviam aos sensores visuais padrões geométricos complicados, que interagiam entre si em uma orgia de linhas e formas sobrepostas. Apesar da descrição, esses padrões não promoviam caos ou poluição visual, mas harmonia e interação entre figuras tão diferentes entre si. Mas ao mesmo tempo, minha mente não compreendia como elas poderiam estar unidas sem ocasionar ao menos algum tipo extremo de dessincronização.
A sala era composta, portanto, primariamente de espaço vazio. Em ambos os lados se estendiam os pilares, guardando as figuras em baixo relevo das serpentes com membros. E nos outros dois lados perpendiculares, portas adornavam, igualmente grandiosas em proporções. Uma estava aberta, aquela que usei para entrar, e a outra ainda fechada, estava diante de mim.
Do chão ao teto, o corpo atravessável de concreto e metal da porta, apresentava seu esplendor ancestral – ainda mais rico em detalhes e marcas que pareciam ser caracteres de idioma escrito, que sua contraparte exterior. Essa porta também dispunha de um grande “rosto” esculpido em alto relevo em seu centro. Essa escultura por sua vez parecia mais foto-realista, sua abundância em detalhes era extravagante, até mesmo parecia que realmente havia um daqueles seres me encarando. Seus olhos, que eram seis, se passavam em minha percepção, como grandes gemas as quais resplancenciam quando em contato com minha luz.
Coloquei um dos meus agrupamentos de tentáculos sobre a superfície, no centro do colossal retrato tridimensional, e por um momento nada aconteceu. Então empurrei com força, me apoiando no chão, com o intuito de fazer com que a passagem se abrisse como a anterior. Só que dessa vez, seus olhos se iluminaram por si só, todos os seis, e seu olhar invacilante estava sobre mim, brilhando radiantemente em uma cor púrpura. Naquele momento, senti minha mente doer através dos meus olhos.
Depois de momentos intensos, a dor cessou. Enquanto o medo lutou para tomar controle sobre mim, luzes se fizeram reais. Ao redor de mim, em toda a câmara, os quatro pilares dispararam suas contemplações púrpuras contra meu corpo. As linhas e formas dispostas antes meramente como decorações no teto e chão, então se tornavam irradiantes, com luz branca para as linhas e verde para as formas geométricas, que se fundiam em uma pluralidade inesquecível.
Por vários momentos, isso foi tudo que aconteceu. Mas percebi que a forma do rosto havia se aberto ao meio, e ambas metades deslizaram arrastadas pelo corpo maior da porta da qual faziam parte. Isso fez com que elas fossem para lados opostos do portal, abrindo passagem para seu inesperado visitante. Ou seria minha visita esperada de alguma forma?
Flutuando meu caminho até a próxima sala, me deparei com um grande salão, uma câmara digna de todos os detalhes colocados somente na entrada. Dentro daquele local, vi dúzias de estátuas de metal, incontáveis formas tridimensionais indefinidas que saíam do chão como protuberâncias de ângulos retos e superfícies detalhadas. As paredes dispunham de diversas máquinas indistinguíveis e cristais, os quais chamavam minha atenção. O teto por sua vez, em contraste ao chão, se expandia como um funil reto para cima, terminando em uma comparativamente pequena janela para o vazio eterno. Essa janela, em sua grandeza individual, projetava suas imagens diretamente em um tipo de caixa retangular que existia no centro da sala.
Resistindo ao chamado dos cristais, me dirigi até a caixa central. Toda a arquitetura interna da câmara e suas decorações apontavam e se derivavam do objeto central – principalmente os desenhos iluminados do chão, que emanavam ao longo da sala, como um vórtex em direção ao seu horizonte de evento. Chegando cada vez mais próximo, consegui finalmente ver o interior do retângulo. Seu conteúdo era uma das serpentes que adornam toda a construção. Porém, aquela individualmente, era orgânica. Eu estava diante do cadáver de um ser da qual a espécie desconhecia.
Seu sarcófago estava tampado com algum tipo de material invisível. E pela falta do seu estado de decomposição, tive que assumir que o interior do ataúde, fosse igualmente desprovido de qualquer tipo de atmosfera e pressurização. Símbolos que notei em ambas as portas estavam presentes nas laterais do artefato, assim como marcas escritas, que disparavam luminosidade. Ele foi construído direto no chão, fazendo com que ambos fossem uma única parte estrutural. Da mesma forma, as protuberâncias ao redor da sala, que eram todas anguladas de tal forma, que apontavam para o sepulcro. O efeito visual, era como uma montanha com falhas, grandes falhas, mas eu imaginava que se estivesse em um ponto específico da câmara funerária, eu poderia ver a disposição das decorações como algum tipo de monte com a caixa no topo.
Ao tocar no principal símbolo do objeto, todas as luzes sumiram, tudo desapareceu, até mesmo a clarabóia sobre o ilustre falecido. Então imagens apareceram diante de mim – como um sonho, apesar de que eu não podia interagir ou modificar nada.
Aquilo que eu via, era um mundo úmido, com cidades que saíam da lama e da água. Entre névoas do que pareciam intermináveis pântanos, a cidade radiante se erguia, no centro de todas as outras, com torres que pareciam sustentar os próprios céus. Em suas muitas passagens e pontes, serpentes com quatro membros superiores e cabeças como cogumelos transitavam, em perfeita harmonia, existindo como indivíduos e como comunidade sem distinção.
Mas ao longo da sua existência harmoniosa, dos céus vieram grandes superfícies escuras, as quais trouxeram dor e morte às serpentes. Cada dia vinham mais bestas estelares. Seus corpos como emaranhados de vermes, mantinham sua forma somente por suas grandes orbes oculares. Eles usavam suas luzes como instrumentos de destruição. Enquanto os vermiformes não se opuseram à sua aniquilação, eles tentaram usar suas palavras contra o ataque incessante daqueles que nada pareciam desejar, além do caos e do fim.
Um do povo do pântano, nas profundezas de seu salão de máquinas e soluções, usou observação e análises poderosas sobre os restos dos invasores – que encontraram seu fim nas águas nebulosas e escuras das terras inundadas. Ele criou um composto, o qual foi distribuído a todos que conhecia, para tomar e para também distribuir a todos que conheciam. Desse composto, ele próprio tomou uma dose.
Quando os monstros das estrelas devoravam a carne morta de indivíduos que haviam tomado aquele composto, eles foram infectados por algo. E essa infecção, eles passavam uns para os outros todo período de descanso, em seus poços de comunhão horrorífica, onde seus corpos disformes podiam relaxar em massas incompreensíveis de vermes e orbes.
Toda vez que um dos infectados tirava uma vida através de suas ações de extermínio, sua mente era mergulhada em tal dor, que lhe causava a morte. Eventualmente, quase todos os invasores estavam infectados, incapazes de tirar vidas. Isso fez com que eles se retirassem do mundo envolto em brumas.
O indivíduo que criou a doença da empatia extrema foi venerado como um herói, e quando encontrou seu fim por razões naturais, um grande mausoléu foi feito para seu corpo, com máquinas de observação e armazenamento. Seu último local de descanso foi atirado aos céus e permitido que caísse eternamente pelo cosmos.
Durante o tempo incontável em que seu túmulo viajou, as máquinas presenciaram e gravaram todos os tipos de visões e histórias de centenas de mundos. Elas viram civilizações primitivas se erguerem e caírem, lançarem seus corpos no vazio eterno em busca de saciar suas sempre crescentes curiosidades. Elas as viram matarem outros de seu próprio povo em nome de ideais distorcidos por demagogos de todos os tipos, em dezenas de mundos. Elas viram história se perder por descaso daqueles que deveriam preservá-la. Arte ser desvalorizada. Atrocidades cometidas em nome da espiritualidade. Também viram mentiras e interesses pessoais causarem o fim de mundos, extinções em massa. Grandes corpos cósmicos caindo em mundos despreparados, causando sofrimento em massa, aniquilação de culturas e modos de pensar, modos de ver o universo.
Em nenhum lugar, as máquinas viram tamanha harmonia de comunidade como existia em seu planeta natal, com exceção dos horrendos seres de uma lua escura, que usaram sua união para causar o mal a outras criaturas vivas. Enormes máquinas de guerra e destruição foram criadas naquele mundo, preenchidas pelos desprezíveis seres alados que desejavam dominação e subjugação através da força, impondo sua paz sobre outros através da guerra. Por incontáveis órbitas eles dispararam titânicas embarcações de combate para outros mundos, infectando aquela região galáctica com sua doença de violência e dominação, com seu ódio e sua repugnante paz forçada.
Mas nada dura para sempre, e a cultura violenta das aves da morte foi rapidamente silenciada por instrumentos de destruição daqueles próprios que eles haviam dominado e abusado, dando a eles a “dádiva” de sua paz universal e harmônica.
Mas a marca do flagelo interestelar não foi fácil de se apagar, mundos morreram e mundos se juntaram à comunidade galáctica, mas nenhum deles viveu em um universo onde as coisas não fossem moldadas com aspectos da então morta máquina de guerra de penas. Seus idiomas e artes para sempre estavam modificadas pelo período de servidão, sua tecnologia para sempre derivada de instrumentos provenientes dos gênios malévolos que saíram a tanto tempo de sua lua escura.
Uma conclusão era certa, haviam dois tipos de sociedade quando baseadas em sua relação com outras sociedades: as que viviam com medo e desejavam dominar ou destruir a outra antes que isso fosse feito com ela; e as que tratavam todos com respeito e igualdade, que queriam viver em paz, harmonia real, mas que eram atormentadas constantemente por suas dificuldades individuais se sobrepondo sobre o bem coletivo.
As culturas que temiam seus iguais e seus diferentes, criavam restrições, mentiras, estabeleciam tiranias, provocavam guerras, viviam e morriam pelo seu medo, disfarçado de valentia e coragem. Enquanto as pacíficas e indiferentes culturas, não eram capazes de união e ação como uma única mente sobre incontáveis corpos.
Quanto mais longe o mausoléu foi, mais as máquinas viram o padrão se repetir. Milhares de vezes ao longo de centenas de mundos, e apesar de que sempre era diferente, sempre específico para aquele mundo, aquele período, aquela espécie, sempre era um dos dois. As máquinas temiam que isso fosse tudo aquilo que havia para observar em questão social – paz e avanço lento por individualismo ou guerra e avanço rápido, porém destrutivo pela falta de visão futura. Elas temiam que não haja um mundo tão bom quanto o seu mundo natal, onde as névoas cercam torres luminosas até os céus, e o povo é harmônico, pacífico, e existe em uma única comunidade.
Minha visão finalmente retornou ao seu normal. Eu tinha uma extrema necessidade de ingestão de nutrientes – quanto tempo estive ali, em transe vendo imagens e memórias que não eram minhas? Imagino que meu corpo tenha sido mantido em algum tipo de animação suspensa, caso contrário a atmosfera dentro do meu traje teria acabado. Como tudo que vi e senti sugeriram, aquele mausoléu de máquinas curiosas era benigno em seu extremo.
Os olhos dos pilares se apagaram, todas as luzes diminuíram sua intensidade. Era como se a sala estivesse voltando para seu descanso novamente, resguardando sua energia. Sua missão ainda não tinha chegado ao fim, sua missão não tinha fim, ele iria eternamente vagar pelo cosmos – observando de longe, por incontáveis éons por vir, toda sociedade e comunidade ao alcance de seu poderosíssimo olho artificial, que enxerga através do tempo, pelo princípio da velocidade da luz.
Todos serão julgados pela sabedoria e pela paz harmônica das criaturas que tanto sofreram, mas que tiveram sua vitória de forma custosa, porém pacífica, sem perder sua dignidade e seus ideais.
Quando me virei para sair, e voltar até meu transporte, uma das protuberâncias – diferentemente de todas as outras – lentamente levitou um tipo de cristal. Reconheci aquela tecnologia a partir das minhas visões, ela era uma estrutura artificial feita a nível molecular, que permitia que seu detentor, através de concentração, pudesse armazenar suas memórias lá, para a posteridade. Pelo meu então recente adquirido entendimento daquela entidade mecânica, pude interpretar aquilo como um presente.
Peguei o cristal de memória e me retirei lentamente do local de descanso daquele que buscava somente conhecimento e união. Daquele que amava sua comunidade. Daquele que foi um genuíno herói. Daquela grande serpente que levou paz à estrutura mental de criaturas vis que só podiam matar. Daquele que salvou seu mundo usando nada mais que sua mente e ironia. Daquele que viverá virtualmente para sempre em seu sepulcro interestelar.



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